Em busca da felicidade literária

Tinha um bom tempo que eu não me acabava com o final de um livro. Lembro que uma das poucas vezes foi quando eu li Harry Potter e as Relíquias da Morte; aquele momento em que o Harry finalmente percebe que seu sacrifício é tão iminente como inerente. Desde a cena da penseira até o momento em que ele encara o Voldemort, pra mim foi uma tormenta. Afinal, eu tinha me afeiçoado ao Harry como se ele fosse feito de carne e osso. Um menino criado por J. K. Rowling tinha se tornado tanto meu professor como meu amigo, um ombro nos momentos em que tudo o que eu queria era uma vida tranquila; uma vontade de que as histórias que tanto me fascinam e prendem não fossem um reflexo tão forte de uma realidade que ou eu vivencio ou vejo transmitida pelas mídias.

throne-of-glass-series-4-queen-of-shadows-uk-600x907-6879

Celaena Sardothien (reprodução)

Lendo a série Trono de Vidro, de Sarah J. Maas, tive o mesmo com Celaena. A princípio eu não fui muito com a cara dela. Uma personagem que, depois de dez anos construindo sua fama como Assassina de Adarlan (sim, uma das melhores no que faz com tudo o que a bagagem do título carrega) e depois de um ano sendo escrava e sofrendo violências numa mina de sal, ela me mostrava uma disposição para a leveza de espírito que não cabia em quem construiu um passado como o dela.

Sim, ela queria essa leveza. Buscava a todo custo deixar para trás aquele passado horrível. Mas, ainda assim, ela revisitava aquela Celaena cruel. E era quando eu tinha a sensação que ela não havia sido tão bem construída. Uma montanha russa de sentimentos e ações que não me pareceram coerentes com o passado de assassina.

Mas então veio Coroa da Meia-Noite. Esse livro me mostrou a Celaena que deveria ter conhecido no primeiro. E foi quando eu finalmente a aceitei como personagem. Coerente. Que finalmente sabe quem é, mesmo com sentimentos tão controversos. E quando digo personagem, digo em termos literários; em termos que devem ser considerados a realidade que a gente sabe que é intrínseca ao ser humano (pois só assim nos identificamos com eles, os aceitamos e, também, os amamos ou odiamos – ou ficamos indiferentes).

Sendo o ser humano uma criatura inconstante no que tange a evolução emocional e psicológica – afinal, a cada dia conhecemos mais do mundo e do que ele tem a oferecer, e isso nos muda sim! -, com Celaena não seria diferente. Sua evolução, desde Trono de Vidro até o último lançado da autora, Empire of Storms (cuja tradução, pela editora Galera Record, não tem data de lançamento ainda), foi excepcional. E por mais que Celaena tivesse seus altos e baixos como criatura, a personagem seguiu sólida.

E foi por aceitar Celaena, por ver a excepcional evolução dela, por saber que ela passou por tanta coisa, que o final do quinto livro foi um baque: pois foi coerente. Foi real. E é muito difícil lidar com a realidade todos os dias. Ela é feia quando queremos apenas beleza; é pesada quando tudo o que precisamos é leveza. Mas também nos traz esperança – e é isso que nos move, de qualquer maneira. Esperança de um amanhecer mais leve e bonito.

E esperança de um sexto e último livro que seja tanto coerente como feliz. Pois também não é isso que nos move? A felicidade – e a esperança de encontrá-la em suas mais variadas formas?

tog__5.jpg

(reprodução)

Nenhum livro vai ocupar o lugar da série Harry Potter no meu coração por N motivos. E o Harry continuará a ser aquele velho amigo sempre disposto a me fazer sorrir. Mas Sarah J. Maas me fez colocar a série Trono de Vidro também na estante. Li tudo em e-book. Mas como colecionadora de livros que sou – descobri o termo há pouco tempo e me identifiquei muito! -, a série está na lista para ser adquirida junto de outros poucos títulos. Afinal, sou uma chata no que diz respeito às leituras minhas de cada dia. Porém Celaena ganhou seu lugar no trono.

Anúncios

[CONTO] Encadeamento

stone-3962_960_720

Eu já estava acostumado à escuridão. A cada dia, mais e mais dela me envolvia em um redemoinho de dores e lembranças. Não adiantava tentar distrair-me com o agora ou o que poderia ser o amanhã. Nada, absolutamente nada, conseguia fazer esse redemoinho se acalmar a ponto de eu conseguir livrar-me dele. Mas, mais do que isso, eu não queria deixá-lo.

