Dois de Laini Taylor

Dias de Sangue e Estrelas

Uma das coisas que faz eu amar livros cada vez mais é o que eles fazem comigo depois que eu leio a última palavra da última página do último capítulo. Há livros, é claro, que me fazem dizer “Aleluia!” por ter conseguido terminar. E, é óbvio, há aqueles que eu fico olhando e olhando, como se mais palavras fossem simplesmente cair do céu até as páginas finais. 

Comecei com Feita de Fumaça e Osso (resenha aqui) de maneira despretensiosa. Apeguei-me a Karou e Akiva sem perceber, lamentando por eles, torcendo por eles, sentindo o que eles sentiam enquanto Laini Taylor destrinchava na sequência Dias de Sangue e Estrelas e Sonhos com Deuses e Monstros.

Depois que terminei de ler o terceiro livro da trilogia, me senti meio zonza. E um tanto alucinada. Há certas coisas que eu prezo muito em literatura. Não, não é a verossimilhança. Ela pode ficar num…ahm…terceiro lugar, talvez. Penso que em primeiro lugar vem sempre os personagens. São eles que nos fazem querer continuar a virar as páginas, querer descobrir o que os aguarda. Amor, separação, morte ou vida? Em segundo lugar vem a narrativa. Um “jovem adulto” abrange tantas narrativas que só sabendo do que o livro se trata a gente pode escolher melhor.

Sonhos com Deuses e Monstros

A trilogia da Laini Taylor tem partes sombrias. Afinal, os livros falam de guerra entre quimeras e anjos, aniquilação de raças, vidas ceifadas, e até que ponto isso irá afetar o mundo humano. Mas também fala de amor e amizade, de pessoas de dezoito anos e criaturas que viveram séculos demais. Àquelas estão diretamente ligadas à leveza da narrativa. Faz rir mesmo que o peso do mundo esteja nos ombros da principais personagens – e que sentimos a todo momento. Há música, há calmaria. Há risos. Assim como há choros, luta. Guerra.

Falar da trilogia Feita de Fumaça e Osso é falar disso tudo. E também (outra coisa que adoro em literatura) de drama. Drama por não saber, até a última página, o que realmente vai ser dos personagens que você aprendeu a gostar. Fica ali, sofrendo, querendo que eles se veem logo, se abracem logo, se beijem logo. E, enquanto isso não acontece, sofre com eles por essa separação, o que foram obrigados a fazer depois de tudo o que sofreram, apenas para sofrerem ainda mais (sim, muito sofrimento!). E não falo aqui apenas dos principais. Pois Taylor conseguiu desenvolver de maneira incrível seus personagens secundários, tão importantes na trama.

Ela segura os acontecimentos com uma mão apertada, deixando o leitor angustiado, sofrendo junto. E, então, você se vê igual aos rebeldes que se juntam. Improváveis, mas tão, tão essenciais. E é nesse momento que você vê que as diferenças não devem ser vistas como imposição, e sim com algo que se completa. Tem tanto ali de realidade, nos atos de serafins e quimeras que se envolvem apesar da guerra vivida há tantos anos, que você começa a pensar nas nossas próprias. Guerras verdadeiras que exterminaram seres humanos apenas por eles serem diferentes daqueles que se acham em supremacia. Você encontra nas palavras de Taylor um conceito pré-concebido sobre as criaturas, um conceito moldado por aqueles que estão no poder. Um conceito de que, se é diferente, deve ser exterminado.

E é isso que amo em livros. O que ele faz comigo depois de ler a última palavra da última página do último capítulo. Essa realidade tão intrínseca na literatura. E essa literatura tão enraizada em nossa – ainda distorcida – realidade.


Título: Dias de Sangue e Estrelas
Original: Days of Blood and Starlights
Editora: Intrínseca 
Edição/Ano: 2013
Páginas: 444
Sites: Skoob; Laini Taylor

 

 
Título:
 Sonhos com Deuses e Monstros
Original: Dreams of Gods and Monsters
Editora: Intrínseca 
Edição/Ano: 2015
Páginas: 558
Sites: SkoobLaini Taylor

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“Feita de fumaça e osso”, Laini Taylor

“Feita de Fumaça e Osso”, Editora Intrínseca

Eu tenho um certo receio de Best Seller; aquele livro que tem destacado comentários do New York Times, por exemplo. Mas, quando li sobre Feita de Fumaça e Osso no blog Livros e Citações, logo percebi que esse livro me encantaria. E não estive errada. Fazia um bom tempo que um livro não me prendia totalmente. Fazia um bom tempo que eu não tinha uma ressaca literária daquelas que te fazem se perguntar: qual o sentido da vida, agora? E foi assim que me senti após ter terminado Feita de Fumaça e Osso, de Laini Taylor, o primeiro de uma trilogia.

Bem, antes de mais nada, a vida tem sentido, pois já tem a sequência de Feita de Fumaça e Osso, que é Dias de Sangue e Estrelas.

O livro é dividido em quatro partes, sendo que a primeira já tem uma introdução que nos torna curiosos:

Era uma vez um anjo e um demônio que se apaixonaram.
A história não acabou nada bem.

