[Série] Kurt Seyit ve Sura

Já diz um dos maiores ditados da internet: A vida é muito curta para perder tempo lendo livros ruins. Por isso mesmo, quando vejo algum amigo gostando muito de um livro ou indicando com veemência, vou logo colocando na estante. Pois é, eu tenho essa confiança. Prefiro arriscar com o quase certo do que tentar com uma dúvida e me encrespar. E com séries não é diferente. E o que é melhor ainda, é que grande parte (se não todos) de meus amigos tem o mesmo gosto literário que eu. Logo: A vida (também) é muito curta para perder tempo assistindo a séries ruins/cansativas. Portanto, atenha-se no básico dos gostos parecidos com os seus.

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Vlademir, Kurt Seyit, Tatya, Celil, Misa e Petro (reprodução)

Quando vi uma amiga morrendo de amores (quase literalmente) pela série turca Kurt Seyit ve Sura, fui logo colocando na minha lista da Netflix. E comecei a ver depois de uma maratona básica da primeira temporada de Sense8 (porque depois da segunda, uma teoria básica de conspiração precisava de fundamento – mas isso é outra história).

O primeiro episódio me fisgou. Não porque o ator que faz Kurt Seyit seja uma maravilha a ser contemplada (na verdade, todo o elenco principal é de encher os olhos). Mas porque, além de adorar um drama romântico, eu já senti uma considerável empatia pelos personagens. E essa empatia foi o que me fez ser uma imitação de Sura: uma chorona em todos os episódios.

11899678_130732450605030_2144434560_nMas nem só de choro vive uma história dramática, venhamos e convenhamos. Precisamos de um bom fundo, cheio de idas e vindas, com camas-de-gato sendo armadas, um ar cômico que te deixa leve, tensões pesadas com enredos maquiavélicos. Kurt Seyit ve Sura tem tudo isso. E pouco antes da metade dos 46 episódios, decidi que tem até demais.

A questão é a seguinte: o grande drama de Seyit e Sura é, obviamente (e como diz a sinopse), a separação imposta pelo destino assim como os constantes problemas que enfrentam para ficarem juntos. Temos tanto o fim da Primeira Guerra como a guerra civil na Rússia (e suas consequências) – Seyit serve ao exército do czar -, além da família turca e tradicional (aka pai xenófobo) de Seyit.

E se isso não fosse problema, há ainda os antagonistas Petro (que não me enganou nem mesmo nos minutos iniciais) e a Baronesa Lola. Eles também fazem de tudo para separarem Seyit e Sura. Na verdade, é incrível como tem gente mal-amada nessa série, o que aumenta quando eles precisam deixar a Crimeia para Seyit e Celil não morrerem nas mãos dos rebeldes por terem servido ao czar (uma pausa para desejar morte à bruxa Ayse em Istambul, por favor. Obrigada). E talvez esse seja o problema todo, para mim. Fico me sentindo no meio de um drama mexicano na novela das nove da Globo, onde tudo se divide entre os bonzinhos e os invejosos do inferno.

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Família Eminof

Confesso que depois da segunda dezena de episódios, comecei a passar pra frente naquela barrinha de status. E enquanto chegava no trigésimo, fui obrigada a buscar spoilers. E isso foi muito bom, porque me deu sustentação para aguentar o que vinha a seguir. Claro que ainda me senti como um rio ambulante nas cenas que envolveram Sura e Seyit. E no episódio 45, foi o pior rio de lágrimas do século!

No entanto, após metade do seriado, o que me interessou mesmo mesmo mesmo (e principalmente depois dos spoilers) foi querer descobrir o que iria acontecer ao Petro filho-da-puta e ao Celil (me apaixonei pelo personagem também desde os primeiros minutos). Foram eles – além do masoquismo doentio em acompanhar a vida de Sura e Seyit – que também me seguraram na série (afinal, eu não queria morrer apenas de sofrimento até o último episódio).

O problema da série, para mim, não foi o drama a la mexicana, pois eu gosto mesmo! Mas um drama que depois de desenvolvido fica estagnado na mesmice, naquele dia a dia que não alavanca nada, só trazendo mais sofrimento, a gente sabendo previamente qual seria o próximo passo do Petro – porque depois de um tempo todos ficaram muito previsíveis (até hoje não sei como consegui terminar em tempo curto o livro A Sorte de Morgan, que também relata o dia a dia da Austrália colônia). Essa quase lenga-lenga só derrama mais lágrimas de frustração do que de emoção. A não ser quando vejo Seyit chorando. Porque…olha…é muita beleza carregando tanta tristeza, gente, e eu não consigo manter meu iceberg intacto.

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Vale ou não vale a pena insistir? Rsrs

No fim, eu vou colocar o joinha na Netflix pra essa série. Ou até 4 estrelas, se essa ainda fosse a classificação. Afinal, sou apaixonada por pessoas. E a evolução de Sura e Seyit foi tamanha que não me espantou em nada descobrir, depois, que a série foi baseada num casal real – e também que fim teve o casal no seriado. E se você, assim como eu, gosta de um bom drama (mesmo que o dia a dia dos personagens seja o real foco depois que eles vão para Istambul), eu indico. Mas prepare a caixinha de lenços. Vai precisar. Mesmo.