Livrar-me de minhas dores era o mesmo que me livrar das lembranças. E estar sequer um segundo sem pensar em tudo o que me moldara nos últimos tempos era o mesmo que esquecer-me de mim mesmo. Por isso eu usava o mesmo trajeto todas as manhãs, embora mal reparasse na orla da lagoa cheia de patos. Poucas vezes – bem raras, para falar a verdade – eu deslocava minha atenção para uma criança que gritava em surpresa quando via um peixe pular e fugir do anzol, ou quando ria até quase passar mal por ter um cachorro a lambendo mais do que a higiene poderia um dia permitir.

Esses rompantes de alegria alheia faziam a escuridão soltar um e outro dedo de mim. Mas logo eu me esquecia do mundo ao meu redor e seguia o caminho. E aquela manhã não seria diferente.

Alcancei o amontoado de pedras além da lagoa e dos risos meia hora depois, agradecendo a sorte por estar sozinho. Não, não era sorte. A sorte nunca sorrira para mim. Afinal, como algo inexistente pode sequer ter um rosto com lábios? A sorte não existia. Era algo inventado por pessoas que não aceitavam que seus próprios atos, e os de outrem, traziam consequências que às vezes você conseguia enfrentar. E outras vezes não conseguia.

Eram nestes momentos – momentos sem sorte, de azar, de infortúnios –, quando as consequências eram fortes e contrárias demais, que tudo se transformava em escuridão. Um imbecil que não verificara corretamente o carro que teve o volante travado por um instante; a mãe que deixou a criança adormecida no berço para ela mesma dormir, mas esquecendo que a janela que dava para a rua estava destrancada; a moça que, feliz demais para alcançar quem amava, atravessou a rua no momento em que um bêbado dirigia a toda velocidade. Para alguns, pessoas sem sorte. Para mim… Para mim eram apenas pessoas que não tomaram o cuidado de pensar antes agir.

Patrícia não tinha pensado. Doía cada parte de meu corpo, enchia de escuridão e morte cada centímetro de minha alma, raciocinar dessa maneira. Mas era a verdade. Ela não tinha pensado ao subir naquelas pedras, com seu joelho falho, levemente embriagada depois de uma noite inteira de vinho e sexo e risos. Mesmo que tivesse subido naquelas pedras, pela primeira vez, aos seis anos de idade.

Mas, naquela manhã, com o sol mal nascendo entre nuvens ainda carregadas da chuva da noite anterior, Patrícia não pensou. Não mediu as consequências. E quando eu vi sua mão deslizar depois do joelho falhar miseravelmente, soube imediatamente a consequência daquilo.

Não durou dois segundos a queda de quase três metros em direção àquela pedra lisa, arredondada, que Patrícia usou como primeiro degrau para o cume. Em minha mente, porém, eu via e revia aquela queda por longos minutos. Horas. Com a escuridão me envolvendo, me consumindo.

Ela não sofreu, tentou consolar o médico. Mas que consolo eu encontraria, enquanto a escuridão me sufocava, turvando minha visão para aquele mundo antes tão cheio de cores? Um mundo em que Patrícia ria enquanto bebia vinho comigo, enquanto ríamos na cama, nos amávamos, fazíamos promessas?

Os musgos tão comuns começavam a perder espaço para as flores, que cobriam tudo – chão, troncos, pedras –, e o cheiro ardeu meu nariz. Torci-o, não querendo espirrar. Elas tinham cheiro de morte. Vermelhas. Cinzas. Negras. Pisquei. Escuridão de novo, que engolfava, que sufocava. Olhei novamente para as flores, em desgosto, agora. Eu preferia as flores de plástico. Elas, ao menos, não morriam.

Publicado originalmente em Enlaces Literários 

Ler é um convite à vida

Se meu comportamento é, também (e talvez principalmente), o resultado de minhas leituras, então eu sou muitas coisas. Boas e ruins.

Li um artigo que falava justamente disso. É muito forte o que a leitura influi em quem verdadeiramente se dispõe a sentir e aprender a cada livro finalizado. Uma forma intensa de viver, afinal, são sempre mundos novos a que nos permitimos entrar, vidas novas a que nos permitimos usar como professores, ações e reações que nos fazem pensar “E se fosse comigo?”.

A leitura é uma forma de felicidade que só está ao alcance das mentes mais livres. Aquelas que são capazes de se desvestir de suas preocupações diárias para atravessar a barreia do conhecimento, da paixão, do deleite e adentrar aos mais sublimes mistérios.

