O patamar do principiante

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Eu ainda me sinto principiante. Afinal, minhas conquistas não foram tão grandes assim quando eu paro e comparo aos outros. Então, às vezes me pego a pensar em que cargas d’água de patamar estou me colocando quando me chamo “praticante de atividade literária”, “a escritora”, “a romancista”. É uma coisa de neófitos, mesmo. Aqueles que se veem num mundo novo e se perguntam: “E agora? Me enquadro no mesmo patamar que Saramago, Drummond, Machado, Rowling? Ou vou acabar ficando mesmo entre aqueles nomes que foram vistos apenas uma vez e, então, esquecidos?”

Mas aí eu me lembro que também me coloquei no patamar de Rowling. Que não é Kathleen, mas apena Joanne. Se tornou J. K. só depois de muito suor. E não é disto – suor, transpiração! – de que se trata a escrita? Picasso já falava isso; de que a inspiração de uma obra prima poderia até vir, mas não se sabia quando ou como – o importante era que a inspiração o encontrasse trabalhando.

Inspiração todos tempos, desde que permitamos abrir nosso mundo, nossa mente – e várias vezes -, nossa alma. Para mim, escrever se trata disso. De abrir minha alma em um papel e, então, usar tudo o que me cerca para tornar o abstrato em algo que se possa entender.

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Talvez eu seja mesmo uma escritora. Recém-batizada com seus poucos contos publicados, é verdade. Mas se eu estou romanceando em palavras, se estou transformando e criando um mundo inteiramente meu e que alcançará a outros – mesmo que poucos, a princípio -, então é o que sou. Escritora. Principiante. Aspirante.

Então, sim. Sou Machado. Sou Rowling. Mas, acima de tudo, sou eu mesma. E isso é muito bom.

Impulsos de pena

É de uma verdade inquestionável que a Literatura nada mais é que uma sequência de eventos e acontecimentos de nosso dia-a-dia transcritos de maneira cuidadosa, floreada, ou até rebuscada e sem meias palavras. Para alguns, ela é uma necessidade que te empurra a pegar um lápis ou ficar de frente a uma tela de computador, com as teclas do teclado intercalando-se entre batidas furiosas e o silêncio de uma mente em reboliços.

E talvez seja justamente por isso – por esse relato de dia-a-dia – que a Literatura, de maneira alguma, vai ser algo inédito. Temos 516 anos de história literária brasileira, e milênios de literatura mundial. Logo, toda e qualquer literatura escrita hoje tem um pé em outras obras. Um pé de influência, um Q de cutucadas, uma letra que, definitivamente, tinha que estar em seus escritos. Não é plágio. É a pura e simples influência.

A grande questão é o que escrever, como escrever e o quanto escrever. Acredito que algumas coisas devem ser publicadas de maneira que mostre que o autor é alguém que trabalhou para que suas palavras saíssem da maneira perfeita, como um arquiteto que planeja uma casa ou o professor que se curva no aluno para ensiná-lo devidamente a desenhar as letras. Mas tem outros escritos que você simplesmente precisa mostrar para quem quiser ver e tiver disponibilidade de apenas um clique. Não por eles serem inferiores. Nunca! Pois um escritor não publicaria algo que julga inferior se acredita em seu trabalho e gostaria que outros também acreditassem e dessem o devido valor.

No entanto, assim como o professor te corrige no dia-a-dia sem te cobrar nada, ou o arquiteto que dá dicas sem que precise assinar contrato ou fazer o pagamento adiantado, o escritor tem certa necessidade em publicar algo de maneira livre – ainda mais escritores que ainda estão no começo de suas vidas literárias. É quase um impulso, na verdade. Seja aquele sonho estranho, ou até um fato ocorrido que ficaria bem melhor se transformado em conto ao invés de crônica.

O que me impulsiona é que as coisas estão começando a caminhar na direção que eu quero. Não é nada grande demais – ainda. Mas, ainda assim, é um impulso. Um algo mais que faz minha mente entrar em reboliço. Que faz o teclado ecoar furiosamente. E o lápis correr para o papel em branco. Enquanto os olhos correm mais uma vez pelo que já está escrito e pode ser melhorado ou, simplesmente, deixado de lado para uma sequência.

Escrever é arte, sim. Mas também um trabalho tão delicioso que, algumas vezes, você não precisa da aprovação de ninguém que não a sua própria. E, honestamente, esta é a mais difícil de se conseguir. E a mais gratificante.

