Um estudo sobre as “Notas de Teoria Literária”

Nos bastidores da Literatura

Quando me formei em Letras no ano de 2010, meu TCC foi sobre narrativa, mais precisamente sobre o “Narrador Protagonista”. Essa não foi minha primeira opção, é claro. Ela apenas se desenvolveu quando tive minhas primeiras aulas de Teoria da Literatura. Desde a primeira aula eu soube: estava apaixonada! Sim, apaixonada! Percebi que a teoria que envolve a Leitura, Literatura e a Arte da Escrita é algo que vai muito além do intelecto; estudar Literatura, essa arte que pode tanto transformar quanto aniquilar, é perceber mundos, sociedades, pessoas.

Durante algum tempo, me restringi a buscar alguns livros que, por acaso, haviam na escola que trabalho. O curioso é que é uma escola para crianças do primeiro ciclo do Ensino Fundamental. No ano anterior, que eu gostaria muito de me aprofundar na Teoria da Literatura, não pude, pois comecei a dar aulas – as quais duraram apenas um ano letivo. Já este ano, me retirei de leituras o máximo que pude para estudar para concurso, e uma vez que eu não consigo absorver dois conhecimentos ao mesmo tempo, a Teoria, mais uma vez, acabou ficando em segundo plano.

Editora Vozes, 2008 – 125 páginas

Notas de Teoria Literária é o segundo livro que leio este ano sobre a teoria da literatura. O primeiro foi Oficina de Escritores, de Stephen Koch, leitura influenciada por minha amiga Nikelen. “Oficina” foi apenas uma outra mostra de que eu, realmente, me entusiasmei por essa área de estudos. “Notas” estava comigo há um tempo e, finalmente, o terminei. Ele teve seus pontos altos, mas por ser um livro introdutório no estudo da Teoria da Literatura, acabou por se tornar repetitivo em algumas partes.

“O artista literário cria ou recria um mundo de verdades […] que traduzem antes um sentimento de experiência, uma compreensão e um julgamento das coisas humanas. […] A literatura é, assim, vida, parte da vida, não se admitindo que possa haver conflito entre uma e outra.” – página 24. 

“Notas” é realmente uma introdução, como diz seu prefácio. Um livro para iniciantes nesse estudo teórico. Ele não é apenas indicado para quem estuda Letras, mas para quem quer entender melhor como funciona o outro lado da Literatura.

Notas de Teoria Literária é dividido em nove capítulos, mais uma bibliografia básica. Dos nove capítulos, um que me surpreendeu e cativou – além de coincidir muito com minha ideologia – foi o segundo, intitulado de “Que é Literatura e como ensiná-la?”. Eu apoio sim o ensino de Literatura, pois ela faz parte de nossa cultura, nosso desenvolvimento desde a chegada dos Portugueses no Brasil, mas discordo totalmente de como ela é ensinada hoje em dia. Afinal, como um professor pode listar as características de cada Escola Literária e pedir que seu aluno a decore e, por fim, leia um livro que, muito provavelmente, nunca ouviu falar? Muitos alunos do Ensino Médio sequer já pegaram um livro em mãos. Agora, imagine esse mesmo aluno lendo Machado de Assis, Álvares de Azevedo, Oswald de Andrade em seu ápice Modernista ou entender por que a carta de Pero Vaz de Caminha é considerada literatura?

“O que importa no ensino da literatura é a criação do gosto para a obra literária, e isto somente se consegue com a leitura e compreensão da literatura como literatura […].” – página 41.

Algumas partes do livro o autor me pareceu repetitivo, porém, achando desnecessário determinadas informações. Ele utiliza muito como referência a Poética, de Aristóteles, e também Machado de Assis. Ambos forte referência em Literatura. Há explicações e classificação dos tipos de literatura, como Gênero Dramático, Ensaístico, Lírico, Épico e de Ficção. No que concerne o Gênero de Ficção, detalhado no livro na medida certa, o autor nos mostra e explica o necessário para se entender o fundamental de Enredo, Narrativa, Personagem, Ambiente…ou seja, tudo o que envolve a literatura.

Por fim, ele apresenta a Crítica Literária – outro alvo de estudo que gostei muito, devo confessar. O interessante é que ele deixa claro que, sendo a Literatura uma arte, não nos cabe criticá-la em termos de qualidade imaginativa. A Crítica serve, antes de tudo, para analisar o texto, como sua linguagem, a estética da obra, a reflexão que ela, por ventura, venha a forçar seu leitor a ter; ela utiliza a racionalidade para analisar a imaginação – grosso modo falando. Um capítulo muito interessante.