Lembro até hoje de minhas primeiras Leituras. Essas mesmo, com L maiúsculo. Pedro Bandeira está muito presente em meu passado, com suas deliciosas mostras de lealdade, amizade, carinho. Tais leituras, da querida série Os Karas, foram essenciais para me moldar como uma leitora ávida que sou hoje. Uma leitora que busca sempre a melhor de cada personagem para usar em meu dia a dia, e ver que o pior de cada um também faz quem ele é (e algumas vezes quem eu sou). Desperta em nós um senso crítico interessante, por assim dizer. Um senso crítico que transcende a mesmice apregoada aos borbotões por mídias sociais.

Se está em dúvida, se tem desejos de adquirir conhecimento, não se limite a encontrar resposta em um único livro. Vá a todos os que estão ao seu alcance e melhore o seu senso crítico. Nessas ocasiões, não existe uma única verdade, mas aquela certeza de que aquilo que nós necessitamos a alcançaremos em dado momento.

E falando em Leituras importantes, eu não poderia deixar de citar Harry Potter. Afinal, sou dessa geração, mesmo que tenha iniciado com os filmes e meu primeiro livro dele tenha sico Cálice de Fogo (pois eu precisava saber a que ponto a coisa afundaria por Rabicho ter escapado). A importância de Harry Potter foi justamente o que a citação do artigo, aí em cima, fala: ele foi algo que eu necessitava alcançar no momento.

Pois cada fase de nossas vidas, assim como cada livro, é única. Às vezes precisamos de um romance leve, outras vezes de uma aventura regada de amizade sincera, outras um pouco de realidade para que nós valorizemos o que há de realmente bom em nossas vidas. Algumas vezes, há tudo isso em um único livro (culpa da maravilhosa verossimilhança!). E cabe a nós, leitores, vermos e enxergarmos que:

A leitura também oferece sentido à existência. Ler […] é um convite à vida.

2010051901432793.gif

 Fonte das citações desta postagem: Portal Raízes

A nova e a velha…ou não tão velha, assim

Na enorme maioria das vezes, mudar de casa é algo muito bom. Claro que tem toda uma nóia do que deve ser realmente mantido, do que precisa ser dispensado, do que deve ser melhorado. Mas não sem antes toda aquela coisa do encaixotamento, transporte, receio de dar algo errado no meio do caminho (vai que tem uma pedra, por exemplo?!).

Nem por isso não o fazemos. Mesmo que a comodidade impere muitas vezes.

Mudar de casa, para mim, foi primeiro pela estética. Depois pelo que havia no interior (confesso que os cômodos daqui são mais legais que os da outra casa). Agora, simplesmente por me sentir mais à vontade em algo mais apresentável. Algo que eu consiga dar nome e chamar de meu. Sem um adendo do tipo “Essa é a Fulana, filha do Sicrano?”, sabe? Aqui eu não preciso dizer que o “Linhas e Pensamentos é da Lívia”, porque você pode encontrar esta casa procurando pelas Linhas e Pensamentos, ou só pela Lívia, mesmo. Pois eu sou tanto o Linhas e Pensamentos, quanto este blog é eu.

E antes que você pense que essa postagem é uma auto-afirmação, ou coisa do gênero, digo que eu quis apenas apresentar a casa nova e o motivo da mudança.

Então, bem-vindos! A casa é nova, sim, e a roupagem também. Mas a dona… Ah, com essa você não precisa ficar cheia de dedos.

download

Revivendo das férias com o conto "Revivente"

Não culpo nada (férias, viagens) e nem ninguém (amigos, cão, família). Só a mim mesma.

A culpa é minha letargia, ou apenas a preguiça de se levantar do sofá, sacudir tudo para longe e me sentar aqui, de frente ao computador. Ou talvez seja as férias, mesmo.. Aqueles trinta dias em que tudo sai da rotina, até mesmo o tempo que separamos para sentar em frente ao computador.

Ao menos revisei. E voltei a escrever. Me inscrevi. Estarei para ser lançada (quando, só a editora sabe…). Logo mais serão dois contos publicados em antologias deliciosas, e quem sabe a abertura para o tão querido romance (que, por sinal, já está pronto).

Mas enquanto isso não vem, e para voltar com a corda toda (na verdade, aproveitando uma maravilhosa corda já em uso), deixo aqui um dos contos que escrevo numa outra casa, onde estou enlaçando com outros autores e adorando o resultado.

