Cuidado com o que é velho

“Não acredite no Velho…ele mente!” – eis o primeiro conselho que você tem ao abrir o livro Cira e o Velho, do Walter Tierno (uma dedicatória que vem juntamente de um mimo da Cira). E este conselho te persegue o livro inteiro, como um prenúncio de clímax (ou, para alguns, até um anticlímax – mas é de gosto).

Fazia um tempo que eu queria ler este livro, tanto por se tratar de literatura que carrega nosso folclore, quanto por (e talvez o mais significativo) ter tido duas indicações de amigas que confio no gosto literário. Assim que fiz a propagandazinha básica de cada dia, com fotos da aquisição (e do mimo), elas já me disseram que eu iria adorar. E, para provar a confiança, não mentiram para mim.

O livro tem uma fluidez e agilidade gostosas. Consegui lê-lo, sem sacrifício algum, em três sentadas. Foram três por falta de tempo, mesmo, pois num período bom, eu conseguiria tê-lo lido em um domingo, sentadinha na minha varanda, ao lado do cachorro (minha maneira preferida de me perder em um mundo de páginas).

A Cira não nos é apresentada logo de início. Se não me engano, ela nos dá a graça de sua presença lá pela sexta ou sétima dezena de páginas. Antes disso, nós conhecemos o Velho. Um paulista dos mais cruéis que a está perseguindo a pedido de Maria Caninana, irmã do também cobra, Norato.

Toda a narrativa é desenrolada através dessa perseguição do Velho pela Cira, filha de Norato, e ela o perseguindo de volta. A mistura da nossa mitologia, do nosso às vezes tão (injustamente) subestimado folclore, dá um encanto na história que me fez sorrir em alguns pontos. Tierno pegou essas tão queridas criaturas e as colocou num livro só, e de uma maneira que não deu nenhuma sensação caleidoscópica, muito pelo contrário. Animais-reis, índios, criaturas mitológicas, escravos dos Palmares… Se alguma vez pisou nessas terras (literais ou literárias), Tierno pegou emprestado para que tanto a Cira quanto o Velho tivessem seu contato com essa riqueza que nos é passada de maneira deliciosa numa mistura histórica e moderna.

E o final… ah, o final! As últimas páginas, depois de lidas, simplesmente me fizeram olhar para o título de maneira maravilhada – coisa que apenas um bom título faz. E também me fez dar um meio sorriso para a dedicatória que foi, na verdade, um aviso. Um belo, e nada anticlímax, aviso

Em busca da felicidade literária

Tinha um bom tempo que eu não me acabava com o final de um livro. Lembro que uma das poucas vezes foi quando eu li Harry Potter e as Relíquias da Morte; aquele momento em que o Harry finalmente percebe que seu sacrifício é tão iminente como inerente. Desde a cena da penseira até o momento em que ele encara o Voldemort, pra mim foi uma tormenta. Afinal, eu tinha me afeiçoado ao Harry como se ele fosse feito de carne e osso. Um menino criado por J. K. Rowling tinha se tornado tanto meu professor como meu amigo, um ombro nos momentos em que tudo o que eu queria era uma vida tranquila; uma vontade de que as histórias que tanto me fascinam e prendem não fossem um reflexo tão forte de uma realidade que ou eu vivencio ou vejo transmitida pelas mídias.

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Celaena Sardothien (reprodução)

Lendo a série Trono de Vidro, de Sarah J. Maas, tive o mesmo com Celaena. A princípio eu não fui muito com a cara dela. Uma personagem que, depois de dez anos construindo sua fama como Assassina de Adarlan (sim, uma das melhores no que faz com tudo o que a bagagem do título carrega) e depois de um ano sendo escrava e sofrendo violências numa mina de sal, ela me mostrava uma disposição para a leveza de espírito que não cabia em quem construiu um passado como o dela.

Sim, ela queria essa leveza. Buscava a todo custo deixar para trás aquele passado horrível. Mas, ainda assim, ela revisitava aquela Celaena cruel. E era quando eu tinha a sensação que ela não havia sido tão bem construída. Uma montanha russa de sentimentos e ações que não me pareceram coerentes com o passado de assassina.