Notas de Teoria Literária é, portanto, uma introdução para qualquer pessoa que queira se aventurar nos bastidores Literários. O livro é curto e de leitura leve, mesmo didática. E uma vez que o autor cita muitos autores e obras do decorrer das páginas, fora a bibliografia indicada ao fim, “Notas” pode ser o primeiro passo seguro que qualquer pessoa que se interesse por tais estudos poderia dar. Mesmo que não estude Letras.

Sobre a Arte de Escrever

Quando comecei a escrever, nunca imaginei que um dia levaria esse hobbie a sério. Hoje ele é mais terapêutico do que qualquer coisa que eu venha a fazer, e talvez seja justamente por isso que eu tenha valorizado tanto a arte da Escrita. Mas, por mais valor que eu coloque em meus textos (na grande maioria Fanfics), nada poderia me instigar mais nessa Arte do que ler “Oficina de Escritores”, de Stephen Koch.

Na época de faculdade de Letras, eu acho que batia recordes em ler rapidamente livros teóricos e científicos. Acho que o maior culpado dessa agilidade foi o TCC, cujo tema eu escolhi um pouco de última hora. No entanto, eu demorei quase dois meses para ler o livro de Koch. Um novo tipo recorde, devo dizer, e que me surpreendeu, pois sou do tipo que pega um livro e o lê em poucas sentadas. Mas “Oficina de Escritores” tem algo que não me permitiu lê-lo apressadamente.

Eu quis lê-lo devagar, apreciando e analisando cada palavra, deixando que elas entrassem na minha cabeça e ficassem por lá. A priori, adquiri esse livro apenas por curiosidade. Me perguntava o quanto ele seria útil nas minhas viagens imaginativas e o quanto isso interferiria em uma história que estava empacada há um bom tempo (e que continua, devo dizer). Depois, enquanto lia as palavras de Koch, percebi que a Arte de Escrever tem um caminho tortuoso e árduo, porém que pode ter grande diversão, informação e crescimento.

Enquanto o lia, separava algumas citações, primeiramente escrevendo em um caderno separado, mas depois fazendo algo que nunca me permiti em livros: dobrava o canto superior, fazendo uma horrível (porém pequena!) orelha nas páginas. Separava as partes que mais me inspiravam, mais me ensinavam, mais me motivavam. Pois é disso que também trata esse livro: motivação.

A meu ver, há dois modos de classificar “Oficina de Escritores”: um manual, como diz seu título, e um livro de motivação. Sabem aqueles livros que pessoas com problemas de relacionamento buscam em livrarias, ajudando-as a resolver seus problemas interiores? Pois Koch faz isso com os escritores, ensinando-os a trilhar o caminho que um aspirante gostaria muito de percorrer, e percorrer com confiança. Algumas vezes, eu me senti como se estivesse conversando com Koch, não lendo as páginas que ele, tão acadêmica e carinhosamente, escreveu. Sim, eu notei carinho naquelas páginas. Um carinho único que o professor tem com seus alunos. Um professor que, também, não é de passar a mão na cabeça.

Koch mostra uma luz, uma alternativa para quem gosta de escrever. Um modo de fazê-lo bem. E fora o óbvio de que só se escreve bem quem lê muito (que está bem mostrado no livro),  há, como eu disse, a motivação, a bagagem que ele consegue nos fornecer clara e objetivamente. Instruções muito valiosas para qualquer Escritor – aspirante ou não.

Não é a chave para todos os problemas de um Escritor, vale dizer, afinal ele não é um santo milagreiro. Porém, os caminhos que ele mostra para contornar os problemas podem ajudar e muito. Eu indico sim, a leitura, tanto para quem gosta de Escrever, quanto para quem ama Ler e analisar os livros que lê.

Ao fim do livro, Koch indica mais outros, a fim de que o conhecimento do Escritor sobre essa Arte tão libertadora fique cada vez maior e melhor.

Para finalizar, uma pequena citação do livro. Uma das minhas preferidas, e que pode resumir o que “Oficina de Escritores” oferece:

“Inspiração, confiança, convicção, técnica e conhecimento – não é nada disso que torna possível a escrita. É exatamente o contrário. A escrita que torna tudo isso possível.” 

Capítulo 01, página 02.

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Título:
Oficina de escritores: um manual para a arte da ficção
Original: Writer’s workshop: a guide to the craft of fiction
Editora: WMF Martins Fontes
Acabamento: brochura
Edição-Ano: 1ª – 2008
Páginas: 320
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