Do blog Enlaces Literários:

REVIVENTE
Fonte: Ghosts n’Ghoul

Muitas vezes se utiliza a premissa da Lei de Murphy de maneira a se desculpar o que não consegue fazer por incompetência ou até preguiça. Ouço muito sobre ela em meu trabalho, seja na pobre prostituta assassinada por um cliente eternamente anônimo, seja no playboy que decidiu comprar drogas num beco deserto, ou até na dona de casa que estacionou numa rua escura, longe do mercado. Mas confesso que, ultimamente, tenho aceitado que ela é realmente uma lei. Que algo ruim vai acontecer, independentemente do que façamos ou deixemos de fazer. Se for para dar errado, vai dar errado. E da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível.

Olhando para a sujeira que tinha se espalhado através do tapete caro, percebi que tudo naquela casa cheirava a dinheiro e proteção. Sofás caros, tapetes felpudos, janelas com grades e vidros grossos, travas eletrônicas, alarme de segurança de ponta, vigias em guaritas e um casal de cães de guarda. Se alguém desejasse entrar ali para roubar mesmo que fosse uma das bonitas rosas amarelas do jardim dos fundos, pertinho do muro, teria sérios problemas. Além disso, aquela era uma casa que todos na cidade conheciam. Mesmo que não tivesse nenhum meio de segurança, seria considerado no mínimo burrice passar por ali. Logo, quando o chamado veio no início da manhã, todos na delegacia arregalaram os olhos. E não houve um que não desejasse chorar aos pés do delegado para pedir aquele caso. Todos queriam saber quem era o burro de extrema coragem.

— Esse caso é nosso. — Inácio tinha se encostado à mesa que eu ocupava na delegacia, mais cedo, e seus lábios mostravam um enorme e presunçoso sorriso. — A chata da Lethur que pegou o último — e indicou com um gesto a mulher de cabelos claros presos num alto rabo de cavalo que conversava com um homem da mesma altura que ela.

— Acho engraçado como você se refere a eles como um ser só. E no feminino — falei, também rindo.

— É ela quem manda, então… — Inácio deu de ombros e tirou das minhas mãos os papéis que eu tentava organizar em cima da mesa. — E a Letícia ainda está puta com o caso que sobrou pra ela.

— Foi o do hospital, né?

— É… Um imbecil fez o favor de matar um médico. Se fosse proposital, ela talvez, e digo talvez, não acentuasse aquela eterna TPM.

— Eu ouvi o Arthur falar sobre ter mais merda debaixo do tapete do que o motorista queria confessar.

— Não — Inácio despachou meu comentário com um gesto de descaso. — Foi só um acidente, mesmo.

— Para desespero da vaca. O quê? — retorqui quando Inácio arregalou os olhos em surpresa. — Devo chamá-la de princesa da Disney só porque sou mulher?

— Claro que não — ele então sorriu. — Só acho interessante você descer ao meu nível de grosseria direcionada. Mas deixe isso aí e a Lethur também. Vamos logo falar com o delegado, senão o querido doutor Borges esquece que é nossa vez.

Obviamente teve um debate na sala do delegado conduzido por Letícia, mas no fim eu e Inácio acabamos pegando o caso e corremos para a casa naquele bairro nobre. Dois carros da polícia guardavam a entrada principal do casarão; deixei que Inácio tratasse de receber o relatório deles e segui para dentro da casa. E o cenário nada bonito me fez repensar se era realmente sorte nossa ter aceitado um caso que qualquer um na delegacia choraria para ter.

Gargantas cortadas, pulsos marcados pelas amarras, sangue que escorreu como se aquela sala fosse um barracão para abate. A sensação de déjà vu era forte, mesmo que cada cena de crime tivesse sua própria arte. O velho patriarca estava sentado na poltrona maior, numa posição que mostrava que ele havia observado o massacre à sua família. Nem mesmo as crianças haviam sido poupadas. Eram três com pouco mais de dez anos, perto do piano; dois adolescentes perto da cozinha; a mulher sentada no sofá ao lado do marido, segurando um bebê envolto numa manta cor-de-rosa… Com o cenho franzido, me aproximei. A manta não envolvia coisa alguma.

— Todos mortos — Inácio falou, entrando na sala. Xingou alto ao ver como estava o cômodo.

— Não todos. — Virei-me para olhá-lo e indiquei a manta vazia. — Está faltando a menina.

— Mas o policial disse que todos morreram. Sem exceção.

— Então onde está a bebê?