Mas então veio Coroa da Meia-Noite. Esse livro me mostrou a Celaena que deveria ter conhecido no primeiro. E foi quando eu finalmente a aceitei como personagem. Coerente. Que finalmente sabe quem é, mesmo com sentimentos tão controversos. E quando digo personagem, digo em termos literários; em termos que devem ser considerados a realidade que a gente sabe que é intrínseca ao ser humano (pois só assim nos identificamos com eles, os aceitamos e, também, os amamos ou odiamos – ou ficamos indiferentes).

Sendo o ser humano uma criatura inconstante no que tange a evolução emocional e psicológica – afinal, a cada dia conhecemos mais do mundo e do que ele tem a oferecer, e isso nos muda sim! -, com Celaena não seria diferente. Sua evolução, desde Trono de Vidro até o último lançado da autora, Empire of Storms (cuja tradução, pela editora Galera Record, não tem data de lançamento ainda), foi excepcional. E por mais que Celaena tivesse seus altos e baixos como criatura, a personagem seguiu sólida.

E foi por aceitar Celaena, por ver a excepcional evolução dela, por saber que ela passou por tanta coisa, que o final do quinto livro foi um baque: pois foi coerente. Foi real. E é muito difícil lidar com a realidade todos os dias. Ela é feia quando queremos apenas beleza; é pesada quando tudo o que precisamos é leveza. Mas também nos traz esperança – e é isso que nos move, de qualquer maneira. Esperança de um amanhecer mais leve e bonito.

E esperança de um sexto e último livro que seja tanto coerente como feliz. Pois também não é isso que nos move? A felicidade – e a esperança de encontrá-la em suas mais variadas formas?

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(reprodução)

Nenhum livro vai ocupar o lugar da série Harry Potter no meu coração por N motivos. E o Harry continuará a ser aquele velho amigo sempre disposto a me fazer sorrir. Mas Sarah J. Maas me fez colocar a série Trono de Vidro também na estante. Li tudo em e-book. Mas como colecionadora de livros que sou – descobri o termo há pouco tempo e me identifiquei muito! -, a série está na lista para ser adquirida junto de outros poucos títulos. Afinal, sou uma chata no que diz respeito às leituras minhas de cada dia. Porém Celaena ganhou seu lugar no trono.

Não é top-5, mas é da Nora

Romance nunca foi uma de minhas leituras top-5. Eu vou para o romance, aquele clichê, rosa-chiclete, moço-bonitão-encontra-mulher-independente/fragilizada, quando eu quero muito desanuviar ou preencher uns minutos de sem nada para fazer. E, não, não desmereço em nada os romances. E os exalto quando o romance aparece como parte da história, e não ela toda. Talvez seja por isso que eu adore ler Priscila Louredo.

Mas não foi sobre a Priscila que eu quero falar. É sobre outra. Ela. A dita “Rainha dos Romances”, também conhecida como Norinha.

Nora  Roberts é uma das minhas preferidas em preenchimento de tempo e desanuviamento. Adoro Trilogia da Magia, Trilogia da Fraternidade (embora o terceiro poderia ter um fim mais arranjado, em minha opinião), Irmãos MacKade e entre outros livros que ela escreveu atualmente. Sim, atualmente. Porque nos últimos dias fui me enredar pelo Legado dos Donovan. E devo dizer que os três primeiros foram aprovados. Já o quarto livro…

Bem, vamos lá à explicação.

Antes de mais nada, a saga O Legado dos Donovan fala de um legado hereditário de magia que a família Donovan (dã!) possui, ligado diretamente ao herói mitológico irlandês Finn McCool. Mas o legal é que é um livro de história contemporânea, e foi bem interessante ver os personagens lidando com seus poderes em pleno século XX e vendo como a nossa sociedade nada tolerante lida com isso.

