Da violência aceitável e da que nos violenta

Antes de mais nada, todo tipo de violência nos violentaVocê pode até pensar que não. Que é imune a determinadas coisas. A determinadas situações. Mas pare só um momentinho nessa sua vida de olhos forçadamente vendados e olhe aquele cantinho sombrio comigo.

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Falemos de “ponto de vista”. Ele é algo realmente interessante. Pois dependendo dele, as pessoas aprovam, aceitam, compreendem e até justificam – ou não – determinadas situações. Por exemplo: você teve seu celular roubado enquanto caminhava todo ocupado, em sua hora de almoço. Por sorte, havia um policial ali perto que viu tudo. Ele vai atrás do ladrão, pega seu celular de volta e dá umas cacetadas nele para o ladrão “aprender” – da mesma maneira que seus pais te batiam com chinelo quando você fazia algo muito errado. Você pode não gostar, mas não vai pedir para ele não “corrigir” aquela pessoa. Afinal, como essa pessoa ousa te roubar, quando você trabalhou arduamente para pagar cada prestação do celular? Ela precisa ser corrigida sim. E um e outro esporro não vai matá-la.

don__t_wanna_see_that_gif_by_shock777-d5ibku6Então, apenas com um e outro ponto no corpo dolorido, mas sem ter realmente marcas roxas ou qualquer lesão ou sinal de agressividade, o ladrão é encaminhado para a delegacia. E você segue sua vida, já esquecendo do que aconteceu.

Essa situação não te afetou. Afinal, você foi a vítima. Você foi o real prejudicado nisso tudo. Por sorte, e apenas por isso, tinha um policial que fez o trabalho dele, honrando os impostos altíssimos que você paga (e que, a gente sabe, não são tão bem empregados como deveriam – não os policiais, os impostos – embora os policiais também não recebam o que deveriam).

Digo isso apenas para pintar uma situação de ponto de vista. Pois a do ladrão seria diferente. Ele poderia ser uma pessoa desesperada que deve dinheiro para alguém. Poderia ser um jovem que, pela má distribuição de renda, não conheceu uma vida mais digna e trabalha para uma rede de assaltantes. Essa pessoa culparia você, abocanhador de grande parte da renda, em estar esfregando na cara dele a miséria que ele é obrigado a viver para que você tenha um celular de última geração.

No entanto, eu não quero falar de política social (ou talvez de certo modo queira, mas, whatever). O que quero falar é de The Walkig Dead. Da violência chocante que foi o episódio de estreia da sétima temporada. Daquelas duas mortes que, para nós, telespectadores, foram gratuitas. Uma mostra de poder, da violência que um psicopata pode gerar.

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Jeffrey Dean Morgan como Negan (reprodução)

E ainda pelo ponto de vista de quem assiste a série desde a primeira temporada digo que:

  1. A primeira morte foi horrível. Mas me deu certo alívio. Afinal, não era um personagem que eu acompanhava desde a primeira temporada. Aceitei. Apesar de chocada com a violência, respirei.
  2. Mas aí me veio a segunda morte. A morte que me deu taquicardia, que me deixou sem respirar por alguns segundos. Pois a gente tem essa empatia com os personagens. É comum. Fazemos isso com personagens de livros, de séries televisivas, de novelas (quem nunca desejou que determinado personagem morresse logo, que atire a primeira pedra!). Essa segunda morte não me sai da cabeça até hoje.

Está vendo a coisa do ponto de vista? De eu (assim como muitos telespectadores) aceitar e compreender a primeira morte? Afinal, era apenas um personagem recente. E se alguém precisasse morrer, que fosse alguém que eu, como telespectadora, tivesse menos empatia. Mas a segunda morte… Desnecessária? Ultrajante? Gratuita?

Eu não tenho formação bastante para entender a necessidade estranha que o ser humano possui sobre a violência. Talvez seja algo enraizado em nosso DNA de milhares de anos atrás, quando era matar ou ser morto, comer ou ser comido. Ou talvez seja ago contemporâneo que tenha aflorado esse lado psicótico de cada um. Ou quiçá uma sociedade permissiva com pequenos grupos, e isso já nos deixou acostumados a aceitar a violência com ladrões, homicidas, pessoas que não conhecemos.

Não gosto de pensar muito nessa “violência permitida”. Mas é impossível. Então hoje fui pesquisar um pouquinho sobre a necessidade da violência. E achei esse artigo no Jornal Tornado Online, de Portugal:

O horror à violência, hoje, é parte dessa ideologia liberal da tolerância. Começa-se a criticar a violência e no final advoga-se a tortura. (Guantánamo e exemplos próximos são uma consequência necessária desse aparente liberalismo antiviolência) – diz-nos sem peias Slavoj Žižek. […]  Hoje vivemos numa mundo violento, com fórmulas antagónicas e paradoxais de violência. Mas ainda não há violência suficiente para operar uma mudança que nos ajude. Porque somos pequenos e agressivos. Não somos grandes e violentos. Essa grandeza é Humana – uma aprendizagem dura. E essa violência (muito para lá da violentação física, entenda-se) é a que potencialmente nos prepare para coisas duras (e violentas) como a paz entre opostos.

Então aceitamos a violência como meio de paz. E ainda falando de TWD: aceitamos a primeira morte por ela ser inevitável. E foi bom não ser alguém que já se criou algum vínculo empático. Aceitaríamos a “paz” que viria depois dessa morte. Mas então veio a segunda… E não sei se estaríamos mais tão dispostos a aceitar a chamada “paz”. Eu, por exemplo, se não fosse pela segunda morte, não estaria agora desejando que Shiva comesse o Negan. Devagar. Pedaço a pedaço. E eu compreendo, aceito e justifico essa violência. Afinal de contas, é apenas um personagem. Mesmo que seja com um personagem que retrata, infelizmente, muita coisa horrível e torturante de nossa sociedade.

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Ezequiel e a tigresa Shiva (reprodução)