Inácio começou a procurar pela menina perdida nos cômodos do térreo enquanto eu subi as escadas. O andar superior estava impecável com seu extenso corredor carregado de fotografias, tanto penduradas nas paredes quanto sobre aparadores. Um escritório cheio de livros, quartos imensos, três banheiros, dois lavabos… O quarto da bebê ficava no fim do corredor, cuja porta possuía uma placa com o nome “Alícia”.

O cômodo ainda cheirava a sabonete infantil, com um perfume suave de talco e fraldas limpas. Fazia parte de nosso trabalho não se apegar a nada disso, mas foi impossível não sentir um início de revolta querer me queimar o peito. Vidas tiradas abruptamente. Mais uma vez, a sensação de déjà vu. Talvez pela crueldade, talvez pelo cheiro de talco. Não soube determinar, exatamente.

Havia uma janela que dava para a rua, na qual mosaicos coloridos formavam a imagem de Nossa Senhora. Abaixo dela tinha um baú, em cuja tampa estava um pedaço de papel cuidadosamente dobrado. Retirei o par de luvas do bolso da calça jeans e as coloquei antes de manusear a carta. A letra era redonda, bem feita. E as palavras, mesmo poucas, eram perturbadoras. E comecei, honestamente, a me preocupar com a sensação de déjà vu que insistia em se manter.

Todos nascem inocentes, mas se corrompem com facilidade.
Buscar a paz através do sangue é uma medida extrema, mas às vezes necessária. O velho usou muitas famílias, e quando foi a vez da minha, fui obrigado a usar a dele. Então justiça foi feita. Mesmo nos menores. Mesmo nas crianças ainda inocentes. Afinal, os inocentes se corrompem com facilidade.
E você? Também se corrompe?

Imaginei que a carta deixada em cima do baú demonstrava que eu precisava abri-lo, então o fiz devagar. Dentro dele havia fotos. Fotos de uma criança estranha àquela casa que eu investigava. Uma criança que eu pensei estar morta; que me disseram estar morta. Meus joelhos cederam e minhas mãos tremiam à medida que passava foto a foto, vendo como o menino tinha se desenvolvido nos últimos cinco anos. Até que eu alcancei a última foto. Alcancei o rosto sem vida do menino. Alcancei o responsável pelo que lhe havia acontecido. Foi quando senti o peso das palavras escritas na carta.

O som da porta atrás de mim me despertou do transe que eu havia entrado.

— Encontramos a menina no quarto da empregada. Infelizmente estava morta, também.

Era Inácio. Foi estranho ouvir sua voz. Parecia deturpada, não pertencente a ele.

— Sara? — ele chamou.

Quando as coisas vão dar errado, não importa o que a gente faça. Vão dar errado, e da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior – e talvez irremediável – dano possível. E tudo naquela casa, no assassinato da família de um traficante de armas, nas fotos dentro de um baú cor-de-rosa sob a proteção de Nossa Senhora, tinha levado para o apogeu do desastre.

— Foi você — murmurei.

— O quê?

— Foi você — repeti, e voltei para encarar Inácio ao mesmo tempo em que retirava a arma do coldre e a apontava para ele. — Foi você!

— Sara, se acalme. Do que você está falando? — ele perguntou, tão falsamente desorientado que meu dedo pesou no gatilho. Eu sabia que ele era falso. A foto mostrava claramente. Tinha sido ele. Depois de tanto tempo fingindo ser meu amigo, tinha sido ele!

— Da droga das suas mentiras! — gritei. — Mas era você o tempo todo. Era você, era… Você me ajudou! Você esteve ao meu lado quando eu o enterrei, quando não o reconheci, quando tudo o que sobrou era o chaveiro de plástico com o sangue dele, e agora…

— Sara, por favor — ele pediu, ousando se aproximar de mim, e eu reagi prontamente.

— Não se mexa, seu desgraçado! Você o matou. Foi você…

Os pedaços que eu havia juntado nos últimos anos se desfizeram novamente, e para que Inácio parasse de tentar mentir, joguei a foto aos pés dele. A foto em que ele se divertia com o corpo sem vida do meu filho.

— Confessa. Anda, confessa!

— Sara, não fui eu, você sabe que não fui eu. Isso é uma montagem, precisa acreditar em mim!

— Olha a data da foto. — Voltei para o baú e peguei as outras fotos, atirando-as nele. — Olha a droga das datas! Sempre nas suas férias, sempre nos feriados. Sempre que você estava fora da cidade, Inácio. Confessa!

Meu dedo pesou ainda mais e o revólver disparou sem que eu me desse conta. Por ter sido pego desprevenido e estar muito perto, Inácio caiu, seu ombro esquerdo banhando-se de sangue de imediato.

