Citações #19: Luís Fernando Veríssimo

…e um tequinho de crônica.

Ler livro é um ato comum. Qualquer pessoa alfabetizada e minimamente capacitada fisicamente consegue abrir um livro e passar as páginas. O extraordinário é quando o interpretamos; quando enxergamos nas entrelinhas por que o autor escolheu tal palavra. Talvez como fator ambíguo? Talvez para fazer o leitor, justamente, duvidar do que acontece?

Desde que me formei em Letras, eu tenho um carinho especial pela Língua Portuguesa e, de maneira especial, por sua sintaxe tão permissiva. Pois é como nos diz Veríssimo:

A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios.
Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo.
Por exemplo:
dizer “escrever claro” não é certo, mas é claro, certo?

Ultimamente, eu tenho me libertado de muitos preconceitos linguísticos arraigados pela norma padrão da gramática. A leitura foi muito importante para isso, mas mais libertador foi o fato de eu começar a escrever literatura. De eu também tentar escrever claramente, ou escrever com ambiguidade. Escrever pensando que são pessoas ali falando, e não meros robôs, além do fato de que não serão robôs que o lerão. E percebo que isso apenas enriquece o texto, mostrando personalidades. Pois nós conhecemos um personagem tanto pela maneira com que ele age – o que o autor nos descreve -, como pela maneira que ele fala.

É muito bom conseguir enxergar isso no texto alheio. Mas tão bom quanto é enxergar no seu. Quanto à sintaxe? Deixo ela pros gramáticos.

Mas e os cânones, poxa!

 

A gente tem um sentimento meio louco quando se fala em cânones literários: por mais que queiramos nos ver libertos disso, é quase impossível tirar o último pé desse espaço. E não falo isso quando me refiro à nossa Literatura do século passado. Não, não estou falando de Machado de Assis, Rosa Guimarães e nem de Clarice Lispector. Eles podem ter alguma culpa nesse nosso “vai, não vai” para aprendermos a apreciar uma boa e moderna literatura, mas estou me referindo à Literatura em geral. Ou, mais especificamente, à Literatura Fantástica.

Participei de uma discussão num grupo literário que começou falando sobre a necessidade de descrições em um livro de literatura fantástica, principalmente quando o autor apresenta aos leitores um novo universo. Se toda obra precisa ser algo como Tolkien, na série Senhor dos Anéis, com seus apêndices e eterna ladainha narrativa-descritiva, ou pode ficar algo mais simples como Rowling em Harry Potter, cujas explicações são leves dentro da narrativa. No entanto, a discussão não parou nesse tema (como acaba acontecendo em qualquer grupo de muitas pessoas). Ela acabou divergindo sobre cânones literários.

Isso aconteceu, porque eu disse que não entendi por que os vampiros de Crepúsculo brilham. Talvez porque tenha lido as obras há um tempo, ou porque minha memória preferiu excluir isso. Mas não interessa. É que foi quase a partir daí que se começou a falar das ramificações e mudanças das mitologias a torto e a direito.

Sabemos que não há uma enciclopédia ou um manual dizendo que vampiros são seres noturnos, que morrem à luz do sol e dormem em caixões, como sabemos que encontraremos uma explicação detalhada sobre Realismo Brasileiro, por exemplo. Para este, se quisermos escrever alguma coisa, teremos que nos prender a vários cânones. Mas com fantasia não é assim.

Falamos dos vampiros de Anne Rice, de Charlaine Harris e dos brilhantes de Stephenie Meyer (houve até uma comparação com um diamante negro que rendeu algumas risadas, mas, enfim…). Como a gente acha estranho e vê com maus olhos os vampiros brilharem, teres poderes sobrenaturais, quando os de Harris apresentam algumas dessas características (como voar), e o de Rice ter uma coloração mais pálida (pela falta de circulação sanguínea). Ou seja, decidimos escolher Anne Rice como cânone. Talvez porque ela foi uma das primeiras que agradou depois do (também praticamente um cânone Bram  Stoker ou por Crepúsculo ter sido uma modinha. E quem tem coragem de dizer que curte modinha, enquanto lê George Martin? (Aloou, olha outro cânone aí se formando a partir de um bestseller!). Só uma observação: bestseller = na moda.

“Deus, eu odeio vocês. Odeio desde o primeiro maldito trailer.”

“Ah, não”

Ok, voltando.

Rowling também está quase se transformando em um. E como é possível diagnosticar isso? Fácil, fácil. Não se pode falar mal dos cânones. Tolkien, Rowling, Rice, Martin, Owel, King… Quem é você para dizer que há falhas em suas obras? Quem é você para desvirtuar o que eles lançaram no mundo? Quem é você para dizer que vampiros podem brilhar? Ou não podem?

