Clichês… por que não?

Uma das coisas sobre Literatura, e que eu gosto muito, são os clichês. Claro que a originalidade é sempre bem-vinda, mas como realmente defini-la, não é mesmo? Quando se inicia a leitura de um livro, já temos uma prévia, mesmo que inconsciente, do que nos espera naquelas páginas.

O mocinho vencerá no final. Não haverá “final feliz” (o que está muito presente nas distopias que vêm fazendo sucesso – como Jogos Vorazes e o famoso V de Vingança). O mordomo é o real assassino. O casal principal sempre lutando para ficar junto, o que se concretiza apenas no fim…

Mas comecei a me perguntar por que determinados clichês são tão chamativos. E então me questionei por que eles chamam a mim, especificamente.

De Literatura, gosto de quase tudo. Há títulos, também, que ainda não tive tanta curiosidade em ler, como Ficção Científica (embora goste de Star Wars). Prefiro um final feliz, porém sou chegada a um drama no enredo. Acho que, no fim, o que me chama para determinados livros são, realmente, os clichês e como eles são desenvolvidos. Afinal, tem coisa mais clichê do que um final feliz?

Ainda quando ouvinte, minha mãe sempre nos lia Contos de Fadas, e os VHSs eram sempre da Disney. Quando comecei minha vida de leitora, fui direcionada para determinados livros: os de aventura infanto-juvenil. Pedro Bandeira era meu preferido, com a série Os Karas. E logo se tem o primeiro clichê: a) grupo de amigos, b) curiosidade, c) conspiração, d) final “tudo resolvido” que é digno de uma boa aventura infanto-juvenil. E então, com o ensino médio, vieram as Literaturas “de Vestibular”. Sim, em Machado de Assis também há clichê! Ou você acha que triângulo amoroso, traição e ganância é algo inventado por ele?

Durante um bom tempo eu fui aquele tipo de leitora que lia “até bula de remédio”, mas sempre que não pensava muito e seguia o subconsciente, escolhia romance, suspense policial ou uma aventura juvenil. Gosto da aventura em si. E hoje, com 15 anos de muitas leituras, e notando todos os clichês existentes em Literatura, é notável como alguns autores têm o condão de nos fazer sorrir, chorar e temer o que está por vir, mesmo que – como eu disse anteriormente – saibamos o que nos aguarda nas páginas vindouras.

Que fique claro que não são os clichês que acabam com um livro, mas sim a maneira com que o autor os coloca, os desenvolve. Pode-se dizer que Machado usou da realidade para escrever suas obras (que foram fundamentais para se classificar a época tratada em seus romances como Realismo), assim como Charles Dickens, mas, como todos sabemos: os clichês estão presentes em nossa vida, em nossa realidade.

Portanto, o legal do clichê não é ele por si mesmo. O legal é quando o autor consegue usá-lo favoravelmente. Em Harry Potter, por exemplo, há o clichê do menino órfão que deverá enfrentar o vilão que matou seus pais, e fará isso com a ajuda principal de seus dois melhores amigos. Ou seja: um fato extremamente clichê que J. K. Rowling desenvolveu com maestria!

Contudo, há também os clichês do tipo “leu uma obra, leu todas”. É o que sinto com Nora Roberts. O primeiro livro que li da autora foi “Dançando no ar“, o primeiro livro da Trilogia da Magia. Li a sequência, mas não foi a mesma coisa. E, depois, também tentei ler outros livros da autora, mas foi a mesma frustração cansativa. Como se todos os livros se tratassem de uma mulher que tem problemas com relacionamento, cuja base é algo soturno de seu passado. Há, sim, uma sensualidade em suas obras que eu aprecio, mas não é só de sexo que vive a Literatura… Ou, então, os famosos romances de banca, cujos personagens só são completamente felizes ao encontrar um grande amor, e até que isso aconteça, nada é perfeito, nada dá certo, não há realização pessoal e/ou profissional (minha veia Feminista grita, aqui!).

Há poucos autores que pegam o clichê e conseguem trabalhá-lo a contento – ao menos no que diz respeito ao meu gosto literário. Trabalhar um clichê é complicado. Quando o leitor sabe o que vem em seguida, os clichês que aquela obra trará, faz perder o elemento surpresa, então um bom roteiro, personagens relevantes e poder narrativo tem que superar tudo isso.

Meus livros com clichês bem desenvolvidos favoritos?

Suma das Letras, 494 páginas

Este livro se passa na Alemanha, no início do século XV. O clichê desta obra é a ganância de um homem, que faz de tudo para ter o poder, até mesmo acusar uma jovem virgem de prostituição. Ele consegue, e a jovem só pode, então, seguir uma vida de prostituição. Ela viaja pelo país junto de outra prostituta, que se torna uma amiga e conselheira. Enfrenta problemas que os viajantes daquela época tinham, e tudo o que pensa é em sua vingança. O interessante é que tudo vai acontecendo de maneira que a favoreça com seu objetivo (outro clichê?). Se ela consegue ou não… Aí depende de sua leitura descobrir.

Martins Fontes, 752 páginas – volume único

Não que seja novidade, mas em As Crônicas de Nárnia temos o clichê dos heróis escolhidos, a profecia de que alguém salvará toda a terra. Há a negação a princípio, depois o total envolvimento. E, claro, o final feliz depois de uma batalha contra a Rainha Má. Uma aventura excelente! (As Crônicas de Nárniaestá resenhado aqui no Linhas e Pensamentos).

LeYa, 440 páginas

O maior clichê de Dragões de Éter nada mais é que um romance entre um príncipe e uma plebeia. O jeito, porém, com que Draccon descreve o relacionamento entre o príncipe Axel e a plebeia Maria Hanson nos encanta. E por ser um livro de aventura há a batalha do Bem versus Mal, sendo o Bem uma bela personificação em forma de Fada e o Mal em forma de Bruxas e Piratas! Entre outras coisas, é claro.

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Estronho – Selo Fantas, 368 páginas

Assim como citei Pedro Bandeira acima, Nikelen também nos presenteia de maneira deliciosa o clichê de um grupo de amigos que deverão enfrentar problemas aparentemente além de suas capacidades. Há o passado conturbado dos personagens que também os ajuda e atrapalha nos acontecimentos futuros e em suas escolhas. Ah, sim… Também há a luta do Bem versus Mal. (Territórios Invisíveis também já foi comentado e resenhado no Linhas e Pensamentos).

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Editora Globo, 292 páginas

Sim, eu já falei dos clichês de Dom Casmurro acima. Há o amor de infância, o triângulo amoroso, traição… Ou seja, todo um clichê que poderia muito bem não significar nada para muitos leitores.

Apenas para finalizar…

A Arte Literária transcreve a nossa vida – e às vezes utiliza de fantasia para isso -, então por que não aproveitar com outros olhos as coisas que “sabemos que acontecerão”?  Por que não deixar que o ordinário, o comum, transforme-se em algo extraordinário e maravilhoso? A Literatura não está aí para que fujamos de nós mesmos; ela nos ajuda a amadurecer, a nos conhecer, a evoluir. E se for utilizando clichês… Bem, por que não?