Ler é um convite à vida

Se meu comportamento é, também (e talvez principalmente), o resultado de minhas leituras, então eu sou muitas coisas. Boas e ruins.

Li um artigo que falava justamente disso. É muito forte o que a leitura influi em quem verdadeiramente se dispõe a sentir e aprender a cada livro finalizado. Uma forma intensa de viver, afinal, são sempre mundos novos a que nos permitimos entrar, vidas novas a que nos permitimos usar como professores, ações e reações que nos fazem pensar “E se fosse comigo?”.

A leitura é uma forma de felicidade que só está ao alcance das mentes mais livres. Aquelas que são capazes de se desvestir de suas preocupações diárias para atravessar a barreia do conhecimento, da paixão, do deleite e adentrar aos mais sublimes mistérios.

Lembro até hoje de minhas primeiras Leituras. Essas mesmo, com L maiúsculo. Pedro Bandeira está muito presente em meu passado, com suas deliciosas mostras de lealdade, amizade, carinho. Tais leituras, da querida série Os Karas, foram essenciais para me moldar como uma leitora ávida que sou hoje. Uma leitora que busca sempre a melhor de cada personagem para usar em meu dia a dia, e ver que o pior de cada um também faz quem ele é (e algumas vezes quem eu sou). Desperta em nós um senso crítico interessante, por assim dizer. Um senso crítico que transcende a mesmice apregoada aos borbotões por mídias sociais.

Se está em dúvida, se tem desejos de adquirir conhecimento, não se limite a encontrar resposta em um único livro. Vá a todos os que estão ao seu alcance e melhore o seu senso crítico. Nessas ocasiões, não existe uma única verdade, mas aquela certeza de que aquilo que nós necessitamos a alcançaremos em dado momento.

E falando em Leituras importantes, eu não poderia deixar de citar Harry Potter. Afinal, sou dessa geração, mesmo que tenha iniciado com os filmes e meu primeiro livro dele tenha sico Cálice de Fogo (pois eu precisava saber a que ponto a coisa afundaria por Rabicho ter escapado). A importância de Harry Potter foi justamente o que a citação do artigo, aí em cima, fala: ele foi algo que eu necessitava alcançar no momento.

Pois cada fase de nossas vidas, assim como cada livro, é única. Às vezes precisamos de um romance leve, outras vezes de uma aventura regada de amizade sincera, outras um pouco de realidade para que nós valorizemos o que há de realmente bom em nossas vidas. Algumas vezes, há tudo isso em um único livro (culpa da maravilhosa verossimilhança!). E cabe a nós, leitores, vermos e enxergarmos que:

A leitura também oferece sentido à existência. Ler […] é um convite à vida.

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 Fonte das citações desta postagem: Portal Raízes

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Mas e os cânones, poxa!

 

A gente tem um sentimento meio louco quando se fala em cânones literários: por mais que queiramos nos ver libertos disso, é quase impossível tirar o último pé desse espaço. E não falo isso quando me refiro à nossa Literatura do século passado. Não, não estou falando de Machado de Assis, Rosa Guimarães e nem de Clarice Lispector. Eles podem ter alguma culpa nesse nosso “vai, não vai” para aprendermos a apreciar uma boa e moderna literatura, mas estou me referindo à Literatura em geral. Ou, mais especificamente, à Literatura Fantástica.

Participei de uma discussão num grupo literário que começou falando sobre a necessidade de descrições em um livro de literatura fantástica, principalmente quando o autor apresenta aos leitores um novo universo. Se toda obra precisa ser algo como Tolkien, na série Senhor dos Anéis, com seus apêndices e eterna ladainha narrativa-descritiva, ou pode ficar algo mais simples como Rowling em Harry Potter, cujas explicações são leves dentro da narrativa. No entanto, a discussão não parou nesse tema (como acaba acontecendo em qualquer grupo de muitas pessoas). Ela acabou divergindo sobre cânones literários.

Isso aconteceu, porque eu disse que não entendi por que os vampiros de Crepúsculo brilham. Talvez porque tenha lido as obras há um tempo, ou porque minha memória preferiu excluir isso. Mas não interessa. É que foi quase a partir daí que se começou a falar das ramificações e mudanças das mitologias a torto e a direito.