Uma pessoa no grupo falou que a gente se prende tanto nesses cânones, que nos esquecemos que literatura, principalmente a fantástica, é ter mente aberta. Nada é concreto. Nada é certo. TUDO é inventado. Então, por que não posso ramificar um pouco aqui, esticar ali, inventado lá? Por que não posso pegar a ideia dos anjos caídos e transformá-los em criaturas quase humanas e que se digladiam com seus irmãos por poder? E, além disso, colocar um pé deles na feitiçaria para lançar maldições complexas em um mundo novo? Eu posso fazer isso. É ficção. É fantasia. Não é Escola Literária pronta para ser estudada, decorada e analisada em vestibular. Um anjo não precisa ser necessariamente bom, e o diabo não precisa ser a figura grosseira, pestilenta e doentia que todos pregam (cheiro de Spohr nesse trecho? Sim!).

Apenas para finalizar o raciocínio, digo que, sim, você precisa ler fantasia para escrever fantasia. Se quiser escrever sobre Iara, precisa ler folclore, mas não precisa ser Monteiro Lobato. Se quiser escrever sobre bruxidade, seria interessante ler sobre a Inquisição e Mitologia, mas não precisa se enfiar em Rowling ou Geralt de Rivia. Não que você também não possa lê-los. A questão é que você precisa saber onde está se metendo. Saber em qual mundo está entrando para que não fique se perguntando “E agora?” ou, o que acaba sendo comum,  pensar que está criando algo inteiramente novo. E em Literatura, e principalmente a fantasia, nada é 100% original: é tudo questão de pegar os clichês e saber “o que”, “onde” e “como” moldá-los.

E aí você me pergunta: mas, e os cânones? O que faço com eles? E eu te dou duas respostas:

1 – Use-os como base. Mas apenas como base.
2 – Pegue tudo e jogue no lixo.

E sem terceira opção? Bem, sim. Use os cânones como base, distorça-os e crie algo a partir deles, mas não sendo eles. Porque, convenhamos, originalidade em clichês acaba sendo muito mais legal. Mesmo que ela venha com dificuldade. Ou talvez por ser justamente difícil…

Autores favoritos #02: Nikelen Witter e Priscila Louredo

Fazia um tempo que eu queria fazer esse segundo post sobre Autores Favoritos. Mas, devido a estudos para concurso e uma pequena cirurgia para extração de dente, acabei deixando de lado. E, depois, essa semana com dores e repouso, a coisa acabou passando. Queria ter postado essa segunda parte ontem, mas não deu certo. Portanto, faço-o hoje com um certo atraso.

Honestamente, não há como falar de meus autores favoritos e não citar aqueles que são nossos amigos. Eu até pensei que poderia parecer que eu estaria puxando uma sardinha, mas, depois de pensar, a sardinha fica apenas com uns bons 60% 20% do favoritismo (como já disse, sou alguém de paixões fáceis, mas não leviana!). Afinal, quando dizemos que temos favoritismo ou preferência sobre algo, no mundo da Literatura e mais especificamente, autores, sabemos o que quer dizer: se ele ou ela escreveu algo, logicamente o leitor vai dar um jeito de ler o quanto antes. Então, uma vez que tanto a Nikelen e a Priscila são amigas queridas e autoras publicadas, não poderia ficar sem falar delas.

E para não dizerem que prefiro uma a outra, utilizo os nomes em ordem alfabética! Assim não sou julgada (risos).

Eu já falei um pouquinho da Nikelen quando fiz uma resenha de seu primeiro romance, Territórios Invisíveis. Então, para não ficar muito repetitivo, vou apenas dizer porque ela me é uma das favoritas.

Antes de mais nada, ela é uma pessoa que eu respeito e escritora que admiro. Sua trajetória no mundo literário iniciou-se com fanfics sob o pseudônimo de Sally Owens, as quais já nos cativam pela inteligência, humor, boa qualidade. E depois disso, acompanhar seu blog faz você conhecê-la ainda mais. E entender porque ler Nikelen se torna algo viciante.

Uma das coisas que mais gosto, realmente, é como a Nikelen consegue criar e desenvolver personagens (o que, cá entre nós, não é um trabalho fácil para nenhum escritor). Há uma tal de “Judite” que ela apenas nos apresentou em seu blog, e um tal de Robin Hood* que, não há dúvidas, se tornará um páreo bom com Alexandre Dumas. Os personagens da Nika nos cativam – tanto para o amor quanto para o ódio. Há, sim, a linha tênue da dúvida eterna, sem saber o que fazer com eles. Mas indiferença? Ah, isso não dá para sentir.

