Por que a insanidade?

Os olhos de Beto se fixaram naquela cena doentia, o reflexo de uma mente insana,
e logo os murmúrios dos policiais do lado de fora do quarto mal o alcançavam.
Ele sequer processava o barulho da máquina fotográfica e o forte flash. 

A cena destrinchada à sua frente, igual às outras três naquelas últimas semanas,
não deixava dúvidas de que se tratava de um assassino em série.
Um psicopata sexual, como os livros de estudiosos norte-americanos falavam.
Mas quem conseguiria sentir prazer fazendo aquelas coisas?
Uma morte obscena, com sangue para todo o lado,
humilhando um casal que nunca fez nada a ninguém.
(Trecho de “Insanidade“)

Tem despertado em mim uma veia literária inesperada. Primeiro ela veio devagar, como a fantasia a que estou acostumada e que torna Harry Potter (agora sendo ladeado um teco com “Feita de Fumaça e Osso”) meu amor eterno amor. E então essa veia foi ganhando vida, tomando formas próprias, ramificando, escurecendo, abraçando o sombrio como se apenas esperasse a hora certa em que eu estaria desprevenida.

Primeiro eu matei uma personagem do romance que estou trabalhando. Mas sua morte me afetou a ponto de eu querer ressuscitá-la. Agora ela está viva e bem, obrigada – mas não vendo fadas e estrelas. No entanto, o lado sombrio literário que queria extravasar continuava a martelar em minha mente. Sonhei com algo que nem em meus piores sonhos desejaria para um personagem (que dirá uma pessoa). Só que fui obrigada a escrever para desafogar. Dias depois, apaguei o arquivo sem chances de restaurá-lo. E isso me fez um bem danado!

Mas… Sabe aquela mão que fica te puxando, puxando, enquanto você só quer ir para o outro lado? Pois é. Essa mão continuava em mim e eu escrevi Igualmente Doce. E não foi o bastante. Escrevi um conto, a princípio intitulado de Rosa, que, depois de mostrar para minha leitora beta que curte literatura de terror (Sônia Sag, um beijo!), ela me pediu para aumentar aquela história.

Na hora arregalei os olhos e falei: aumentar o quê, criatura?! Não que a história não pudesse crescer até certo ponto. Mas, além de terror não ser minha praia favorita, esse tipo de pergunta tem uma resposta imediata, ainda mais quando se trata da Sônia. Nenhuma história está boa demais para ela. (E isso, também, é algo que me faz querer melhorar sempre o que escrevo e que chega aos olhos dela e da Priscila – outra querida que sempre está me apoiando neste mundo novo de escritora). Então, apenas para tentar agradar, lá fui eu criando mais alguns personagens para aumentar o que antes era um conto de pouco mais de 4 páginas de Word.

No final, consegui algo impensado: uma noveleta de dezoito páginas. E o que está naquelas páginas? Sim, o horror. E um leve toque de erotismo que a personagem Rosa – pois é, a que intitulava o conto!  – não pode viver sem. Mas talvez seja porque, em muitas literaturas, o horror dança com a sensualidade. Não porque um seja intrínseco ao outro. Muito pelo contrário. Eu prefiro, em todos os aspectos, erotismo sensual sem horrores (meus deliciosos romances de Nora Roberts que o digam!). Embora Charlaine Harris também esteja ganhando espaço na minha estante, juntamente dos já Irving Wallace e Stephen King.

No entanto, há aquela veia literária inesperada. Que vem me abraçando de maneira tal que eu não consigo escapar. E foi assim que nasceu o horror que grita nas páginas antes em branco à minha frente. Foi por esse grito que agora está nascendo um novo romance de literatura fantástica que brinca com o sombrio e a morte. E foi assim também que nasceram Rosa, Beto, Tobias e Isac. E também a Insanidade.

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