[CONTO] Roda da fortuna

broken-mirrorEstavam em silêncio desde que terminaram os cumprimentos triviais de “Boa-tarde; boa-tarde”. O terapeuta nem falou nada, nem questionou. Sequer instigou que seu paciente começasse a falar sobre os problemas que sempre lhe trazia. Havia dias que o silêncio era melhor do que esbravejar toda a complexidade que sufocava. Pelo visto, daquela vez seria cinquenta minutos de silêncio.

Faltavam dez minutos para a sessão terminar quando o rapaz se sentou. O terapeuta ergueu as sobrancelhas, vendo aquele movimento súbito de longas pernas sendo jogadas para fora do divã enquanto os olhos escuros e ansiosos se fixavam num ponto além da janela sem cortinas.

Ele aguardou, estranhando aquele movimento novo depois de dezessete sessões em que o paciente sempre ficou estirado no divã marrom-desbotado. No entanto, ao ver o paciente se erguer e ir até a janela como se sua vida dependesse disso, o silêncio não era mais o melhor remédio.

— O que aconteceu? — perguntou o terapeuta depois de mais minutos silenciosos.

— Era ela.

— Ela…?

— No vidro, eu vi. Tenho certeza…

Então era aquilo. O terapeuta suspirou internamente e voltou a se sentar (mal notara que também tinha se levantado em seu lapso curioso e nada profissional).

— Me explique como uma mulher pode estar no reflexo de um vidro.

— Ela continua presa. Entre os mundos, entende?

O terapeuta anotou algo no papel preso à prancheta.

— E o que você sente quando vê essa mulher?

— Sinto que não consigo alcançá-la. Mas de que deveria conseguir.

O terapeuta olhou para o relógio. Ainda restavam três minutos.

— Me sinto em um ciclo — continuou o paciente. — Como se estivesse preso numa roda que gira sem parar, fazendo com que eu volte sempre e sempre no mesmo princípio.

— E qual seria?

— De que, por mais que eu tente, não posso tocá-la por mais do que um instante. Não posso vê-la por mais do que um segundo. E quando percebo isso me sobe um amargo pela garganta, como veneno, que me sufoca. E depois vejo sangue em minhas mãos. Vejo o sangue dela em minhas mãos.

O terapeuta franziu o cenho.

— Você está citando Romeu e Julieta?

— O quê?

— Romeu pensa que Julieta morreu e toma um veneno. Mas a Julieta, que não estava morta, vê o homem que amava morto e se mata com um punhal.

Mas o paciente não o escutava mais. Estava concentrado em si mesmo. Ele precisava tanto de alguma coisa que lhe explicasse aquelas visões e sensações. Algo que lhe abrisse verdadeiramente os olhos. Por que sentia tudo aquilo. Por que se via em várias perspectivas, sob vários pontos de vista, porém com a gritante certeza de que continuava sempre a ser quem era. Nunca um ser diferente. Ainda assim…

Entre visões e sonhos misturados com uma racionalidade desesperadora, ele havia sido um sol que queima as flores do jardim orvalhadas. Um homem sentado num banco apreciando a maresia. Uma sombra que deixa apenas uma rosa branca de rastro.

Além de si mesmo, havia ela. A mulher sem rosto. Apenas um contorno que ele via nos reflexos, ou numa olhada de relance. Um rosto cheio de dor, de mágoa. Um rosto que lhe buscava há tanto tempo que o paciente se sentia velho, apesar da pouca idade. Sentia-se desgastado, mesmo na juventude. Sentia-se em dor, mesmo que nunca tivesse se ferido.
Sensações que o preenchiam, deixando um vazio inexplicável e que era esquecido apenas quando o rosto da mulher se mostrava naqueles instantes.

Um arrepio na nuca. Uma premonição. Não ouvia o que o terapeuta falava. Continuou a olhar pelo vidro, esperando e esperando…

Quando ela se mostrou daquela vez, estava mais nítida. Os olhos grandes e também ansiosos. Sedentos. Procurando! O rapaz encostou-se mais ainda contra a janela. Ele a sentiu deslizar como água por seus dedos. Sentiu o frio na barriga. E então o vento contra o rosto.

Atravessou. Estava em casa.

*

Da janela do consultório, o terapeuta gritou pela recepcionista.

— Ligue para a polícia! Teremos muita coisa pra explicar…

E enquanto esperava, não conseguiu desviar os olhos do paciente, estatelado, cinco andares abaixo, no chão da calçada.

Publicado originalmente em Enlaces Literários

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