(B)Analisando o texto

Vamos fazer uma brincadeira. Bem simples, mesmo. Tipo o que a Bela Gil faz no programa de culinária alternativa que ela tem no GNT.

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Olha só a frase:

Apesar de estar morto, estava inteiramente saudável. 

E eu te digo: de que vale estar saudável, se está morto? Digo isso porque o termo “Apesar” desmerece o que virá à frente. Não que o fato de estar morto seja algo indigno de atenção. Merece atenção, sim, pois se está morto, deixou alguém vivo para trás – o que traz um N de ramificações emocionais, psicológicas e etc. Mas, ainda assim, o estar saudável ficou totalmente desmerecido. É questão de gramática. Sintaxe. Semântica. Linguagem. Concorda comigo? Sabia que sim.

Agora vamos ao segundo passo depois dessa pequena explicação. Vamos dar uma de Bela Gil e partir para as substituições.

Apesar dos homens serem vítimas de mais de 80% dos homicídios no Brasil, a violência contra a mulher preocupa[…]

Viu aonde quero chegar? No desmerecimento? Pois é… Sabia que sim.

(A quem quiser, o texto a que me refiro na segunda frase é de uma pessoa que se tornou mestre em filosofia – e parece que estudou errado – link)

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O trabalhar com as palavras

critic-ratatouille2017 está sendo um ano de projetos, para mim. Projetos para as vidas pessoal e profissional. Projetos que me satisfazem a mente, que me completam, me fazem suspirar; que me atraem à medida que vou os conhecendo a fundo. Que me deixam apaixonada, ouso dizer.

Um dos projetos é, e sempre será, o Linhas e Pensamentos. Mesmo que eu fique tempos sem passar por aqui, quando retorno é como se não tivesse deixado nem por um instante. Porque o L&P é onde me mostro. Mas tem tanta coisa boa e bonita a se fazer nos bastidores. Tantos projetos…

Entre esses projetos, está a minha capacitação e aperfeiçoamento com Revisão. Trabalho com isso há algum tempo, mas nunca me virei totalmente para o assunto, nunca parei e falei: OK, disso eu sei totalmente o que estou falando. Apesar de dizer que sabemos de tudo sobre determinado assunto ser um pretensiosismo de doer do dedão do pé até o fio de cabelo que se vai com o vento. Mas mesmo assim, mesmo que ousamos dizer que sabemos muito, muito e muito sobre algo, sempre tem aquela vozinha que nos invoca a estudar mais.

spilled-wordsIsso – a vontade de trabalhar com Revisão, focar-me na teoria da literatura – é que primeiramente me fez ler livros com uma perspectiva diferente. Leio, sim, para meu inteiro prazer. Mas não há revisor ou leitor com conhecimento bastante em teoria que fique sem analisar uma coisa ou outra. E essa minha paixão literária, em procurar, esmiuçar, levantar o tapete para procurar as sujeiras disfarçadas, é o que me faz estudar cada vez mais literatura. E entre a teoria, está a Revisão. E não apenas Revisão por revisão, mas o estudo do texto, o que o deixa melhor, o que o atrapalha, o que (em minha opinião) pode melhorá-lo. E sempre, para todas esses argumentos, estão elas: AS PALAVRAS.

Então, apenas para demonstrar o que estou falando, deixo aqui um pequeno trecho do livro que estou lendo. Um pouquinho de A Tarefa do Crítico (Ed. Unesp. 2010):

Se por um lado a análise literária possui
uma vocação crítica importante,
por outro lado ela também possui uma dimensão utópica:
“Lidar com a sensação e a forma das palavras

significa recusar-se a tratá-las de forma puramente instrumental,
e portanto recusar um mundo no qual
a linguagem é desgastada pelo comércio
e pela burocracia até ficar tênue no papel”

Terry Eagleton

hb5kkPor isso eu digo: revisar é muito mais do que corrigir coerência, coesão, ortografia. É fazer com que as palavras não se desgastem, não se percam, não se tornem um complexo desagradável e obediente a uma norma que pode tanto maravilhar quanto entristecer um leitor e um escritor. Muito pelo contrário. É fazer com que elas sejam tão reais quanto a emoção que o leitor sente ao lê-las; fazer com que elas saiam do papel e se misturem ao seu redor e transformando-o em algo sempre melhor. Trabalhar com palavras é pegar as melhores e piores sensações; e então colocá-las de tal maneira que o leitor não sabe quem mais é, e se transforma naquilo que deseje (ou não) ser.

O tempo e o Tempo

A gente adora culpar o tempo. E em muitas vezes até lhe damos tamanha importância que o tratamos assim, Tempo, com um supervalorizado tê maiúsculo. Mas eu sempre preferi tempo, mesmo, como uma tentativa de mostrar a ele que quem manda sou eu. O problema é que, infelizmente, eu não tenho tanta autoridade assim, e o Tempo sempre mostra aquele sorrisinho sarcástico que me faz querer lhe estapear. Só que Tempo não tem rosto nem corpo, assim como o tempo. 
 