O primeiro livro, lançando em 1992, tem o título de “Cativado”, e fala de uma mulher independente, segura de si tanto pessoal quanto magicamente, e que vê num roteirista de filme de fantasia e horror seu amor para toda vida. O desenrolar deles é aceitável, e você se diverte vendo a bela Morgana dando indícios mais do que fortes de que é uma feiticeira sim, porém o belo Nash Kirkland vê suas palavras apenas como um aproveitamento de rótulo que o pessoal da Califórnia deu a ela.

Já o segundo, Fascinado, foca no praticamente irresistível (palavras minha, não apenas da autora) Sebastian, e  no poder dele, que é de ler mentes e conseguir ver e sentir, através de objetos, onde e como estão seus donos. Por ter um enredo policial, esse me fascinou mais. E muitas vezes eu vi a personagem Mel personificada como a Sonya Cross, de The Bridge.

O terceiro, Encantado, fala de Anastasia (ou Ana) e seu poder quase torturante que é o de empatia. Imagina você conseguir sentir tudo o que outra pessoa sente: tanto emocional, quanto física e mentalmente? Imaginem a loucura que seria se você não se fechasse para os outros?! E Anastasia também sofreu ao dizer quem era para o homem que amava. Esse livro foi bem sensível, em minha opinião.

Quanto ao quarto livro, Enfeitiçado… Bem, eu não o terminei. Não consegui. Porque o problema não foi o interesse quase maluco que os personagens já apresentam ao menor sinal de olhar de esguelha e encontro sem-noção. O problema foi o Liam (filho de Finn), que é um metamorfo, transformar-se em lobo e agir feito um cachorro sem-dono e, de quebra, ver a bela Rowan se despir na frente dele sem ela saber que ali, em seu quarto, não está um animal que ela confia, mas um homem que ela não tem intimidade nenhuma. Fui correndo nas páginas, meio atropelando a leitura, porque queria ver como ela reagiria quando descobrisse que um homem, que ela não autorizou, a tivesse visto nua. E qual não foi minha frustração quando ela não falou NADA! Não se irritou, não mandou o cara ir se tratar, não falou que voyerismo não era sua praia. Porque, gente, pelamordedeus, o cara invadiu sua intimidade sem ela permitir!

Desapega, gente, desapega!

Esses livros mais antigos da Nora pecam nisso, para mim. Essa aceitação de que a mulher tem que baixar a cabeça, ser sempre a portadora de um erro que muitas vezes sequer é dela, aceitar que um homem pode tratá-la como qualquer coisa só porque é homem e está apaixonado. Fora o fato de que uma mulher nunca pode dar as costas para um homem sem que ele lhe agarre o braço em sequência.

Como eu disse, os três primeiros foram aceitáveis para mim. Embora que, quando os dois homens de Cativado e Encantado descobriram o poder das outras mulheres, eles se sentiram traídos por não terem sabido logo de cara. Aloou! Alguém aí sai contando seus segredos para o primeiro ser humano que lhe sorri? Claro que não! E em Fascinado, quando é a Mel quem faz algo que o Sebastian desgosta, adivinha quem aparece feito cãozinho sem dono pedindo milhões de desculpas? Sim, a mulher. Afinal, como ela se acha no direito de agir independente, em uma situação que precisou pensar rapidamente?

Por isso que gosto da Nora atual. Pós anos 2000. Porque nessa época, ela pegou essa chatice de ser feminista e a considerou em 80% do tempo. Mas ainda tem muito o que melhorar. Só que como não é nenhuma literatura tipo Virgínia Woolf ou Jane Austen, a gente vai aceitando. Afinal, é só pra matar o tempo e perceber como precisamos mudar esses rótulos degradantes de nossa sociedade.

[RESENHA] 50 Tons de Cinza – Filme

Rendi-me aos tons de Gray

…e também vou embora para a Georgia.

Porque, olha, querid@… Não deu não.

“Sr. Grey vai vê-la agora”

Então fuja para as montanhas, benhê!

Eu não li os livros da trilogia “50 tons”. Mas, como a grande maioria, eu sabia que eles são uma fanfic de Crepúsculo e que teve nomes mudados e a retirada de mitologia. Há até diálogos transcritos, ali, perceptíveis para quem quiser ver. Como eu li a série Crepúsculo, eu os detectei no filme com facilidade. Assim como a coisa do “sou sem-sal, sem autoestima, me acho feia mas todos me acham linda demais” junto do “vou te rastrear e te observar sem você saber“. Mas deixando de lado os vampiros stalkers que brilham e a mocinha que só fica fodona quando se torna exatamente igual ao amado dela, voltemos aos tons de Grey.