Sobre autopublicação e a coluna de Raphael Montes

Há uma coisa interessante que eu percebi com essa moda de autopublicação no site da Amazon. Primeiro que isso te vicia. Já publiquei quatro contos, e tenho desenvolvido outros, por motivos que vão desde inscrição em antologias, a complementação de histórias. Tenho outro conto de horror esperando revisão e um de romance só esperando que eu tenha o tempo devido para ele. Pretendo colocar no ar um romance curto, daqueles bem clichês (afinal, quem não ama um clichê?) e, se tudo der certo, um romance mais bem trabalhado, de gênero fantasia e faixa etária juvenil. Viu? Vicia!

Mas o que realmente faz essa tal de autopublicação é colocar uma imensidão de livros eletrônicos no site da Amazon. Livros com preços tão acessíveis que você “compra sem ver” como se fosse uma promoção de sapatos! E também há livros gratuitos. E, claro, estes são os primeiros a ficarem arquivados na biblioteca Kindle. Mas nem sempre os primeiros a serem apreciados. Não, não estou falando de lidos. É apreciados mesmo.

Essa demanda gigante de novos autores, aspirantes ou experientes, cuidadosos ou “vamos ver no que essa bagaça vai dar”, faz, realmente, ter de tudo ali. Tudo mesmo! Dá para encontrar histórias que você se pergunta por que raios nenhuma editora (tanto as pequenas quanto as de renome nacional) se prontificou a transformar aquilo em papel, a trabalhar no escritor e em sua obra. A gente se pergunta, mas não dá para responder, afinal, não somos especialistas em mercado editorial.

E também há aqueles… Ah, aqueles que não dá, de maneira alguma, de apreciar quando você é uma pessoa que tem certa bagagem em leituras, certos paradigmas a serem seguidos, como, por exemplo, linguagem, coerências textual e narrativa, termos coesivos que transformam a frase, deixando-a redonda e sem trancos. São esses que faz com que um escritor autopublicado – ou escritora autopublicada! – pense duas vezes antes de converter o arquivo e “upá-lo” na Amazon. Pois você não quer carregar o estigma de que, quando se utiliza de autopublicação, suas histórias não têm revisão como muitas lançadas por aí. Que suas histórias não merecem atenção ou que não tiveram toda uma carga de seu tempo, de sua concentração e de preocupação, e de seus cuidados de que cada detalhe estivesse redondo para que os próximos volumes de uma trilogia não sofressem com falta de ganchos narrativos.

Só que, então, você lê o artigo do Raphael Montes, no O Globo. E vê todo aquele sarcasmo, aquela ironia tão bem direcionada. Ah, não! Ela não vai para o escritor autopublicado. Ao menos não em forma de ataque. As ironias provocam risos, pois você identifica ali muita coisa que antes te prendia, te fazia olhar torto para determinados escritores, determinados escritos que pareciam tão presunçosos e tão, tão sérios. Coisas de um “escritor sério” que te fazia parar e pensar se você estava fazendo certo em correr para a autopublicação. Afinal, você não fala como aquele escritor, não tem uma linha de escrita como ele. Mas lá no texto do Raphael Montes você percebe que não precisa ser como aquele escritor sério. Pois você quer, sim, falar de “vampiros com câncer que curtem sexo sadomasoquista para colorir“. Quer sorrir, tirar selfies e se autopublicar. E quer se manter nesse seu jeito, elogiando de maneira efusiva sua outra amiga escritora e traçando resenhas com palavras cotidianas, e não buscadas no Trovadorismo.

Você quer ser escritora. Ponto. Sem complementos nem nada.

 

Conselhos… Conselhos por todo lugar!

Comentei um tempo atrás, em uma postagem no Facebook (não me lembro se foi em Timeline ou num grupo de amigos), sobre os muitos conselhos para autores principiantes que a gente encontra na internet – sem falar dos muitos livros que existem por aí. Autores que têm um livro publicado, e por sorte conseguiu torná-lo um Bestseller, não importando se é do New York Times ou da Revista Veja, já saem palestrando como se fossem um Stephen King.

O interessante nesses “conselhos” é que muitos deles carregam um ar arrogante. Se você viajar pela blogosfera de autores brasileiros (digo brasileiros, pois meu inglês é de um nível mediano demais pra eu me aventurar em blogs em inglês – afinal, esse tipo de autor mestre há em todas as línguas), vai entender do que estou falando. Não desmereço em absoluto o trabalho da pessoa como autor/autora. Cada um tem sua capacidade, cada um tem seu modo de contar histórias que atraem diversos grupos aqui no Brasil e fora dele. Mas o que não gosto é a pessoa se auto-colocar num pedestal porque é o mais vendido do Brasil ou porque conseguiu, como disse, ser um bestseller em sua primeira obra.

