Cuidado com o que é velho

“Não acredite no Velho…ele mente!” – eis o primeiro conselho que você tem ao abrir o livro Cira e o Velho, do Walter Tierno (uma dedicatória que vem juntamente de um mimo da Cira). E este conselho te persegue o livro inteiro, como um prenúncio de clímax (ou, para alguns, até um anticlímax – mas é de gosto).

Fazia um tempo que eu queria ler este livro, tanto por se tratar de literatura que carrega nosso folclore, quanto por (e talvez o mais significativo) ter tido duas indicações de amigas que confio no gosto literário. Assim que fiz a propagandazinha básica de cada dia, com fotos da aquisição (e do mimo), elas já me disseram que eu iria adorar. E, para provar a confiança, não mentiram para mim.

O livro tem uma fluidez e agilidade gostosas. Consegui lê-lo, sem sacrifício algum, em três sentadas. Foram três por falta de tempo, mesmo, pois num período bom, eu conseguiria tê-lo lido em um domingo, sentadinha na minha varanda, ao lado do cachorro (minha maneira preferida de me perder em um mundo de páginas).

A Cira não nos é apresentada logo de início. Se não me engano, ela nos dá a graça de sua presença lá pela sexta ou sétima dezena de páginas. Antes disso, nós conhecemos o Velho. Um paulista dos mais cruéis que a está perseguindo a pedido de Maria Caninana, irmã do também cobra, Norato.

Toda a narrativa é desenrolada através dessa perseguição do Velho pela Cira, filha de Norato, e ela o perseguindo de volta. A mistura da nossa mitologia, do nosso às vezes tão (injustamente) subestimado folclore, dá um encanto na história que me fez sorrir em alguns pontos. Tierno pegou essas tão queridas criaturas e as colocou num livro só, e de uma maneira que não deu nenhuma sensação caleidoscópica, muito pelo contrário. Animais-reis, índios, criaturas mitológicas, escravos dos Palmares… Se alguma vez pisou nessas terras (literais ou literárias), Tierno pegou emprestado para que tanto a Cira quanto o Velho tivessem seu contato com essa riqueza que nos é passada de maneira deliciosa numa mistura histórica e moderna.

E o final… ah, o final! As últimas páginas, depois de lidas, simplesmente me fizeram olhar para o título de maneira maravilhada – coisa que apenas um bom título faz. E também me fez dar um meio sorriso para a dedicatória que foi, na verdade, um aviso. Um belo, e nada anticlímax, aviso

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