A curiosidade em assistir ao filme “Cinquenta Tons de Cinza” veio porque, além da irmã maluca por todo tipo de entretenimento romântico, ouvi outra amiga, que confio no bom-gosto, dizer que tirando tudo o que é ruim o filme era bom e que os atores faziam com que ele valesse a pena (ou que ele alcançasse 02 estrelas, sejamos generosas, aqui). E devo concordar.

Jamie Dornan está excelente. Intenso. E tirando toda aquela pose de “eu sou bom, o resto é resto, façam o que eu digo, deem-me prazer, e o mundo que se exploda”, os olhos dele me fascinaram. E Dakota Johnson adquiriu aquele Q de sonsa que a personagem pede – e também a irritante mania de morder o lábio inferior umas trocentas vezes como descreve o livro. (Não sei como não arrancou aquele beiço fora, mas, enfim, voltando).

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Afora a performance dos atores e trilha sonora espetacular, não sobra nada no filme. Certo, tudo bem, até a metade do filme dá para assisti-lo sem sentir formigas no sofá. E uma vez que eu tentei enterrar a vontade de rir ao ter na tela uma mostra de erotização mal-feita do (também duvidoso) Crepúsculo, me prendi ao enredo – que não rende em nada.

Há tantos buracos na trama que se eu listar tudo aqui, vai ser cansativo. Personagens que não se mostram verdadeiramente e ficam num joguinho de “Eu sou assim” é um porre danado. Fora que dá para notar o olhar de “você é um doente idiota” que a Anastasia tem para o Grey quando ele começa a falar de BDSM, embora mostre gostar quando entram no famigerado quarto vermelho (sem falar da aprovação dela sobre ele ser stalker – já que ele é gostoso e rico demais para ser rotulado como stalker). E então o “doente idiota” se transforma em “sádico sexual”, uma vez que, ao fim, Grey mostra um nível diferente de BDSM que Anastasia não aprova (também, com a transformação de prazer em agressividade gratuita, quem gostaria?). E ele sequer se preocupa em dizer a ela o que vai fazer! Gente, será que li errado no Wikipedia ou BDSM precisa dizer essas coisas?

A única coisa mais tortuosa que o sexo de

50 Tons de Cinza é a escrita de 50 Tons de Cinza.

Devido ao diálogo que se limitava ao “Eu sou assim e blá blá blá, aceite o carro zero e as roupas novas, e blá blá blá, você é minha e blá blá blá”, a antes virgem se viu pressionada a aceitar um cara que era mais do tipo “foda-se as explicações verdadeiras, quero mais é ter meu prazer. Beijos e chicotes e até amanhã”. A única frase sobre BDSM que Grey falou e que eu gostei, foi o fato de que “o medo está na mente da Anastasia”. Que existem, sim, níveis suaves no BDSM que qualquer um  consegue ter acesso com uma simples digitação no Google (imagino eu que a autora dos livros leu apenas o primeiro parágrafo da primeira página que apareceu, porque, olha… sei lá, viu). E para quem pratica o BDSM desde os 15 anos, Grey se mostra extremamente indiferente com sua parceira depois de umas tomadas.

Ou seja, o que antes era tolerável até parte do filme, se transformou em “por que perdi duas horas com essa coisa?”. Mas, é como eu disse antes. Foi uma curiosidade. Entender por que tanta gente fala mal do livro. Bem, agora eu entendo. Tanto da parte de quem acha errado alguém se jogar em um relacionamento com um stalker controlador, quanto dos que defendem a bandeira do BDSM – aquele saudável, quando os parceiros conversam, falam exatamente tudo o que querem e como vão fazer, em vez de ligar o botãozinho do “mãos amarradas, vontades amarradas”.