Hoje é um dia especial. Daqueles em que o tempo passa despercebido, enquanto o Tempo insiste em manter seu sorriso, seu poder e força. Neste caso, ele tem mesmo. E talvez seja justamente por isso a nossa valorização para com o Tempo. Ele que cura as feridas e também fortalece amores sinceros, mandando embora medos e futilidades da vida que não conseguimos enxergar. Pois passaram-se três anos desde que minha sobrinha nasceu, e ainda lembro daquele dia como se fosse ontem. E percebo como o amor que sinto por ela, e que eu nem sabia que um dia seria capaz de sentir, só aumenta.

E para perpetuar ainda mais aquele 18 de fevereiro, e ainda sentindo o frescor que se manteve até hoje, deixo aqui meu amor de 2014 (e além!) em letras:

A carinha ainda está inchada, coisa de bebês com poucas horas de vinda ao mundo.
Os olhos mal enxergam o que está à sua frente, mal distingue os sons e chora para voltar ao aconchego da barriga da mãe. No entanto, tudo o que pode fazer é manter a carinha de brava que apenas nós conseguimos ver e que lembra muito a da mamãe Thaís, o punho erguido como se desafiasse e um amor que chega a transbordar.
Não importa se são apenas 3,7 kg com 48 cm. Parece pesar toda uma vida, atingindo um tamanho infinito que vem, força delicadamente e fica sem nem fazer estrago, enchendo tudo o que é ruim e difícil com beleza, paz e um amor que ninguém sabe de onde vem. Só se sabe que está lá. Completando. Emocionando. Fazendo-nos desejar sermos melhores em tudo.
Dádiva de nossas vidas, amor eterno e paixão que veio se alojando vagarosamente até criar raízes tão profundas que, se forem arrancadas, nos matarão. E, isso, tendo apenas nove meses de útero e três horas de mundo.

Melissa, seja bem-vinda! Sua tia Lívia te ama.

Citações #21: C. S. Lewis

Algumas citações são tão precisas em determinadas fases de nossas vidas, que é até espantoso (me pergunto se é exatamente por isso que muitas pessoas acreditam em horóscopo e essa coisa toda de mapa astral). E enquanto vou produzindo a sequência de um romance (sendo que o primeiro ainda está em trâmites de seleção), me deparo com C. S. Lewis. E muito do que estou escrevendo (e até vivendo, vale dizer) pode se resumir a essas palavras tão simples e verdadeiras:

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Da violência aceitável e da que nos violenta

Antes de mais nada, todo tipo de violência nos violentaVocê pode até pensar que não. Que é imune a determinadas coisas. A determinadas situações. Mas pare só um momentinho nessa sua vida de olhos forçadamente vendados e olhe aquele cantinho sombrio comigo.

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Falemos de “ponto de vista”. Ele é algo realmente interessante. Pois dependendo dele, as pessoas aprovam, aceitam, compreendem e até justificam – ou não – determinadas situações. Por exemplo: você teve seu celular roubado enquanto caminhava todo ocupado, em sua hora de almoço. Por sorte, havia um policial ali perto que viu tudo. Ele vai atrás do ladrão, pega seu celular de volta e dá umas cacetadas nele para o ladrão “aprender” – da mesma maneira que seus pais te batiam com chinelo quando você fazia algo muito errado. Você pode não gostar, mas não vai pedir para ele não “corrigir” aquela pessoa. Afinal, como essa pessoa ousa te roubar, quando você trabalhou arduamente para pagar cada prestação do celular? Ela precisa ser corrigida sim. E um e outro esporro não vai matá-la.

don__t_wanna_see_that_gif_by_shock777-d5ibku6Então, apenas com um e outro ponto no corpo dolorido, mas sem ter realmente marcas roxas ou qualquer lesão ou sinal de agressividade, o ladrão é encaminhado para a delegacia. E você segue sua vida, já esquecendo do que aconteceu.

Essa situação não te afetou. Afinal, você foi a vítima. Você foi o real prejudicado nisso tudo. Por sorte, e apenas por isso, tinha um policial que fez o trabalho dele, honrando os impostos altíssimos que você paga (e que, a gente sabe, não são tão bem empregados como deveriam – não os policiais, os impostos – embora os policiais também não recebam o que deveriam).

Digo isso apenas para pintar uma situação de ponto de vista. Pois a do ladrão seria diferente. Ele poderia ser uma pessoa desesperada que deve dinheiro para alguém. Poderia ser um jovem que, pela má distribuição de renda, não conheceu uma vida mais digna e trabalha para uma rede de assaltantes. Essa pessoa culparia você, abocanhador de grande parte da renda, em estar esfregando na cara dele a miséria que ele é obrigado a viver para que você tenha um celular de última geração.

No entanto, eu não quero falar de política social (ou talvez de certo modo queira, mas, whatever). O que quero falar é de The Walkig Dead. Da violência chocante que foi o episódio de estreia da sétima temporada. Daquelas duas mortes que, para nós, telespectadores, foram gratuitas. Uma mostra de poder, da violência que um psicopata pode gerar.

