Citações #21: C. S. Lewis

Algumas citações são tão precisas em determinadas fases de nossas vidas, que é até espantoso (me pergunto se é exatamente por isso que muitas pessoas acreditam em horóscopo e essa coisa toda de mapa astral). E enquanto vou produzindo a sequência de um romance (sendo que o primeiro ainda está em trâmites de seleção), me deparo com C. S. Lewis. E muito do que estou escrevendo (e até vivendo, vale dizer) pode se resumir a essas palavras tão simples e verdadeiras:

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Clichês… por que não?

Uma das coisas sobre Literatura, e que eu gosto muito, são os clichês. Claro que a originalidade é sempre bem-vinda, mas como realmente defini-la, não é mesmo? Quando se inicia a leitura de um livro, já temos uma prévia, mesmo que inconsciente, do que nos espera naquelas páginas.

O mocinho vencerá no final. Não haverá “final feliz” (o que está muito presente nas distopias que vêm fazendo sucesso – como Jogos Vorazes e o famoso V de Vingança). O mordomo é o real assassino. O casal principal sempre lutando para ficar junto, o que se concretiza apenas no fim…

Mas comecei a me perguntar por que determinados clichês são tão chamativos. E então me questionei por que eles chamam a mim, especificamente.

De Literatura, gosto de quase tudo. Há títulos, também, que ainda não tive tanta curiosidade em ler, como Ficção Científica (embora goste de Star Wars). Prefiro um final feliz, porém sou chegada a um drama no enredo. Acho que, no fim, o que me chama para determinados livros são, realmente, os clichês e como eles são desenvolvidos. Afinal, tem coisa mais clichê do que um final feliz?

Ainda quando ouvinte, minha mãe sempre nos lia Contos de Fadas, e os VHSs eram sempre da Disney. Quando comecei minha vida de leitora, fui direcionada para determinados livros: os de aventura infanto-juvenil. Pedro Bandeira era meu preferido, com a série Os Karas. E logo se tem o primeiro clichê: a) grupo de amigos, b) curiosidade, c) conspiração, d) final “tudo resolvido” que é digno de uma boa aventura infanto-juvenil. E então, com o ensino médio, vieram as Literaturas “de Vestibular”. Sim, em Machado de Assis também há clichê! Ou você acha que triângulo amoroso, traição e ganância é algo inventado por ele?

Durante um bom tempo eu fui aquele tipo de leitora que lia “até bula de remédio”, mas sempre que não pensava muito e seguia o subconsciente, escolhia romance, suspense policial ou uma aventura juvenil. Gosto da aventura em si. E hoje, com 15 anos de muitas leituras, e notando todos os clichês existentes em Literatura, é notável como alguns autores têm o condão de nos fazer sorrir, chorar e temer o que está por vir, mesmo que – como eu disse anteriormente – saibamos o que nos aguarda nas páginas vindouras.

Que fique claro que não são os clichês que acabam com um livro, mas sim a maneira com que o autor os coloca, os desenvolve. Pode-se dizer que Machado usou da realidade para escrever suas obras (que foram fundamentais para se classificar a época tratada em seus romances como Realismo), assim como Charles Dickens, mas, como todos sabemos: os clichês estão presentes em nossa vida, em nossa realidade.

Portanto, o legal do clichê não é ele por si mesmo. O legal é quando o autor consegue usá-lo favoravelmente. Em Harry Potter, por exemplo, há o clichê do menino órfão que deverá enfrentar o vilão que matou seus pais, e fará isso com a ajuda principal de seus dois melhores amigos. Ou seja: um fato extremamente clichê que J. K. Rowling desenvolveu com maestria!

Contudo, há também os clichês do tipo “leu uma obra, leu todas”. É o que sinto com Nora Roberts. O primeiro livro que li da autora foi “Dançando no ar“, o primeiro livro da Trilogia da Magia. Li a sequência, mas não foi a mesma coisa. E, depois, também tentei ler outros livros da autora, mas foi a mesma frustração cansativa. Como se todos os livros se tratassem de uma mulher que tem problemas com relacionamento, cuja base é algo soturno de seu passado. Há, sim, uma sensualidade em suas obras que eu aprecio, mas não é só de sexo que vive a Literatura… Ou, então, os famosos romances de banca, cujos personagens só são completamente felizes ao encontrar um grande amor, e até que isso aconteça, nada é perfeito, nada dá certo, não há realização pessoal e/ou profissional (minha veia Feminista grita, aqui!).

Há poucos autores que pegam o clichê e conseguem trabalhá-lo a contento – ao menos no que diz respeito ao meu gosto literário. Trabalhar um clichê é complicado. Quando o leitor sabe o que vem em seguida, os clichês que aquela obra trará, faz perder o elemento surpresa, então um bom roteiro, personagens relevantes e poder narrativo tem que superar tudo isso.

Meus livros com clichês bem desenvolvidos favoritos?

