Despindo de preconceitos literários

Eu sempre tive um preconceito no que se diz respeito a Literatura Nacional. Antes, eu fundamentava esse preconceito pelo simples fato de pensar que brasileiro não sabia escrever literatura fantástica. E, sim, eu tinha esse pensamento quando era uma ignorante no assunto.

Hoje, vejo que o que me fez ter esse preconceito foram os inúmeros livros de autores nacionais que tive que ler ainda adolescente obrigatoriamente. Contudo, não os culpo totalmente. Minha imaturidade e não-formação de leitora ideal também teve sua parcela de culpa. Meu primeiro livro de literatura nacional fantástica foi Dragões de Éter, Caçadores de Bruxas. Porém digo que foi um acidente, uma vez que eu pensei que Raphael Draccon fosse estrangeiro. Sim, fui pega pelo meu próprio preconceito.

Ontem, eu era uma leitora ignorante. Hoje, agradeço pelo acidente com Draccon. Afinal, se não fosse por ele, eu não teria enredado por caminhos que hoje seria difícil trilhar. Meus olhos se abriram. Eu descobri a Literatura Fantástica Nacional. E, por conseguinte, descobri Leandro Reis e os Filhos de Galagah.

“Forjado na Ordem e temperado no Caos, foi imerso na maldade
para que entendesse a bondade, a vida estava então completa
e o mundo respirou pela primeira vez.
Grinmelken é um mundo guiado por aço, magia e fé.
Lar de criaturas fantásticas e palco da ascensão de heróis virtuosos,
dentre as diversas raças que aqui vivem.
E Filhos de Galagah é uma de suas muitas e apaixonantes histórias.”

De todas as maneiras que tentei iniciar o comentário sobre Filhos de Galagah, percebi que ignorar a introdução existente na orelha do livro não seria a melhor opção. E é usando esta introdução que começo a falar do mundo criado por Doah, o Senhor dos Deuses.

Começo falando de Grinmelken, onde Espadas são usadas pelos Escolhidos dos deuses; onde a Magia tem uma força incrível, seja ela branca ou negra; onde a fé, se não for sentida em sua plenitude, não será um escudo e arma plenos. No decorrer do livro, nota-se a vital importância desses três elementos.

Em Filhos de Galagah, Leandro Reis nos mostra um grupo de heróis que será difícil de esquecer. E fácil de se apaixonar.

De início, falo de Gawyn, um elfo espadachim criado por humanos, que teve uma infância cruel e humilhante. É ele que dá o ar cômico do livro, com suas tiradas e maneira um tanto quanto estranha de agir. Uma criatura inteligente e esperta, que consegue segurar uma flecha com a mão (embora não possa dizer o mesmo sobre pedras…). Apesar de ter seus momentos sombrios devido ao passado, é leal e companheiro, e com certeza é uma ótima opção para uma jornada épica. Afinal, alguém tem que tirar sarro dos seres mais cruéis dessa história, não?

Em seguida, temos Sephiros, também elfo. Sephiros é um guerreiro e mago, criado e instruído por elfos sábios e poderosos. Ele é a razão e a serenidade que o grupo de heróis tanto necessita em sua jornada. De personalidade ímpar, tem a honra e a nobreza acima de tudo. Não pensou duas vezes em fazer o que era necessário na luta do Bem contra o Mal.

Iallanara Nindra, a Bruxa Vermelha, é o tipo de personagem que eu adoro ver o desenvolvimento. Não dá para saber até que ponto ela irá seguir o Bem, ou o quão confiável ela pode ser. Seu passado a condena totalmente, no entanto, nota-se o desespero que ela possui a fim de se ver livre de correntes sombrias que seu mestre, Sukemarantus, o Senhor das Sombras, as colocou tão logo ela se livrou de sua tutora que a torturava sob qualquer pretexto. Essa é uma personagem que temos que ficar de olho, no entanto, com a fé dada pelos deuses de Doah e que adquirimos no decorrer da narrativa, também pedimos que ela consiga se livrar das Trevas e tenha sua tão sonhada vida.

E, por último, Galatea. Por vezes, peguei-me a me irritar com ela. “Muito certinha”, pensava – um pensamento típico de Iallanara, devo dizer. Contudo, no decorrer da história percebe-se que ela não é apenas a Princesa Certinha do Papai Herói. Galatea é a heróina principal desta história; é literalmente a encarnação de tudo o que há de bom no mundo. A Escolhida de Radrak, o deus da Vida, será a responsável para que o Bem vença de uma vez por todas o Mal que assombra Grinmelken. Ela terá que percorrer um caminho de aprendizado e maturidade para que consiga, ao fim, combater Enelock. E no decorrer do caminho, notamos que ela não é perfeita, mas o que a torna especial é justamente sua pureza.

E esse é o círculo de heróis, que encontrará pelo caminho aliados importantes e inimigos temerários. Dentre estes, o maior de todos, Enelock, Lorde das Sombras, capaz de criar mortos-vivos. E devo dizer: seus vampiros são muito mais assustadores (e melhores de se visualizar) que o brilhante Edward Cullen. Como asseclas de Enelock, o mais importante de “Filhos de Galagah” é Merkanos, o Aspecto de Orgul, Divindade das Trevas. Ele terá um papel muito importante na jornada de Galatea e seus amigos.

O que mais gostei em Filhos de Galagah? Foram os clichês: Bem versus Mal; Heroína “Certinha”; Personagens Honrados acima de tudo; a Bruxa sofrida e amarga, mas que quer uma vida melhor, uma vida que inveja há muito tempo. É fácil falar das personagens e rotulá-las logo de início.

E o que torna tudo isso interessante? É a adorável narrativa de Leandro Reis. A história parece que já estava ali, só precisava ser contada, só precisava do bardo certo. Os personagens bem estruturados andam por lugares que nós temos a certeza de que já visitamos em outras histórias, mas se apresentam de uma maneira singular, única. Se nos deixarmos conhecer as personagens e seus respectivos mundos, se torna incrivelmente impossível definir suas personalidades sem antes compreendê-las.

Adoro livros de fantasia. E, agora, adoro a fantasia de Leandro Reis.

E para finalizar, deixo as seguintes dicas:

– Não se esqueçam de Sukemarantus.
– Lembrem-se do Príncipe Thomasil.
– E temam Enelock, mas sem perder a fé em Galatea e seus amigos.