E alguém que assistiu notou, ou foi apenas eu, o fato de que algumas (poucas!) das cenas boas eram exatamente as que não envolviam sexo de qualquer tipo? Como a entrevista (os olhares de Dornan me ganharam ali!), eles dançando (gostei porque mostra sensualidade e libertação da personagem – o que a dança também proporciona) e o passeio do avião em Georgia. Pois é… É isso que se consegue com trama ruim, enredo falho e falta de pesquisa por parte da autora: uma Bianca/Júlia/Sabrina versão abusiva.

Para mim, o único ponto positivo que livro/filme pode apresentar é que ele vem trazendo uma liberdade sexual para as mulheres que ainda se veem presas em muitos tabus machistas e misóginos. Fora isso… Obrigada, mas, não, obrigada.

Dois de Laini Taylor

Dias de Sangue e Estrelas

Uma das coisas que faz eu amar livros cada vez mais é o que eles fazem comigo depois que eu leio a última palavra da última página do último capítulo. Há livros, é claro, que me fazem dizer “Aleluia!” por ter conseguido terminar. E, é óbvio, há aqueles que eu fico olhando e olhando, como se mais palavras fossem simplesmente cair do céu até as páginas finais. 

Comecei com Feita de Fumaça e Osso (resenha aqui) de maneira despretensiosa. Apeguei-me a Karou e Akiva sem perceber, lamentando por eles, torcendo por eles, sentindo o que eles sentiam enquanto Laini Taylor destrinchava na sequência Dias de Sangue e Estrelas e Sonhos com Deuses e Monstros.

Depois que terminei de ler o terceiro livro da trilogia, me senti meio zonza. E um tanto alucinada. Há certas coisas que eu prezo muito em literatura. Não, não é a verossimilhança. Ela pode ficar num…ahm…terceiro lugar, talvez. Penso que em primeiro lugar vem sempre os personagens. São eles que nos fazem querer continuar a virar as páginas, querer descobrir o que os aguarda. Amor, separação, morte ou vida? Em segundo lugar vem a narrativa. Um “jovem adulto” abrange tantas narrativas que só sabendo do que o livro se trata a gente pode escolher melhor.

Sonhos com Deuses e Monstros

A trilogia da Laini Taylor tem partes sombrias. Afinal, os livros falam de guerra entre quimeras e anjos, aniquilação de raças, vidas ceifadas, e até que ponto isso irá afetar o mundo humano. Mas também fala de amor e amizade, de pessoas de dezoito anos e criaturas que viveram séculos demais. Àquelas estão diretamente ligadas à leveza da narrativa. Faz rir mesmo que o peso do mundo esteja nos ombros da principais personagens – e que sentimos a todo momento. Há música, há calmaria. Há risos. Assim como há choros, luta. Guerra.

Falar da trilogia Feita de Fumaça e Osso é falar disso tudo. E também (outra coisa que adoro em literatura) de drama. Drama por não saber, até a última página, o que realmente vai ser dos personagens que você aprendeu a gostar. Fica ali, sofrendo, querendo que eles se veem logo, se abracem logo, se beijem logo. E, enquanto isso não acontece, sofre com eles por essa separação, o que foram obrigados a fazer depois de tudo o que sofreram, apenas para sofrerem ainda mais (sim, muito sofrimento!). E não falo aqui apenas dos principais. Pois Taylor conseguiu desenvolver de maneira incrível seus personagens secundários, tão importantes na trama.

Ela segura os acontecimentos com uma mão apertada, deixando o leitor angustiado, sofrendo junto. E, então, você se vê igual aos rebeldes que se juntam. Improváveis, mas tão, tão essenciais. E é nesse momento que você vê que as diferenças não devem ser vistas como imposição, e sim com algo que se completa. Tem tanto ali de realidade, nos atos de serafins e quimeras que se envolvem apesar da guerra vivida há tantos anos, que você começa a pensar nas nossas próprias. Guerras verdadeiras que exterminaram seres humanos apenas por eles serem diferentes daqueles que se acham em supremacia. Você encontra nas palavras de Taylor um conceito pré-concebido sobre as criaturas, um conceito moldado por aqueles que estão no poder. Um conceito de que, se é diferente, deve ser exterminado.

