Em busca da felicidade literária

Tinha um bom tempo que eu não me acabava com o final de um livro. Lembro que uma das poucas vezes foi quando eu li Harry Potter e as Relíquias da Morte; aquele momento em que o Harry finalmente percebe que seu sacrifício é tão iminente como inerente. Desde a cena da penseira até o momento em que ele encara o Voldemort, pra mim foi uma tormenta. Afinal, eu tinha me afeiçoado ao Harry como se ele fosse feito de carne e osso. Um menino criado por J. K. Rowling tinha se tornado tanto meu professor como meu amigo, um ombro nos momentos em que tudo o que eu queria era uma vida tranquila; uma vontade de que as histórias que tanto me fascinam e prendem não fossem um reflexo tão forte de uma realidade que ou eu vivencio ou vejo transmitida pelas mídias.

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Celaena Sardothien (reprodução)

Lendo a série Trono de Vidro, de Sarah J. Maas, tive o mesmo com Celaena. A princípio eu não fui muito com a cara dela. Uma personagem que, depois de dez anos construindo sua fama como Assassina de Adarlan (sim, uma das melhores no que faz com tudo o que a bagagem do título carrega) e depois de um ano sendo escrava e sofrendo violências numa mina de sal, ela me mostrava uma disposição para a leveza de espírito que não cabia em quem construiu um passado como o dela.

Sim, ela queria essa leveza. Buscava a todo custo deixar para trás aquele passado horrível. Mas, ainda assim, ela revisitava aquela Celaena cruel. E era quando eu tinha a sensação que ela não havia sido tão bem construída. Uma montanha russa de sentimentos e ações que não me pareceram coerentes com o passado de assassina.

Mas então veio Coroa da Meia-Noite. Esse livro me mostrou a Celaena que deveria ter conhecido no primeiro. E foi quando eu finalmente a aceitei como personagem. Coerente. Que finalmente sabe quem é, mesmo com sentimentos tão controversos. E quando digo personagem, digo em termos literários; em termos que devem ser considerados a realidade que a gente sabe que é intrínseca ao ser humano (pois só assim nos identificamos com eles, os aceitamos e, também, os amamos ou odiamos – ou ficamos indiferentes).

Sendo o ser humano uma criatura inconstante no que tange a evolução emocional e psicológica – afinal, a cada dia conhecemos mais do mundo e do que ele tem a oferecer, e isso nos muda sim! -, com Celaena não seria diferente. Sua evolução, desde Trono de Vidro até o último lançado da autora, Empire of Storms (cuja tradução, pela editora Galera Record, não tem data de lançamento ainda), foi excepcional. E por mais que Celaena tivesse seus altos e baixos como criatura, a personagem seguiu sólida.

E foi por aceitar Celaena, por ver a excepcional evolução dela, por saber que ela passou por tanta coisa, que o final do quinto livro foi um baque: pois foi coerente. Foi real. E é muito difícil lidar com a realidade todos os dias. Ela é feia quando queremos apenas beleza; é pesada quando tudo o que precisamos é leveza. Mas também nos traz esperança – e é isso que nos move, de qualquer maneira. Esperança de um amanhecer mais leve e bonito.

E esperança de um sexto e último livro que seja tanto coerente como feliz. Pois também não é isso que nos move? A felicidade – e a esperança de encontrá-la em suas mais variadas formas?

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(reprodução)

Nenhum livro vai ocupar o lugar da série Harry Potter no meu coração por N motivos. E o Harry continuará a ser aquele velho amigo sempre disposto a me fazer sorrir. Mas Sarah J. Maas me fez colocar a série Trono de Vidro também na estante. Li tudo em e-book. Mas como colecionadora de livros que sou – descobri o termo há pouco tempo e me identifiquei muito! -, a série está na lista para ser adquirida junto de outros poucos títulos. Afinal, sou uma chata no que diz respeito às leituras minhas de cada dia. Porém Celaena ganhou seu lugar no trono.

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