Suma das Letras, 494 páginas

Este livro se passa na Alemanha, no início do século XV. O clichê desta obra é a ganância de um homem, que faz de tudo para ter o poder, até mesmo acusar uma jovem virgem de prostituição. Ele consegue, e a jovem só pode, então, seguir uma vida de prostituição. Ela viaja pelo país junto de outra prostituta, que se torna uma amiga e conselheira. Enfrenta problemas que os viajantes daquela época tinham, e tudo o que pensa é em sua vingança. O interessante é que tudo vai acontecendo de maneira que a favoreça com seu objetivo (outro clichê?). Se ela consegue ou não… Aí depende de sua leitura descobrir.

Martins Fontes, 752 páginas – volume único

Não que seja novidade, mas em As Crônicas de Nárnia temos o clichê dos heróis escolhidos, a profecia de que alguém salvará toda a terra. Há a negação a princípio, depois o total envolvimento. E, claro, o final feliz depois de uma batalha contra a Rainha Má. Uma aventura excelente! (As Crônicas de Nárniaestá resenhado aqui no Linhas e Pensamentos).

LeYa, 440 páginas

O maior clichê de Dragões de Éter nada mais é que um romance entre um príncipe e uma plebeia. O jeito, porém, com que Draccon descreve o relacionamento entre o príncipe Axel e a plebeia Maria Hanson nos encanta. E por ser um livro de aventura há a batalha do Bem versus Mal, sendo o Bem uma bela personificação em forma de Fada e o Mal em forma de Bruxas e Piratas! Entre outras coisas, é claro.

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Estronho – Selo Fantas, 368 páginas

Assim como citei Pedro Bandeira acima, Nikelen também nos presenteia de maneira deliciosa o clichê de um grupo de amigos que deverão enfrentar problemas aparentemente além de suas capacidades. Há o passado conturbado dos personagens que também os ajuda e atrapalha nos acontecimentos futuros e em suas escolhas. Ah, sim… Também há a luta do Bem versus Mal. (Territórios Invisíveis também já foi comentado e resenhado no Linhas e Pensamentos).

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Editora Globo, 292 páginas

Sim, eu já falei dos clichês de Dom Casmurro acima. Há o amor de infância, o triângulo amoroso, traição… Ou seja, todo um clichê que poderia muito bem não significar nada para muitos leitores.

Apenas para finalizar…

A Arte Literária transcreve a nossa vida – e às vezes utiliza de fantasia para isso -, então por que não aproveitar com outros olhos as coisas que “sabemos que acontecerão”?  Por que não deixar que o ordinário, o comum, transforme-se em algo extraordinário e maravilhoso? A Literatura não está aí para que fujamos de nós mesmos; ela nos ajuda a amadurecer, a nos conhecer, a evoluir. E se for utilizando clichês… Bem, por que não?

Livro de domingo: um comentário sobre As Crônicas de Nárnia

Após terminar de ler o volume único de As Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis, fiquei pensando por algum tempo em quanto o avaliaria em minha conta no Skoob. Por fim, o classifiquei como Bom, dando-lhe três estrelas. Isso se deve ao total do livro, sem desmerecer o trabalho exemplar do autor.

Construir um mundo novo não é fácil, como muitos devem pensar. Ainda mais escrever sete livros sobre este mundo. Nota-se que o personagem principal das Crônicas não são os Filhos de Adão e Eva, ou seus reis narnianos, mas sim a própria Nárnia. É lá onde tudo acontece, de onde tudo provém e onde tudo termina.

Dos sete livros, três me agradaram totalmente. Por ordem de preferência, falo de O Cavalo e seu Menino, contando a história do agradável Shasta e sua companheira de viagem, a calormana Aravis, junto de dois cavalos narnianos, Bri e Huin. Cada um busca sua respectiva liberdade numa jornada que os levará a Nárnia, mas não sem muitas aventuras e surpresas. Nele, também vemos os Grandes Reis de Nárnia: Pedro, Edmundo, Susana e Lúcia, já crescidos.

Em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa é quando vamos à Nárnia pela segunda vez; quando Lúcia descobre esse lugar maravilhoso e gosta dele tão logo vê seu primeiro narniano, o Sr. Tumnus. O que mais gostei desse volume é como as crianças se veem leais a Nárnia e querem protegê-la assim que descobrem que a terra passa por grande problemas – com exceção de Edmundo, que se mostra perverso inclusive para com seus irmãos. Mas nada, nada é mais forte que esse sentimento do que sentem por Aslam.

O terceiro livro que me agradou foi A Cadeira de Prata. Reencontrar Eustáquio neste livro foi delicioso, pois a transformação de seu caráter após peregrinar pelas Ilhas Solitárias com Caspian, Edmundo e Lúcia, me fez adorá-lo. E também há Jill, uma garotinha perseguida pelos bullies de sua escola. Em Nárnia, ela percebe que pode enfrentar o medo – mesmo que muitas vezes as pernas tremam e a ânsia em fechar os olhos seja grande.