— Sara, pelo amor de Deus! Olhe direito, é montagem e…

— Não! — Depois do primeiro tiro, foi mais fácil dar o segundo na coxa dele. Ouvi-lo gritar de dor acabou comigo, mas também me deu um prazer que nunca senti antes. Era justiça. Era sangue sendo pago com sangue! Sabia que precisava terminar aquilo logo, antes que os policiais que estavam no andar de baixo nos alcançassem. Caso isso acontecesse, eu não teria minha justiça. — Não é montagem, você sabe disso.

Então o desespero desapareceu dos olhos de Inácio, dando lugar ao deboche, e um esgar de lábios tomou sua expressão. Enquanto a postura defensiva também o abandonava, o rosto dele começou a mudar. Barba cresceu no rosto liso, o nariz se alargou e os cabelos escuros ficaram de um loiro sujo.

— Sim, eu o matei. — A voz era rouca e baixa, carregada de malícia e crueldade. — E vou continuar a matá-lo repetidas vezes, pois é isso que você quer. É isso que você busca!

Meus olhos foram para as fotos caídas no chão e vi ali o mesmo rosto que estava na minha frente misturar-se às fotos de Inácio.

O que eu estava vivendo não era déjà vu. Era simplesmente algo que eu tinha escolhido vivenciar. Repetidamente. Mas mesmo que fosse apenas em minha mente, não deixava de ser verdade.

— Não! Não! — Meu grito ecoou repetidas vezes enquanto eu lhe descarregava a arma, mas dessa vez o assassino continuava a se aproximar de mim, seu olhar preso no meu, não importando que os tiros lhe acertassem nas pernas, no peito, no rosto…

E então tudo se transformou em escuridão.

Quando ouvi a voz de Inácio novamente, eu estava deitada. As paredes brancas voltaram ao meu campo de visão; paredes de um hospital. Tentei mexer os braços, porém eles estavam presos. Era para minha própria segurança, como a enfermeira havia dito tantas e tantas vezes.

— Como ela está hoje?

— Teve outro surto, seu Inácio — disse o médico.

— Por que isso está acontecendo mesmo depois de tantos meses? — Inácio retorquiu, e havia tanto pesar na voz dele que eu desejei virar meu rosto para olhá-lo, dizer que estava tudo bem. Que não haviam sido os surtos que me colocaram naquele hospital psiquiátrico, mas encontrar no assassino do traficante de armas o mesmo assassino sanguinário de meu pequeno Tiago.

— O trauma foi muito grande e, como o senhor sabe, cada mente responde à tragédia a sua maneira. Além disso, com o assassino do Tiago ainda solto, ela revive aquele dia como se fosse capaz de ter feito o que era preciso. Tentando arrumar uma possível falha.

A porta do quarto abriu um pouco mais, e quando percebi que Inácio estava ao meu lado, sem sinal do médico, abri os olhos para ele. A aparência dele estava horrível. Olheiras, barba por fazer, rosto encovado. Não havia mais tipoia no braço; o tiro que eu tinha lhe dado, meses atrás, havia curado. Mas minha culpa continuava tão forte quanto naquela época em que ousei duvidar de meu amigo.

— Você precisa se cuidar — sussurrei; minha garganta estava horrivelmente seca.

— Eu o peguei.

Sustei a respiração por alguns segundos. Então alívio, dor, desespero, alegria se misturaram em mim num luto que durava uma eternidade e que se repetia dia após dia. Inácio soltou as amarras de meus pulsos e me abraçou. Retribuí o gesto com tanta força, que não sabia que era capaz de tanto. O peso do mundo saiu de meus ombros, e apenas o pesar continuava em meu peito, que tentava manter minha alma despedaçada onde devia, mas não estava. Ela sentia ganas de se livrar de tudo aquilo.

— Obrigada — murmurei. Dei um leve beijo nos lábios de meu tão amado amigo e o olhei com todo o amor que ainda continuava vivo dentro de mim.

— Você precisa descansar.

— Eu vou. Finalmente, eu vou. Obrigada, Inácio.

Ele sorriu fracamente e saiu do quarto. Antes que ele fechasse a porta atrás de si, eu o chamei.

— Eu amo você. Sabe disso, não sabe?

— Claro que sei, Sara. — O sorriso dele melhorou um pouco e vi a vitalidade voltar naquele rosto cansado. — Espero você aqui fora.