Sabemos que não há uma enciclopédia ou um manual dizendo que vampiros são seres noturnos, que morrem à luz do sol e dormem em caixões, como sabemos que encontraremos uma explicação detalhada sobre Realismo Brasileiro, por exemplo. Para este, se quisermos escrever alguma coisa, teremos que nos prender a vários cânones. Mas com fantasia não é assim.

Falamos dos vampiros de Anne Rice, de Charlaine Harris e dos brilhantes de Stephenie Meyer (houve até uma comparação com um diamante negro que rendeu algumas risadas, mas, enfim…). Como a gente acha estranho e vê com maus olhos os vampiros brilharem, teres poderes sobrenaturais, quando os de Harris apresentam algumas dessas características (como voar), e o de Rice ter uma coloração mais pálida (pela falta de circulação sanguínea). Ou seja, decidimos escolher Anne Rice como cânone. Talvez porque ela foi uma das primeiras que agradou depois do (também praticamente um cânone Bram  Stoker ou por Crepúsculo ter sido uma modinha. E quem tem coragem de dizer que curte modinha, enquanto lê George Martin? (Aloou, olha outro cânone aí se formando a partir de um bestseller!). Só uma observação: bestseller = na moda.

“Deus, eu odeio vocês. Odeio desde o primeiro maldito trailer.”

“Ah, não”

Ok, voltando.

Rowling também está quase se transformando em um. E como é possível diagnosticar isso? Fácil, fácil. Não se pode falar mal dos cânones. Tolkien, Rowling, Rice, Martin, Owel, King… Quem é você para dizer que há falhas em suas obras? Quem é você para desvirtuar o que eles lançaram no mundo? Quem é você para dizer que vampiros podem brilhar? Ou não podem?

Uma pessoa no grupo falou que a gente se prende tanto nesses cânones, que nos esquecemos que literatura, principalmente a fantástica, é ter mente aberta. Nada é concreto. Nada é certo. TUDO é inventado. Então, por que não posso ramificar um pouco aqui, esticar ali, inventado lá? Por que não posso pegar a ideia dos anjos caídos e transformá-los em criaturas quase humanas e que se digladiam com seus irmãos por poder? E, além disso, colocar um pé deles na feitiçaria para lançar maldições complexas em um mundo novo? Eu posso fazer isso. É ficção. É fantasia. Não é Escola Literária pronta para ser estudada, decorada e analisada em vestibular. Um anjo não precisa ser necessariamente bom, e o diabo não precisa ser a figura grosseira, pestilenta e doentia que todos pregam (cheiro de Spohr nesse trecho? Sim!).

Apenas para finalizar o raciocínio, digo que, sim, você precisa ler fantasia para escrever fantasia. Se quiser escrever sobre Iara, precisa ler folclore, mas não precisa ser Monteiro Lobato. Se quiser escrever sobre bruxidade, seria interessante ler sobre a Inquisição e Mitologia, mas não precisa se enfiar em Rowling ou Geralt de Rivia. Não que você também não possa lê-los. A questão é que você precisa saber onde está se metendo. Saber em qual mundo está entrando para que não fique se perguntando “E agora?” ou, o que acaba sendo comum,  pensar que está criando algo inteiramente novo. E em Literatura, e principalmente a fantasia, nada é 100% original: é tudo questão de pegar os clichês e saber “o que”, “onde” e “como” moldá-los.

E aí você me pergunta: mas, e os cânones? O que faço com eles? E eu te dou duas respostas:

1 – Use-os como base. Mas apenas como base.
2 – Pegue tudo e jogue no lixo.