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Jeffrey Dean Morgan como Negan (reprodução)

E ainda pelo ponto de vista de quem assiste a série desde a primeira temporada digo que:

  1. A primeira morte foi horrível. Mas me deu certo alívio. Afinal, não era um personagem que eu acompanhava desde a primeira temporada. Aceitei. Apesar de chocada com a violência, respirei.
  2. Mas aí me veio a segunda morte. A morte que me deu taquicardia, que me deixou sem respirar por alguns segundos. Pois a gente tem essa empatia com os personagens. É comum. Fazemos isso com personagens de livros, de séries televisivas, de novelas (quem nunca desejou que determinado personagem morresse logo, que atire a primeira pedra!). Essa segunda morte não me sai da cabeça até hoje.

Está vendo a coisa do ponto de vista? De eu (assim como muitos telespectadores) aceitar e compreender a primeira morte? Afinal, era apenas um personagem recente. E se alguém precisasse morrer, que fosse alguém que eu, como telespectadora, tivesse menos empatia. Mas a segunda morte… Desnecessária? Ultrajante? Gratuita?

Eu não tenho formação bastante para entender a necessidade estranha que o ser humano possui sobre a violência. Talvez seja algo enraizado em nosso DNA de milhares de anos atrás, quando era matar ou ser morto, comer ou ser comido. Ou talvez seja ago contemporâneo que tenha aflorado esse lado psicótico de cada um. Ou quiçá uma sociedade permissiva com pequenos grupos, e isso já nos deixou acostumados a aceitar a violência com ladrões, homicidas, pessoas que não conhecemos.

Não gosto de pensar muito nessa “violência permitida”. Mas é impossível. Então hoje fui pesquisar um pouquinho sobre a necessidade da violência. E achei esse artigo no Jornal Tornado Online, de Portugal:

O horror à violência, hoje, é parte dessa ideologia liberal da tolerância. Começa-se a criticar a violência e no final advoga-se a tortura. (Guantánamo e exemplos próximos são uma consequência necessária desse aparente liberalismo antiviolência) – diz-nos sem peias Slavoj Žižek. […]  Hoje vivemos numa mundo violento, com fórmulas antagónicas e paradoxais de violência. Mas ainda não há violência suficiente para operar uma mudança que nos ajude. Porque somos pequenos e agressivos. Não somos grandes e violentos. Essa grandeza é Humana – uma aprendizagem dura. E essa violência (muito para lá da violentação física, entenda-se) é a que potencialmente nos prepare para coisas duras (e violentas) como a paz entre opostos.

Então aceitamos a violência como meio de paz. E ainda falando de TWD: aceitamos a primeira morte por ela ser inevitável. E foi bom não ser alguém que já se criou algum vínculo empático. Aceitaríamos a “paz” que viria depois dessa morte. Mas então veio a segunda… E não sei se estaríamos mais tão dispostos a aceitar a chamada “paz”. Eu, por exemplo, se não fosse pela segunda morte, não estaria agora desejando que Shiva comesse o Negan. Devagar. Pedaço a pedaço. E eu compreendo, aceito e justifico essa violência. Afinal de contas, é apenas um personagem. Mesmo que seja com um personagem que retrata, infelizmente, muita coisa horrível e torturante de nossa sociedade.

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Ezequiel e a tigresa Shiva (reprodução)

O patamar do principiante

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Eu ainda me sinto principiante. Afinal, minhas conquistas não foram tão grandes assim quando eu paro e comparo aos outros. Então, às vezes me pego a pensar em que cargas d’água de patamar estou me colocando quando me chamo “praticante de atividade literária”, “a escritora”, “a romancista”. É uma coisa de neófitos, mesmo. Aqueles que se veem num mundo novo e se perguntam: “E agora? Me enquadro no mesmo patamar que Saramago, Drummond, Machado, Rowling? Ou vou acabar ficando mesmo entre aqueles nomes que foram vistos apenas uma vez e, então, esquecidos?”

Mas aí eu me lembro que também me coloquei no patamar de Rowling. Que não é Kathleen, mas apena Joanne. Se tornou J. K. só depois de muito suor. E não é disto – suor, transpiração! – de que se trata a escrita? Picasso já falava isso; de que a inspiração de uma obra prima poderia até vir, mas não se sabia quando ou como – o importante era que a inspiração o encontrasse trabalhando.

Inspiração todos tempos, desde que permitamos abrir nosso mundo, nossa mente – e várias vezes -, nossa alma. Para mim, escrever se trata disso. De abrir minha alma em um papel e, então, usar tudo o que me cerca para tornar o abstrato em algo que se possa entender.

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Talvez eu seja mesmo uma escritora. Recém-batizada com seus poucos contos publicados, é verdade. Mas se eu estou romanceando em palavras, se estou transformando e criando um mundo inteiramente meu e que alcançará a outros – mesmo que poucos, a princípio -, então é o que sou. Escritora. Principiante. Aspirante.

Então, sim. Sou Machado. Sou Rowling. Mas, acima de tudo, sou eu mesma. E isso é muito bom.