Assim que ele fechou a porta, eu olhei para meus pulsos livres. Depois olhei o corredor do hospital através da janela de vidro; nenhuma enfermeira, nenhum médico. Libertada e sem testemunhas para impedir o que eu queria fazer, tirei as outras amarras e saí da cama. O chão do hospital era gelado, e fazia tanto tempo que eu não ficava de pé que quase caí, batendo o cotovelo na cama antes de me segurar. Senti a dor, mas foi algo insignificante. Afinal, um moribundo não sente dor. Sem muita pressa, retirei os lençóis do colchão e fui para o banheiro.

Meus movimentos fluíram com facilidade, amarrando os lençóis ao cano do chuveiro como seu eu fosse uma expert. Talvez eu o fosse, já que tinha passado este momento repetidas vezes na minha mente. Com tudo pronto, tive apenas um lapso de generosidade. Então, voltei para o armário da pia, peguei a pasta de dente e escrevi no espelho. Inácio precisaria ler aquilo. De maneira nenhuma ele deveria se sentir culpado pelo que apenas eu era capaz de escolher. E as palavras que deixei para Inácio – de que eu e Tiago o esperaríamos e o encontraríamos do outro lado, quando fosse a hora certa – foi a última coisa que vi antes que a morte me tomasse. Pela última vez.

Não é top-5, mas é da Nora

Romance nunca foi uma de minhas leituras top-5. Eu vou para o romance, aquele clichê, rosa-chiclete, moço-bonitão-encontra-mulher-independente/fragilizada, quando eu quero muito desanuviar ou preencher uns minutos de sem nada para fazer. E, não, não desmereço em nada os romances. E os exalto quando o romance aparece como parte da história, e não ela toda. Talvez seja por isso que eu adore ler Priscila Louredo.

Mas não foi sobre a Priscila que eu quero falar. É sobre outra. Ela. A dita “Rainha dos Romances”, também conhecida como Norinha.

Nora  Roberts é uma das minhas preferidas em preenchimento de tempo e desanuviamento. Adoro Trilogia da Magia, Trilogia da Fraternidade (embora o terceiro poderia ter um fim mais arranjado, em minha opinião), Irmãos MacKade e entre outros livros que ela escreveu atualmente. Sim, atualmente. Porque nos últimos dias fui me enredar pelo Legado dos Donovan. E devo dizer que os três primeiros foram aprovados. Já o quarto livro…

Bem, vamos lá à explicação.

Antes de mais nada, a saga O Legado dos Donovan fala de um legado hereditário de magia que a família Donovan (dã!) possui, ligado diretamente ao herói mitológico irlandês Finn McCool. Mas o legal é que é um livro de história contemporânea, e foi bem interessante ver os personagens lidando com seus poderes em pleno século XX e vendo como a nossa sociedade nada tolerante lida com isso.

O primeiro livro, lançando em 1992, tem o título de “Cativado”, e fala de uma mulher independente, segura de si tanto pessoal quanto magicamente, e que vê num roteirista de filme de fantasia e horror seu amor para toda vida. O desenrolar deles é aceitável, e você se diverte vendo a bela Morgana dando indícios mais do que fortes de que é uma feiticeira sim, porém o belo Nash Kirkland vê suas palavras apenas como um aproveitamento de rótulo que o pessoal da Califórnia deu a ela.

Já o segundo, Fascinado, foca no praticamente irresistível (palavras minha, não apenas da autora) Sebastian, e  no poder dele, que é de ler mentes e conseguir ver e sentir, através de objetos, onde e como estão seus donos. Por ter um enredo policial, esse me fascinou mais. E muitas vezes eu vi a personagem Mel personificada como a Sonya Cross, de The Bridge.

O terceiro, Encantado, fala de Anastasia (ou Ana) e seu poder quase torturante que é o de empatia. Imagina você conseguir sentir tudo o que outra pessoa sente: tanto emocional, quanto física e mentalmente? Imaginem a loucura que seria se você não se fechasse para os outros?! E Anastasia também sofreu ao dizer quem era para o homem que amava. Esse livro foi bem sensível, em minha opinião.