Além das construções das personagens, ela consegue dar leveza a seus diálogos, ironias, sarcasmos… E, se pedir medo ou tensão, lá estarão as linhas que o farão apertar o livro. A Nika é uma das autoras que eu considero mais completa.

Recomendo-a sem sombra de dúvidas, tanto seu livro Territórios Invisíveis (cuja sequência, Montanhas Azuis, ainda está sem previsão de lançamento), quanto seus contos nas antologias: Steampink, Quando o Saci encontra os mestres do terrorHistórias Fantásticas do Brasil: Guerra dos Farrapos, VII Demônios: Ira, Autores Fantásticos. Há, também, o conto “A devoradora de mundos“, que é da antologia digital da Editora Draco. Alguns desses contos estão disponíveis em formato digital na Amazon. Na dúvida, apenas procure por “Nikelen Witter” que dá tudo certo…

Ah, e mais um adendo: o livro Territórios Invisíveis foi um dos quatro finalista do Prêmio Argos de 2013, na categoria história longa.

Página da Nikelen no Skoob: clique aqui.

A Priscila tem, atualmente, dois contos publicados. O primeiro foi “O Retrato”, que faz parte da antologia Amores Impossíveis e o segundo é “Entre irmãos”, da antologia Segredos de Família. No entanto, mantém o blog Espaço da Pri, onde tem mais contos seus, os quais são, também e em algumas vezes, escritos em quinze minutos de inspiração. O que me faz ter a Priscila como autora favorita é sua delicadeza na escrita. Quando ela escreve romance, é como se a gente sentisse os sentimentos dos personagens, suas angústias, medos, prazeres… É como se ela pegasse o coração do personagem que ela criou e o destrinchasse nos mínimos detalhes e, com as palavras, nos mostrasse. Parece um tanto grosseiro explicar assim… Mas é que eu não tenho tanta delicadeza para romances. Sou melhor nos dramas. Os quais ela também coloca de maneira intensa!

A Priscila também começou com fanfics, e me ganhou, sem chance de volta, em Desencontros. O drama dos personagens tão bem descritos ali, suas dúvidas, medos… Não há como rotulá-la de fanfic. É um romance, novela, história original sem questionar. Há romance, humor, drama… Ah, o drama! Um de meus temas literários preferidos!

Hoje ela tem projetos maiores, e eu espero ansiosamente vê-los completos, de preferência em minha estante, lido e relido. Mas, enquanto isso não acontece, sustento-me com seu blog – os contos “O Casarão” e “Foi um prazer ter você no Rio” são meus preferidos. E, também, percebo como é fácil temer, amar e enlouquecer como um personagem. Como os criados pela Priscila.

Página da Priscila no Skoob: clique aqui.

E antes que você diga – ou tenha a triste reação comparativa – que autoras que iniciaram com fanfics não tem lá seu crédito porque você leu, assim como eu, 50 Tons de Cinza (que dispensa todo e qualquer tipo de destrinchamento literário) e desejou que essa coisa continuasse no site de fanfics, digo: pegue seu pré-conceito e mande-o passear um pouquinho. E, então, leia o que a Nikelen e a Priscila têm a oferecer.

Despindo de preconceitos literários

Eu sempre tive um preconceito no que se diz respeito a Literatura Nacional. Antes, eu fundamentava esse preconceito pelo simples fato de pensar que brasileiro não sabia escrever literatura fantástica. E, sim, eu tinha esse pensamento quando era uma ignorante no assunto.

Hoje, vejo que o que me fez ter esse preconceito foram os inúmeros livros de autores nacionais que tive que ler ainda adolescente obrigatoriamente. Contudo, não os culpo totalmente. Minha imaturidade e não-formação de leitora ideal também teve sua parcela de culpa. Meu primeiro livro de literatura nacional fantástica foi Dragões de Éter, Caçadores de Bruxas. Porém digo que foi um acidente, uma vez que eu pensei que Raphael Draccon fosse estrangeiro. Sim, fui pega pelo meu próprio preconceito.

Ontem, eu era uma leitora ignorante. Hoje, agradeço pelo acidente com Draccon. Afinal, se não fosse por ele, eu não teria enredado por caminhos que hoje seria difícil trilhar. Meus olhos se abriram. Eu descobri a Literatura Fantástica Nacional. E, por conseguinte, descobri Leandro Reis e os Filhos de Galagah.

“Forjado na Ordem e temperado no Caos, foi imerso na maldade
para que entendesse a bondade, a vida estava então completa
e o mundo respirou pela primeira vez.
Grinmelken é um mundo guiado por aço, magia e fé.
Lar de criaturas fantásticas e palco da ascensão de heróis virtuosos,
dentre as diversas raças que aqui vivem.
E Filhos de Galagah é uma de suas muitas e apaixonantes histórias.”