E é isso que amo em livros. O que ele faz comigo depois de ler a última palavra da última página do último capítulo. Essa realidade tão intrínseca na literatura. E essa literatura tão enraizada em nossa – ainda distorcida – realidade.


Título: Dias de Sangue e Estrelas
Original: Days of Blood and Starlights
Editora: Intrínseca 
Edição/Ano: 2013
Páginas: 444
Sites: Skoob; Laini Taylor

 

 
Título:
 Sonhos com Deuses e Monstros
Original: Dreams of Gods and Monsters
Editora: Intrínseca 
Edição/Ano: 2015
Páginas: 558
Sites: SkoobLaini Taylor

Um retorno à delícia juvenil

Desde outubro eu não pegava um livro para ler. Prender-me em projetos próprios acabou atrasando minhas leituras e confesso que senti falta. É bom demais conhecer novos mundos, fantásticos ou não, e se permitir aventurar em uma história já pronta, que apenas te espera. Talvez seja por isso que gostei por ter voltado ao meu hábito de leituras com o primeiro volume da série Crônicas de Fímbria.

O livro tem uma narrativa leve, mas também que atinge o emocional. Ou talvez seja pela leveza que o emocional acaba sendo tocado… Não conhecia Paul Stewart ou Chris Riddell, e a apresentação, com Fora da Trilha, foi sensacional. A parte fantástica do livro é de uma riqueza maravilhosa e a sutileza com que ele descreve Fímbria, logo no capítulo introdutório, é de fazer cair o queixo. O livro é direcionado para o público infanto-juvenil, então tem tudo o que um pré-adolescente precisa. Uma busca por respostas e uma identidade, amigos sinceros e a descoberta de que nem tudo é o que parece, e tudo isso recheado de aventuras belas e perigosas. Pois assim é a Matafunda.

Escura e envolta em mistério, a Matafunda é cruel e perigosa para os que a chamam de lar. E muitos o fazem.[…] É uma vida dura e eivada de perigos mil – criaturas monstruosas, árvores carnívoras, hordas predadoras de bestas ferozes, grandes e também pequenas. E no entanto ela também pode ser proveitosa, pois as frutas suculentas e os bosques boiantes que ali vicejam são altamente valorizados. Piratas do céu e mercadores confederados competem no comércio e travam violentas disputas acima das infindas copas verde-oceano. – Páginas 09 e 10.

Esta foi apenas uma pequena introdução, a qual prepara o leitor para o que irá aparecer nas decorrentes 254 páginas.Twig é um garoto criado por sua mãe Spelda, uma arboritrol, que vive na Matafunda. Ele e nem a mãe sabem por que Twig foi encontrado ainda bebê, com pouquíssimo tempo de vida e envolto em um xale. Então, para que ele não seja dado aos Piratas do Céu por seu pai-arboritrol (que vê nele uma decepção), a mãe o faz ir até um parente para se esconder. Twig começa sua jornada, ainda de noite e sob o choro de sua mãe Spelda. Entretanto, ele acaba fazendo o que é imperdoável para um arboritrol: Twig sai da trilha.

E é aí que começam as aventuras de Twig. Ele conhece todos os tipos de criaturas que vivem na Matafunda, amigos verdadeiros – e alguns deles complicados -, porém também conhece criaturas cruéis e muito perigosas. Passa por provações, adquire conhecimentos valorosos, mas sempre acabando sozinho. É essa a sensação o tempo todo no livro: de que Twig é um garoto fadado a ficar sozinho, nunca se encaixando, desde que foi encontrado pela arboritrol Spelda.

Em relação à parte técnica do livro…Não há como não falar, pois vi este livro primeiramente no blog Mundo de Fantas, da Celly Borges. E nos comentários nós discutimos sobre a diferença da capa e tradução em relação à edição portuguesa. Em Portugal, a Porto Editora preferiu uma capa mais adulta, e a tradução é mais ao pé da letra. Já a Companhia das Letras mudou um pouco. A capa ficou mais infantil e sua tradução foi mais elaborada, digamos assim.