E sem terceira opção? Bem, sim. Use os cânones como base, distorça-os e crie algo a partir deles, mas não sendo eles. Porque, convenhamos, originalidade em clichês acaba sendo muito mais legal. Mesmo que ela venha com dificuldade. Ou talvez por ser justamente difícil…

O melhor livro

É interessante como toda pessoa que tem o costume de ler tem seus melhores livros na ponta da língua. É quase como as beatas, que tem suas orações preferidas que já saem mal pegando no rosário. Uma comparação um tanto estranha, é verdade, mas não dá para negar que o ato de ler acaba se tornando um ritual para muitas pessoas. Para mim, por exemplo, ler se trata de me acomodar em algum lugar, colocar as pernas para cima e me esquecer de tudo e de todos ao primeiro sinal de uma letra na página. Meu lugar preferido é o sofá, embora ultimamente tenha colocado a cadeira de fios na varanda para fazer um poco de companhia ao Thor (meu bebê rottweiller de quase dois anos… uma flor de cachorro, precisam conhecer. O único problema é que ele é quase uma urtiga, mas o amo mesmo assim.)

Thor me acompanhando na leitura de Martin

Estou com a rotina de um jeito que não me oferecia há um bom tempo. Não sou muito fã de deixar as coisas boas de lado para me concentrar nas obrigações (me acuse do que for sobre isso, com certeza será verdade). Me acomodo muito facilmente e tudo está bom, desde que não esteja me desagradando. Ainda assim, mesmo não sendo muito fã, fui obrigada a ouvir aquela vozinha que insiste em gritar para que os pés voltem a andar e subir os devidos degraus. E vejo que está dando certo, pois há um bom tempo não vinha aqui escrever, nem mesmo um comentário sobre algum livro – os quais só voltaram às minhas mãos um tempo atrás. Sem tempo – afinal, livro é uma das coisas boas. E o que mais me surpreende é que estou gostando dessa nova rotina.

Explicações à parte, devo dizer que o que me fez voltar a escrever neste blog foi um acontecimento no Facebook. Como eu disse, as pessoas que leem sempre tem seus livros preferidos na ponta da língua para indicá-los (ou, no caso da internet, na ponta dos dedos). Há um grupo que faço parte que um membro pediu para lhe indicarem livros, pois está começando a ler agora. O mais curioso é que alguns já lançaram Senhor dos Anéis para a pessoa ler. Aí pensei: como assim, Senhor dos Anéis? É para desanimar a criatura logo de cara!

Longe de mim querer fazer uma crítica a um grande escritor. Mas quem leu Tolkien não deve esquecer o lenga-lenga narrativo só porque a criação do mundo fantástico, seu enredo, é de tirar o chapéu e estender o tapete. O mesmo é com Martin. Estou terminando (última centena de páginas é terminar, pelas minhas contas..Hehe) “A fúria dos reis” e ali há tantas passagens que me lembram um pouco Tolkien, e até Stephen King em sua influência tolkieniana (“O Talismã” é uma delas). Um mundo de descrições que faz o leitor, ou ter os olhos brilhando, ou sentir-se tentado em pular algumas palavras. Uma faca de dois gumes, na verdade.

O melhor livro a se indicar, para mim, é o que o leitor quer. Se uma pessoa começou a ler agora, o ideal são livros de no máximo duzentas páginas do tema que lhe aprouver. Seja romance Spark, seja literatura fantástica Rowling, seja aventuras Bandeira ou Flanagan. Stephen King? Indicaria Zona Morta – foi o que me apresentou King de maneira objetiva e sem delongas.

Para mim, o melhor livro – aquele que eu levaria se o apocalipse zumbi estourasse agora – é Harry Potter as Relíquias da Morte. Ali tem tudo o que eu aprecio em uma boa literatura juvenil-adulta. Tem essa passagem forçada e até cruel, considerando o histórico do personagem, da infância para a fase adulta, que todos nós um dia passamos ou passaremos. Tem a lealdade que todos priorizam, embora poucos consigam realmente trabalhar como qualidade e não obrigação. Tem o romance de maneira simples ou não, desejado ou não. E tem a morte tratada de uma maneira tal que você se pega pensando: e se fosse comigo?

Pois para mim esse é o melhor livro. Aquele que faz você se questionar, se colocar no lugar do personagem e, com isso, crescer junto com ele.

Cada livro é um aprendizado. Mas o melhor livro… Ah, o melhor livro. Ele será um eterno e querido mestre. E é este tipo livro que eu sempre indicarei.