Sabe-se que o trabalho do autor não é fácil. Primeiro porque precisa encontrar tempo para escrever em meio à correria do dia-a-dia. Tem gente que trabalha em horários absurdos, outros que tem família, filhos pequenos… Coisas que tomam tempo mesmo que a gente não perceba. Eu ainda estou no início dos tijolinhos amarelos, vai demorar pra conseguir chegar no destino final. E, enquanto isso, a enxurrada de “conselhos” caem como uma chuva de granizo na Sibéria. Chega a ser irritante, sério.

 

Se você ler bons livros, quando escrever, bons livros sairão de você.

No entanto, um site que gosto muito de visitar é o Advice To Writers, do autor Jon Winokur, o qual também sigo no Twitter. Ali não tem apenas as opiniões de Winokur, mas a de outros autores – tanto mortos quanto vivos! Frases soltas que cabem a todos os autores, iniciantes ou não, independentemente da maneira que sua obra esteja.

Outras opiniões que levo em consideração são de pessoa que já tem publicações e, por uma alegria do destino, são amigas pessoais. Talvez eu respeite essas opiniões mais do que qualquer produtor de Bestselleres.

Eu terminei duas histórias há umas semanas – ambas enviada para concursos. Mas, depois que mandeis as gracinhas, percebi que elas estão incompletas. E o site Advice To Writers (mais minha mente estranha que nunca para de questionar com o indecente “e se…”) me mostrou muito isso. E também mostrou que estou no caminho certo. Isso é legal. Ainda mais para mim, que comecei a escrever como diversão, depois como hobby e, finalmente, como algo que quero que os outros vejam.

Não quero me tornar um bestseller. Por enquanto, me contento tranquilamente em obter a aprovação de poucos leitores que respeito. Talvez seja por isso, por essa falta de necessidade de querer provar a esse mundo apocalíptico que é o editorial, que eu simplesmente me irrito com o modus operandi de alguns autores que se sentem mestres. E não são. Sinto muito, mas não são.

E enquanto isso, sigo os conselhos do Winokur. Pois seus advices to writers é realmente algo a se considerar. Mesmo que você já tenha sua bagagem bestseller na conta do banco.

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O martelar da inspiração

Ela queria voar. E, porque queria, voou.
(Inspiração I)

É incrível como todo e qualquer escritor – profissional ou não – tem aquela desculpa bem esfarrapada de que aproveitou que se inspirou em algo para escrever. Sim, é uma desculpa esfarrapada (que eu dou frequentemente, vale dizer). Afinal, não é a inspiração aproveitada que faz um escritor escrever. Não acredita? Bem, vou justificar.

Revivi o blog depois de quase dois meses sem escrever. Não porque sentia saudades (apesar de isso ser verdade), mas porque queria escrever. Queria mesmo! A inspiração quase transbordava de mim, com histórias surgindo, personagens acenando como se fossem uma luz de trem num túnel escuro, criaturas fantásticas praticamente voando sobre minha cabeça como se eu pudesse tocá-las, ou, simplesmente, na forma de uma linda menina que nasceu não faz mais de uma semana (mais conhecida como minha sobrinha Melissa).

Mas, deixando de trelelê, vou explicar o motivo da desculpa esfarrapada de escritores.

É uma desculpa dizer que uma música te inspirou, que uma cena num livro te fez ter aquele clique, ou que a paisagem bucólica de um hotel-fazenda te fez pensar em uma cena perfeita para um conto que poderia muito bem virar um romance. É uma desculpa, pois um escritor, aquele que realmente precisa estar sempre escrevendo alguma coisa, mesmo que seja uma reles frase ou bilhete para o amante, está sempre à espera da inspiração. Está à espera da música, da leitura e da cena corretas para que seu clique aconteça. É quase um treinamento diário, uma espera constante e, por que não dizer, deliciosa.

As palavras saltaram da página e logo a cena aconteceu na minha frente.
Sem censuras, sem pressa e sem temor elas, simplesmente, aconteceram.
(Inspiração II)

Portanto, é realmente uma desculpa esfarrapada dizer que você estava lá, todo lindo, tranquilo, sem nada na cabeça, e de repente ouviu algo que te inspirou. Afinal – e vou redundar só para ficar mais explicadinho e cravado na sua mente -, se você não estava fazendo nada, com sua mente em branco, sua tela já estava pronta, apenas esperando. Igual um arquivo em doc de Word, com seu cursor piscando, enquanto você navega pelo Facebook, lê as notícias nos sites jornalísticos.