No entanto, uma coisa eu devo falar sobre Crônicas de Nárnia: embora ele seja um livro escrito para crianças, um adulto também aprende muito com ele. As “lições” morais que se aprende no livro não são passadas como óbvias; como se fosse um livro escrito exclusivamente para o ensinamento moral através de literatura. Tanto os animais falantes quanto os reis de Nárnia, além de todos que puseram os pés naquela terra sem pertencer a ela, têm sua honra e coragem posta à prova a cada instante. Além da vital lealdade a Aslam. É clara a semelhança entre Aslam e Deus (no sentido de religiosidade Cristã), principalmente no livro A Última Batalha, quando um “falso profeta” se passa pelo Grande Leão, e muitos se aproveitam da ingenuidade e lealdade do povo narniano.

Ah, sim… Em A Última Batalha está totalmente explicado minha irritação com Susana, a qual mencionei num comentário que fiz depois de ler Príncipe Caspian.

No total, As Crônicas de Nárnia é um livro para se ler num dia de domingo. Um livro de leitura leve, que não se prende a muitas complexidades ou fatos mirabolantes, e tem aquele teor de aventura que nos refresca a mente. Não sei se algum dia voltarei a lê-lo, mas, se o fizer, serão para os três dos meus favoritos que meus olhos se voltarão. Ou eu, simplesmente, me contentarei com os filmes da Disney…

Livro versus Filme: "Príncipe Caspian"

Uma das coisas que gosto de fazer é ler um livro quando descubro que algum filme baseou-se nele. Fiz isso com O Silêncio dos Inocentes e adorei! Além de ler um livro por curiosidade por saber que ele inspirou um filme. E uma vez que (quase) me cansei de assistir Crônicas de Nárnia graças à TV paga, quando peguei o livro de C.S. Lewis, volume único, esperava algumas coisas nas páginas.

Porém, como alguns sabem, obviamente há diferenças nas adaptações.

Em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, adorei a adaptação feita para o cinema. Eles respeitaram praticamente tudo o que há no livro de Lewis. Contudo, em Príncipe Caspian, houve falhas que eu, como defensora de livros adaptados, não gostei. Talvez isso seja por ser fã da Saga Harry Potter, mas isso não vem ao caso, e seria assunto para outro post.

Primeiramente, devo dizer sobre a cena inicial dos irmãos Pevensie na estação de trem. Não há brigas infantis! Não há cobranças por não terem voltado à Nárnia ainda, e nem dizeres sobre o que acontecera (mas isso é entendível pelo fato de precisar de um gancho para os que apenas assistem aos filmes e não se lembra de muita coisa.) Por aqui, tudo bem. O ruim está depois.

O que é óbvio no livro é que, quando os Pevensie voltam a Nárnia, eles se sentem como antigamente: mais maduros, suas experiências voltam à memória – tanto é que Edmundo vence tranquilamente o anão Trumpkin em um duelo de espadas e Susana consegue acertar tranquilamente uma flecha num alvo realmente distante -, há magia incitando-os e eles se sentem novamente responsáveis por aquele mundo. No livro não há essa guerra infantil entre Caspian e Pedro sobre quem manda mais. O Pedro do livro entende a posição que Caspian conseguiu perante os narnianos e a respeita. O duelo entre Pedro e Miraz – que no filme mostrou-se incrivelmente melhor que no livro, devo dizer – acontece entre eles por ser natural, uma vez que Caspian não poderia enfrentar o tio por estar ferido (embora entenda-se no filme que ele não luta por ser seu tio, e Pedro ser o Grande Rei).

Mas, em minha opinião, o que mais pecou foi a invasão ao castelo de Miraz. Isso não acontece no livro, e, honestamente, essa passagem torna o Pedro um arrogante e metido à besta, o que não é realmente verdade. Há mortes desnecessárias e estupidez por parte de muitos. Miraz não queria propriamente acabar com os narnianos em toda essa guerra, queria apenas matar Caspian para que este não alcançasse o trono.

O que não gostei foi a transformação de Lúcia e Susana no livro. A primeira não mostrou-se muito depois que encontram Caspian, já Susana ficou praticamente apagada. Não há um ar de romance em momento algum entre ela e Caspian, e ela mostrou-se de tal maneira medrosa e enjoada que difere totalmente da Susana de O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa ou da Susana do filme que quer lutar e deixa Lúcia sozinha à caça de Aslam.

Resumindo: nesta luta entre livro versus filme, fico com o livro. Afinal, eu não engulo a arrogância barata de Pedro e sua briguinha de “eu quem mando” com Caspian, e nem com o “corre-corre” atrás de Aslam. Prefiro o livro, no qual as personagens não perderam suas características pela vontade de um diretor.

Embora a Susana tenha continuado uma chata enjoada. Ou uma digna adolescente!