Sobre correções e deselegâncias

É incrível como o ser humano tem a mania de corrigir os outros. Não importa o motivo, se o outro erra, comete um ligeiro deslize, lá vem o comentário sobre “o correto é assim e assado”. Eu não posso jogar muitas pedras nesse assunto, é claro, afinal sempre tive essa mania. Ainda mais no quesito “gramatical” e (principalmente!) depois que me formei em Letras e sabendo que nós, brasileiros, temos o costume de não seguir à risca nossas próprias regras gramaticais. E, é claro, eu estou dentro deste “nós, brasileiros”.

Aqui na minha região, pegamos um pouquinho do sotaque mineiro (moro no norte de SP). É “que trem é esse?” pra cá, “gosto desse trem, não” pra lá. Uma cultura de “nóis vai no lago?” ou “cê” em vez de “você”. Isso não me faz erguer uma lousa, giz e apagador, retirar também um livro didático e dizer: querido, é assim e assado. Ao menos não praticamente. Minhas correções sempre ocorrem, afinal, não consigo ficar quieta, mas a maioria, ultimamente, têm vindo e ficado na minha mente. É mais educado. Mais polido. Quando quero corrigir, é com amigos próximos ou família (esses já estão tão acostumados, que a zoação sempre aparece). Isso, claro, sem comentar que o ato de “falar errado” não é mais visto assim na cultura popular, e sim um simples dialeto que vem aumentando pelas várias divergências sociais em que vivemos. Sim, dialeto. Lide com isso.

A questão é que, desde que me atrevi a criar uma conta no (finado) Orkut, tenho notado como o negócio de escrever/falar errado já ficou cravado. Não tem problemas, pois o que importa é o entendimento, o sentido da frase (e professores e avaliadores de ENEM surtam! rs). As redes sociais estão tão impregnadas na nossa sociedade, no nosso dia-a-dia, que é como se estivéssemos conversando num tete-a-tete. Ou seja, todos falam como querem, apesar de muitos ainda torcerem a cara para isso.

Mas um exemplo de que as pedras estão ali, guardadas, só esperando para saírem dos bolsos para acertarem o primeiro a errar é quando o perfil de alguma empresa escreve errado. Não adianta mais culpar apenas o pobre do estagiário. Tem que destrinchar comentários, corrigindo, fazendo piadas nada elegantes sobre “burrice alheia”.

Vi neste fim de semana um post de uma editora. Ela postou um link, querendo informar sobre o menor restaurante do mundo, na França. No entanto, quando falou sobre, escreveu “mais pequeno”. Estranhei, é claro, afinal, uma EDITORA escrevendo, digamos assim, errado? E lá estavam os comentários irônicos, apontando desagradavelmente o possível erro da Editora. Até que a própria resolveu esclarecer:

 “Somos uma Editora portuguesa. Aqui é tão correto falar ‘menor’ quanto ‘mais pequeno’.”

E quer mais? Nem por isso, nem esclarecendo para seus leitores que (rá, pasmem) deveriam estar acostumados a ler, pararam de corrigir. Ninguém se prestou, também, a parar um pouquinho pra pensar que lá em Portugal há dezenas (talvez centenas, nunca pesquisei) de palavras e expressões que são diferentes das daqui. Então, cansada do falatório de seus curtidores, a editora editou o post e postou o tão desejoso “menor”.

Só me pergunto se essas mesmas pessoas que corrigiram falam corretamente a ponto de se darem ao luxo de debocharem de um erro que nem sequer aconteceu…

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