Um ano atrás eu havia achado ruim e estranha as escolhas da Companhia das Letras. Mas, agora, vejo que não (rendeu até uma procura no dicionário para a palavra “fímbria”). E achei fantástica as opções de tradução do Ricardo Gouveia. Sei que tradução é uma coisa complicada, e o tradutor tem que se prender não apenas ao pé da letra, e sim o que aquela palavra tem em relação ao livro num todo. Igual a “troll da floresta”, para a edição portuguesa, e “arboritrol” para a brasileira. É uma pegada bem inteligente, devemos confessar.

Edições portuguesa e brasileira

Então, Crônicas de Fímbria (ou Crônicas do Abismo, da Beirada) me tirou mais um dos pré-conceitos que eu tenho sobre edições literárias. E, também, me fez respeitar ainda mais o trabalho de tradutores (embora tradução de nomes eu não goste…James/Tiago, por exemplo).

Enfim… Fora da Trilha é um livro delicioso. Recomendo-o para quem gosta de literatura infanto-juvenil, mas também para aqueles que gostam de uma leitura leve, para um domingo à tarde, quando você não quer ter muito o que pensar ou raciocinar enquanto vira as páginas, mesmo que elas te façam pensar (sim, é contraditório). Como eu disse, a narrativa é de uma leveza gostosa (não que não haja momentos difíceis de engolir…), e as ilustrações, que ocupam grande parte do livro e são feitas por Riddell, são maravilhosas, não deixando nada para a imaginação do leitor. Você pode ler e olhar a imagem que tudo só fica mais vivo em sua mente. Dá até para matar a saudade de quando eu estava na escola, lendo Os Karas pela primeira vez, finalmente entrando no mundo dos livros…

Fora da Trilha


Título:
Crônicas de Fímbria: Fora da trilha
Original: The Edge Chronicles: Beyond the Deepwoods
Editora: Companhia das Letras
Edição/Ano: 2005
Páginas: 256
Sites:  Skoob; The Edge Chronicles

“Feita de fumaça e osso”, Laini Taylor

“Feita de Fumaça e Osso”, Editora Intrínseca

Eu tenho um certo receio de Best Seller; aquele livro que tem destacado comentários do New York Times, por exemplo. Mas, quando li sobre Feita de Fumaça e Osso no blog Livros e Citações, logo percebi que esse livro me encantaria. E não estive errada. Fazia um bom tempo que um livro não me prendia totalmente. Fazia um bom tempo que eu não tinha uma ressaca literária daquelas que te fazem se perguntar: qual o sentido da vida, agora? E foi assim que me senti após ter terminado Feita de Fumaça e Osso, de Laini Taylor, o primeiro de uma trilogia.

Bem, antes de mais nada, a vida tem sentido, pois já tem a sequência de Feita de Fumaça e Osso, que é Dias de Sangue e Estrelas.

O livro é dividido em quatro partes, sendo que a primeira já tem uma introdução que nos torna curiosos:

Era uma vez um anjo e um demônio que se apaixonaram.
A história não acabou nada bem.

Karou, uma garota órfã de dezessete anos, vive em Praga sozinha em um apartamento de dois cômodos, e o que a torna alguém curioso não é seu cabelo azul, ou seu grande talento para desenhar. Sua família adotiva é composta por quimeras, e “seu pai”, Brimstone, o Mercador de Desejos, é também chamado de demônio: sua cabeça é de um carneiro, o torso de um homem e a parte inferior de seu corpo, de leão. O trabalho dela nessa família é, também, estranho: ela deve coletar dentes. Sim, dentes: humano ou de animal, não importa. Pode ser tanto os dentes de um morto quanto as presas de um elefante. E, depois de coletados, ela deve levá-los para Brimstone, mas para o que ele utiliza tudo isso, é outro segredo. Viver com Brimstone, cujo sorriso e aprovação são muito apreciados por Karou (mesmo raros), fez com que a garota não lhe perguntasse coisa alguma. Muitas das perguntas que ela queria fazer ao quimera eram direcionados a Issa, a górgona que cuida dela como se fosse sua própria cria.