Karou, uma garota órfã de dezessete anos, vive em Praga sozinha em um apartamento de dois cômodos, e o que a torna alguém curioso não é seu cabelo azul, ou seu grande talento para desenhar. Sua família adotiva é composta por quimeras, e “seu pai”, Brimstone, o Mercador de Desejos, é também chamado de demônio: sua cabeça é de um carneiro, o torso de um homem e a parte inferior de seu corpo, de leão. O trabalho dela nessa família é, também, estranho: ela deve coletar dentes. Sim, dentes: humano ou de animal, não importa. Pode ser tanto os dentes de um morto quanto as presas de um elefante. E, depois de coletados, ela deve levá-los para Brimstone, mas para o que ele utiliza tudo isso, é outro segredo. Viver com Brimstone, cujo sorriso e aprovação são muito apreciados por Karou (mesmo raros), fez com que a garota não lhe perguntasse coisa alguma. Muitas das perguntas que ela queria fazer ao quimera eram direcionados a Issa, a górgona que cuida dela como se fosse sua própria cria.

Karou não sabe por que é criada por essas criaturas que ela ama tanto. Ela se julga uma pessoa comum – no sentido humano da palavra -, que tem certos privilégios. A loja de Brimstone, acessada através de um portal que só pode ser aberto por dentro, leva a Outro Lugar (o nome que Karou deu para onde quer que a loja esteja), e também é a passagem intermediária para tantos outros portais a qualquer lugar que se queira chegar. Por isso, Karou estudou nos Estados Unidos, teve um sensei em Hong Kong, buscou presas de elefante em um leilão em Paris, e visita, periodicamente, um homem que lhe entrega dentes de defuntos, no Marrocos.

Há, também, os entregadores de dentes que têm o privilégio de adentrar a loja de Brimstone (embora para isso tenham que ter envolta de seus pescoços as filhas de Issa – sim, serpentes -, para que, a qualquer sinal de problemas, morda o visitante e o mate). A esses, Brimstone paga o estoque de dentes recebido com Desejos. Desde pequenos e simples, como tornar seu cabelo azul ou deixar a sobrancelha com aparência de lagarta, quanto outro maiores, como conseguir voar, ficar invisível, ou ter todo o conhecimento sobre Outro Lugar. Mas, como o Mercador de Desejos mesmo diz, a magia vem com um preço, e o preço a ser pago é a dor.

Feita de Fumaça e Osso é um livro fuido. A princípio, é você quem define o ritmo da leitura, virando as páginas tranquilamente como se fosse uma leitura de domingo. Mas, rapidamente, a leitura fica dinâmica, e é a história que te leva. A narrativa de Taylor é assim. Depois de um tempo, você não sabe se está lendo por curiosidade, ou se é o livro que te prendeu de tal forma que fica impossível largá-lo – como se fosse magia! Ainda mais depois que aparece Akiva, e todo o mistério, a paixão e o medo aparecem.

Akiva é um serafim. Um soldado criado para a guerra contra os quimeras desde que tinha cinco anos. Ele cresceu esquecendo-se de tudo o que era bom e doce, pois na guerra ele deveria ser apenas cruel. Um assassino. Como os quimeras…

A mitologia utilizada por Taylor é tão coerente com o livro, com um encaixe tão perfeito, que você nem sequer se pergunta se é real ou não. Se a história contada pelas personagens faz parte de alguma cultura ou se foi apenas inventada pela autora. Enquanto eu lia o livro, eu comecei a pensar nessa mitologia, nos antepassados dos quimeras e serafins, como uma história tão presente quanto a de Arthur ou do jovem Robin Hood.

Outra coisa sobre a narrativa de Taylor que achei maravilhosa e que só torna a história mais rica: a ansiedade de Karou e Akiva, tão forte em seus personagens, atravessa a narrativa. E de uma forma que também te deixa ansiosa ao ler.

Havia outra vida que devia estar vivendo? Algumas vezes sentia uma forte certeza de que sim – uma vida fantasma, provocando-a, mas fora de alcance. Uma sensação que às vezes a dominava enquanto estava desenhando, andando, e, uma vez, quando estava dançando lentamente com Kaz, bem juntinho, sentiu que deveria estar fazendo outra coisa com as mãos, as pernas, o corpo. Alguma outra coisa. Alguma outra coisa. Alguma outra coisa. Mas o quê?

Página 82

Apenas nas últimas páginas que conseguimos entender a escolha da capa e o título. E, devo dizer: é maravilhoso! Mostra a inteligência e a sutileza da autora e da editora.

Enfim, o livro é maravilhoso e com um fim surpreendente, conturbado e revelador. Uma história sobre guerra entre duas raças. Uma história de amor entre um serafim e uma quimera. E uma história que o lema de um se torna a sina de outro. Vitória e Vingança nunca parecera tão difícil e dolorido de se conseguir. E a esperança de um mundo de paz, tão longe de se alcançar.


Título
: Feita de Fumaça e Osso
Original: Daughther of Smoke and Bone
Editora: Intrínseca
Edição/Ano: 2012
Páginas: 382
Sites: Skoob, Laini Taylor