Quanto ao quarto livro, Enfeitiçado… Bem, eu não o terminei. Não consegui. Porque o problema não foi o interesse quase maluco que os personagens já apresentam ao menor sinal de olhar de esguelha e encontro sem-noção. O problema foi o Liam (filho de Finn), que é um metamorfo, transformar-se em lobo e agir feito um cachorro sem-dono e, de quebra, ver a bela Rowan se despir na frente dele sem ela saber que ali, em seu quarto, não está um animal que ela confia, mas um homem que ela não tem intimidade nenhuma. Fui correndo nas páginas, meio atropelando a leitura, porque queria ver como ela reagiria quando descobrisse que um homem, que ela não autorizou, a tivesse visto nua. E qual não foi minha frustração quando ela não falou NADA! Não se irritou, não mandou o cara ir se tratar, não falou que voyerismo não era sua praia. Porque, gente, pelamordedeus, o cara invadiu sua intimidade sem ela permitir!

Desapega, gente, desapega!

Esses livros mais antigos da Nora pecam nisso, para mim. Essa aceitação de que a mulher tem que baixar a cabeça, ser sempre a portadora de um erro que muitas vezes sequer é dela, aceitar que um homem pode tratá-la como qualquer coisa só porque é homem e está apaixonado. Fora o fato de que uma mulher nunca pode dar as costas para um homem sem que ele lhe agarre o braço em sequência.

Como eu disse, os três primeiros foram aceitáveis para mim. Embora que, quando os dois homens de Cativado e Encantado descobriram o poder das outras mulheres, eles se sentiram traídos por não terem sabido logo de cara. Aloou! Alguém aí sai contando seus segredos para o primeiro ser humano que lhe sorri? Claro que não! E em Fascinado, quando é a Mel quem faz algo que o Sebastian desgosta, adivinha quem aparece feito cãozinho sem dono pedindo milhões de desculpas? Sim, a mulher. Afinal, como ela se acha no direito de agir independente, em uma situação que precisou pensar rapidamente?

Por isso que gosto da Nora atual. Pós anos 2000. Porque nessa época, ela pegou essa chatice de ser feminista e a considerou em 80% do tempo. Mas ainda tem muito o que melhorar. Só que como não é nenhuma literatura tipo Virgínia Woolf ou Jane Austen, a gente vai aceitando. Afinal, é só pra matar o tempo e perceber como precisamos mudar esses rótulos degradantes de nossa sociedade.

[CONTO] A morte que me entra nas brancas

 

Fonte: Google Imagens

Morrer não me é mais novidade. Já aconteceu tantas vezes, que parei de contar. No entanto, até mesmo na rotina há seus altos e baixos. Logo, se você me perguntasse quais mortes eu me lembro à perfeição, eu conseguiria te falar de algumas.

Principio do clichê de que a primeira vez a gente nunca esquece. E a primeira vez foi ao nascer. Foi naqueles segundos contados, na hora marcada, no peso medido, no tamanho passado. Eu chorei e fiz chorar, mordi e fiz sorrir. Num mundo embaçado, onde só o cheiro metálico e estéril e o calor de um corpo me eram percebidos, foi estranho morrer com a música suave que ela insistia em entoar. Mas eu me apeguei, me derreti, me deixei levar naquelas singelas palavras que, mesmo sem entender, eram as mais bonitas que uma criança poderia ouvir. Até que só restou o silêncio cortado por um choro convulsivo de mãe e a típica frase dos médicos “Fizemos o que podíamos”.

Então eu morri de novo. E dessa vez foi em meio a risos cruéis, a palavras de malícia, num cinzento corredor pintado de amarelo desbotado e decorado com cartazes de arco-íris e flores que tentavam retratar uma primavera sangrenta de Segunda Guerra. Preferia ter morrido como da primeira vez, quando vozes suaves e palavras bonitas eram ditas sussurradas. E não no meio de uma noite de chuva, com relâmpagos que mal mostravam o rosto de quem me chutava, martelava, cuspia, maldizia.

Na última vez que morri, foi somente um disparo. Um estalido tão imediato quanto o calor dolorido que me atravessou o peito, e me deixou sem ar por alguns segundos. Sequer senti o chão duro da calçada ou o fedor da enorme lixeira que avizinhava o restaurante italiano.

Fonte: Google Imagens

Agora estou prestes a morrer de novo. Dessa vez sobre uma pedra lisa, com cantos suaves sendo entoados à lua, às fadas, ao demônio, a uma divindade que eu mal sabia existir, mas que para ele é uma justificativa para sua mente insana que beira à psicopatia. Dessa vez eu morro nua, sob efeito de algo que me deu para beber, e sei que, quando ele me navalhar, não sentirei nada.

E quando a página virar, não existirei mais. E precisarei encontrar um outro livro para que possa morrer mais uma vez. Até lá, somente existirá as páginas em branco que a realidade insiste em colocar no meio do caminho de uma rotina cinzenta e corrida.