Karou não sabe por que é criada por essas criaturas que ela ama tanto. Ela se julga uma pessoa comum – no sentido humano da palavra -, que tem certos privilégios. A loja de Brimstone, acessada através de um portal que só pode ser aberto por dentro, leva a Outro Lugar (o nome que Karou deu para onde quer que a loja esteja), e também é a passagem intermediária para tantos outros portais a qualquer lugar que se queira chegar. Por isso, Karou estudou nos Estados Unidos, teve um sensei em Hong Kong, buscou presas de elefante em um leilão em Paris, e visita, periodicamente, um homem que lhe entrega dentes de defuntos, no Marrocos.

Há, também, os entregadores de dentes que têm o privilégio de adentrar a loja de Brimstone (embora para isso tenham que ter envolta de seus pescoços as filhas de Issa – sim, serpentes -, para que, a qualquer sinal de problemas, morda o visitante e o mate). A esses, Brimstone paga o estoque de dentes recebido com Desejos. Desde pequenos e simples, como tornar seu cabelo azul ou deixar a sobrancelha com aparência de lagarta, quanto outro maiores, como conseguir voar, ficar invisível, ou ter todo o conhecimento sobre Outro Lugar. Mas, como o Mercador de Desejos mesmo diz, a magia vem com um preço, e o preço a ser pago é a dor.

Feita de Fumaça e Osso é um livro fuido. A princípio, é você quem define o ritmo da leitura, virando as páginas tranquilamente como se fosse uma leitura de domingo. Mas, rapidamente, a leitura fica dinâmica, e é a história que te leva. A narrativa de Taylor é assim. Depois de um tempo, você não sabe se está lendo por curiosidade, ou se é o livro que te prendeu de tal forma que fica impossível largá-lo – como se fosse magia! Ainda mais depois que aparece Akiva, e todo o mistério, a paixão e o medo aparecem.

Akiva é um serafim. Um soldado criado para a guerra contra os quimeras desde que tinha cinco anos. Ele cresceu esquecendo-se de tudo o que era bom e doce, pois na guerra ele deveria ser apenas cruel. Um assassino. Como os quimeras…

A mitologia utilizada por Taylor é tão coerente com o livro, com um encaixe tão perfeito, que você nem sequer se pergunta se é real ou não. Se a história contada pelas personagens faz parte de alguma cultura ou se foi apenas inventada pela autora. Enquanto eu lia o livro, eu comecei a pensar nessa mitologia, nos antepassados dos quimeras e serafins, como uma história tão presente quanto a de Arthur ou do jovem Robin Hood.

Outra coisa sobre a narrativa de Taylor que achei maravilhosa e que só torna a história mais rica: a ansiedade de Karou e Akiva, tão forte em seus personagens, atravessa a narrativa. E de uma forma que também te deixa ansiosa ao ler.

Havia outra vida que devia estar vivendo? Algumas vezes sentia uma forte certeza de que sim – uma vida fantasma, provocando-a, mas fora de alcance. Uma sensação que às vezes a dominava enquanto estava desenhando, andando, e, uma vez, quando estava dançando lentamente com Kaz, bem juntinho, sentiu que deveria estar fazendo outra coisa com as mãos, as pernas, o corpo. Alguma outra coisa. Alguma outra coisa. Alguma outra coisa. Mas o quê?

Página 82

Apenas nas últimas páginas que conseguimos entender a escolha da capa e o título. E, devo dizer: é maravilhoso! Mostra a inteligência e a sutileza da autora e da editora.

Enfim, o livro é maravilhoso e com um fim surpreendente, conturbado e revelador. Uma história sobre guerra entre duas raças. Uma história de amor entre um serafim e uma quimera. E uma história que o lema de um se torna a sina de outro. Vitória e Vingança nunca parecera tão difícil e dolorido de se conseguir. E a esperança de um mundo de paz, tão longe de se alcançar.


Título
: Feita de Fumaça e Osso
Original: Daughther of Smoke and Bone
Editora: Intrínseca
Edição/Ano: 2012
Páginas: 382
Sites: Skoob, Laini Taylor