De todas as maneiras que tentei iniciar o comentário sobre Filhos de Galagah, percebi que ignorar a introdução existente na orelha do livro não seria a melhor opção. E é usando esta introdução que começo a falar do mundo criado por Doah, o Senhor dos Deuses.

Começo falando de Grinmelken, onde Espadas são usadas pelos Escolhidos dos deuses; onde a Magia tem uma força incrível, seja ela branca ou negra; onde a fé, se não for sentida em sua plenitude, não será um escudo e arma plenos. No decorrer do livro, nota-se a vital importância desses três elementos.

Em Filhos de Galagah, Leandro Reis nos mostra um grupo de heróis que será difícil de esquecer. E fácil de se apaixonar.

De início, falo de Gawyn, um elfo espadachim criado por humanos, que teve uma infância cruel e humilhante. É ele que dá o ar cômico do livro, com suas tiradas e maneira um tanto quanto estranha de agir. Uma criatura inteligente e esperta, que consegue segurar uma flecha com a mão (embora não possa dizer o mesmo sobre pedras…). Apesar de ter seus momentos sombrios devido ao passado, é leal e companheiro, e com certeza é uma ótima opção para uma jornada épica. Afinal, alguém tem que tirar sarro dos seres mais cruéis dessa história, não?

Em seguida, temos Sephiros, também elfo. Sephiros é um guerreiro e mago, criado e instruído por elfos sábios e poderosos. Ele é a razão e a serenidade que o grupo de heróis tanto necessita em sua jornada. De personalidade ímpar, tem a honra e a nobreza acima de tudo. Não pensou duas vezes em fazer o que era necessário na luta do Bem contra o Mal.

Iallanara Nindra, a Bruxa Vermelha, é o tipo de personagem que eu adoro ver o desenvolvimento. Não dá para saber até que ponto ela irá seguir o Bem, ou o quão confiável ela pode ser. Seu passado a condena totalmente, no entanto, nota-se o desespero que ela possui a fim de se ver livre de correntes sombrias que seu mestre, Sukemarantus, o Senhor das Sombras, as colocou tão logo ela se livrou de sua tutora que a torturava sob qualquer pretexto. Essa é uma personagem que temos que ficar de olho, no entanto, com a fé dada pelos deuses de Doah e que adquirimos no decorrer da narrativa, também pedimos que ela consiga se livrar das Trevas e tenha sua tão sonhada vida.

E, por último, Galatea. Por vezes, peguei-me a me irritar com ela. “Muito certinha”, pensava – um pensamento típico de Iallanara, devo dizer. Contudo, no decorrer da história percebe-se que ela não é apenas a Princesa Certinha do Papai Herói. Galatea é a heróina principal desta história; é literalmente a encarnação de tudo o que há de bom no mundo. A Escolhida de Radrak, o deus da Vida, será a responsável para que o Bem vença de uma vez por todas o Mal que assombra Grinmelken. Ela terá que percorrer um caminho de aprendizado e maturidade para que consiga, ao fim, combater Enelock. E no decorrer do caminho, notamos que ela não é perfeita, mas o que a torna especial é justamente sua pureza.

E esse é o círculo de heróis, que encontrará pelo caminho aliados importantes e inimigos temerários. Dentre estes, o maior de todos, Enelock, Lorde das Sombras, capaz de criar mortos-vivos. E devo dizer: seus vampiros são muito mais assustadores (e melhores de se visualizar) que o brilhante Edward Cullen. Como asseclas de Enelock, o mais importante de “Filhos de Galagah” é Merkanos, o Aspecto de Orgul, Divindade das Trevas. Ele terá um papel muito importante na jornada de Galatea e seus amigos.

O que mais gostei em Filhos de Galagah? Foram os clichês: Bem versus Mal; Heroína “Certinha”; Personagens Honrados acima de tudo; a Bruxa sofrida e amarga, mas que quer uma vida melhor, uma vida que inveja há muito tempo. É fácil falar das personagens e rotulá-las logo de início.

E o que torna tudo isso interessante? É a adorável narrativa de Leandro Reis. A história parece que já estava ali, só precisava ser contada, só precisava do bardo certo. Os personagens bem estruturados andam por lugares que nós temos a certeza de que já visitamos em outras histórias, mas se apresentam de uma maneira singular, única. Se nos deixarmos conhecer as personagens e seus respectivos mundos, se torna incrivelmente impossível definir suas personalidades sem antes compreendê-las.

Adoro livros de fantasia. E, agora, adoro a fantasia de Leandro Reis.

E para finalizar, deixo as seguintes dicas:

– Não se esqueçam de Sukemarantus.
– Lembrem-se do Príncipe Thomasil.
– E temam Enelock, mas sem perder a fé em Galatea e seus amigos.