As lágrimas caíam como chuva, manchando o vestido,
ligando-se a ele intrinsecamente.  Lágrimas negras de luto. Lágrimas negras de dor.
(Inspiração III)

Digo isso não como prepotência – longe de mim! -, mas pelo simples fato de que, se você é escritor, se realmente gosta, ama, adora o que faz, quando está na frente do seu computador ou com o caderno no colo, vai concordar comigo que, em todo e qualquer momento, você pode ter aquele clique. Pois sua mente já espera. Já está treinada. Já deseja acabar com aquele tempo ocupado com alguma coisa que te mantém longe de sua tela branca para que ela seja preenchida o quanto antes.

Penso que nós, escritores – e reafirmo: profissionais ou não -, somos iguais àquele joelho sendo martelado na clínica médica quando se verifica o reflexo. Esperamos, ansiosamente, pelo martelar no lugar certo para que nosso joelho se levante. E quanto mais alto, melhor.

Sobre a Arte de Escrever

Quando comecei a escrever, nunca imaginei que um dia levaria esse hobbie a sério. Hoje ele é mais terapêutico do que qualquer coisa que eu venha a fazer, e talvez seja justamente por isso que eu tenha valorizado tanto a arte da Escrita. Mas, por mais valor que eu coloque em meus textos (na grande maioria Fanfics), nada poderia me instigar mais nessa Arte do que ler “Oficina de Escritores”, de Stephen Koch.

Na época de faculdade de Letras, eu acho que batia recordes em ler rapidamente livros teóricos e científicos. Acho que o maior culpado dessa agilidade foi o TCC, cujo tema eu escolhi um pouco de última hora. No entanto, eu demorei quase dois meses para ler o livro de Koch. Um novo tipo recorde, devo dizer, e que me surpreendeu, pois sou do tipo que pega um livro e o lê em poucas sentadas. Mas “Oficina de Escritores” tem algo que não me permitiu lê-lo apressadamente.

Eu quis lê-lo devagar, apreciando e analisando cada palavra, deixando que elas entrassem na minha cabeça e ficassem por lá. A priori, adquiri esse livro apenas por curiosidade. Me perguntava o quanto ele seria útil nas minhas viagens imaginativas e o quanto isso interferiria em uma história que estava empacada há um bom tempo (e que continua, devo dizer). Depois, enquanto lia as palavras de Koch, percebi que a Arte de Escrever tem um caminho tortuoso e árduo, porém que pode ter grande diversão, informação e crescimento.

Enquanto o lia, separava algumas citações, primeiramente escrevendo em um caderno separado, mas depois fazendo algo que nunca me permiti em livros: dobrava o canto superior, fazendo uma horrível (porém pequena!) orelha nas páginas. Separava as partes que mais me inspiravam, mais me ensinavam, mais me motivavam. Pois é disso que também trata esse livro: motivação.

A meu ver, há dois modos de classificar “Oficina de Escritores”: um manual, como diz seu título, e um livro de motivação. Sabem aqueles livros que pessoas com problemas de relacionamento buscam em livrarias, ajudando-as a resolver seus problemas interiores? Pois Koch faz isso com os escritores, ensinando-os a trilhar o caminho que um aspirante gostaria muito de percorrer, e percorrer com confiança. Algumas vezes, eu me senti como se estivesse conversando com Koch, não lendo as páginas que ele, tão acadêmica e carinhosamente, escreveu. Sim, eu notei carinho naquelas páginas. Um carinho único que o professor tem com seus alunos. Um professor que, também, não é de passar a mão na cabeça.

Koch mostra uma luz, uma alternativa para quem gosta de escrever. Um modo de fazê-lo bem. E fora o óbvio de que só se escreve bem quem lê muito (que está bem mostrado no livro),  há, como eu disse, a motivação, a bagagem que ele consegue nos fornecer clara e objetivamente. Instruções muito valiosas para qualquer Escritor – aspirante ou não.

Não é a chave para todos os problemas de um Escritor, vale dizer, afinal ele não é um santo milagreiro. Porém, os caminhos que ele mostra para contornar os problemas podem ajudar e muito. Eu indico sim, a leitura, tanto para quem gosta de Escrever, quanto para quem ama Ler e analisar os livros que lê.

Ao fim do livro, Koch indica mais outros, a fim de que o conhecimento do Escritor sobre essa Arte tão libertadora fique cada vez maior e melhor.

Para finalizar, uma pequena citação do livro. Uma das minhas preferidas, e que pode resumir o que “Oficina de Escritores” oferece:

“Inspiração, confiança, convicção, técnica e conhecimento – não é nada disso que torna possível a escrita. É exatamente o contrário. A escrita que torna tudo isso possível.” 

Capítulo 01, página 02.

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Título:
Oficina de escritores: um manual para a arte da ficção
Original: Writer’s workshop: a guide to the craft of fiction
Editora: WMF Martins Fontes
Acabamento: brochura
Edição-Ano: 1ª – 2008
Páginas: 320
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