Ah, só um parênteses para Seyit – me irrita muito ele ser alguém orgulhoso. E como esse orgulho às vezes se sobrepõe ao amor que ele sente por Sura. Ele pode ter saído do exército depois que precisou fugir da Criméia, mas o exército nunca saiu dele. E esse é um dos problemas, também, que fica no caminho da felicidade dele com Sura. Sendo clichê? O cara tem Síndrome do Herói. Só pode! Já a Sura… Bem, ela estará como uma das melhores personagens que já conheci. Principalmente nos episódios pós-40.

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E, sim, ainda vou continuar falando de séries televisivas na categoria Leituras. Me julguem!

Não, não julguem! Eu expliquei aqui o motivo. Bem no finalzinho. Mas expliquei. ♥

Cuidado com o que é velho

“Não acredite no Velho…ele mente!” – eis o primeiro conselho que você tem ao abrir o livro Cira e o Velho, do Walter Tierno (uma dedicatória que vem juntamente de um mimo da Cira). E este conselho te persegue o livro inteiro, como um prenúncio de clímax (ou, para alguns, até um anticlímax – mas é de gosto).

Fazia um tempo que eu queria ler este livro, tanto por se tratar de literatura que carrega nosso folclore, quanto por (e talvez o mais significativo) ter tido duas indicações de amigas que confio no gosto literário. Assim que fiz a propagandazinha básica de cada dia, com fotos da aquisição (e do mimo), elas já me disseram que eu iria adorar. E, para provar a confiança, não mentiram para mim.

O livro tem uma fluidez e agilidade gostosas. Consegui lê-lo, sem sacrifício algum, em três sentadas. Foram três por falta de tempo, mesmo, pois num período bom, eu conseguiria tê-lo lido em um domingo, sentadinha na minha varanda, ao lado do cachorro (minha maneira preferida de me perder em um mundo de páginas).

A Cira não nos é apresentada logo de início. Se não me engano, ela nos dá a graça de sua presença lá pela sexta ou sétima dezena de páginas. Antes disso, nós conhecemos o Velho. Um paulista dos mais cruéis que a está perseguindo a pedido de Maria Caninana, irmã do também cobra, Norato.

Toda a narrativa é desenrolada através dessa perseguição do Velho pela Cira, filha de Norato, e ela o perseguindo de volta. A mistura da nossa mitologia, do nosso às vezes tão (injustamente) subestimado folclore, dá um encanto na história que me fez sorrir em alguns pontos. Tierno pegou essas tão queridas criaturas e as colocou num livro só, e de uma maneira que não deu nenhuma sensação caleidoscópica, muito pelo contrário. Animais-reis, índios, criaturas mitológicas, escravos dos Palmares… Se alguma vez pisou nessas terras (literais ou literárias), Tierno pegou emprestado para que tanto a Cira quanto o Velho tivessem seu contato com essa riqueza que nos é passada de maneira deliciosa numa mistura histórica e moderna.

E o final… ah, o final! As últimas páginas, depois de lidas, simplesmente me fizeram olhar para o título de maneira maravilhada – coisa que apenas um bom título faz. E também me fez dar um meio sorriso para a dedicatória que foi, na verdade, um aviso. Um belo, e nada anticlímax, aviso

Em busca da felicidade literária

Tinha um bom tempo que eu não me acabava com o final de um livro. Lembro que uma das poucas vezes foi quando eu li Harry Potter e as Relíquias da Morte; aquele momento em que o Harry finalmente percebe que seu sacrifício é tão iminente como inerente. Desde a cena da penseira até o momento em que ele encara o Voldemort, pra mim foi uma tormenta. Afinal, eu tinha me afeiçoado ao Harry como se ele fosse feito de carne e osso. Um menino criado por J. K. Rowling tinha se tornado tanto meu professor como meu amigo, um ombro nos momentos em que tudo o que eu queria era uma vida tranquila; uma vontade de que as histórias que tanto me fascinam e prendem não fossem um reflexo tão forte de uma realidade que ou eu vivencio ou vejo transmitida pelas mídias.

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Celaena Sardothien (reprodução)

Lendo a série Trono de Vidro, de Sarah J. Maas, tive o mesmo com Celaena. A princípio eu não fui muito com a cara dela. Uma personagem que, depois de dez anos construindo sua fama como Assassina de Adarlan (sim, uma das melhores no que faz com tudo o que a bagagem do título carrega) e depois de um ano sendo escrava e sofrendo violências numa mina de sal, ela me mostrava uma disposição para a leveza de espírito que não cabia em quem construiu um passado como o dela.

Sim, ela queria essa leveza. Buscava a todo custo deixar para trás aquele passado horrível. Mas, ainda assim, ela revisitava aquela Celaena cruel. E era quando eu tinha a sensação que ela não havia sido tão bem construída. Uma montanha russa de sentimentos e ações que não me pareceram coerentes com o passado de assassina.

Mas então veio Coroa da Meia-Noite. Esse livro me mostrou a Celaena que deveria ter conhecido no primeiro. E foi quando eu finalmente a aceitei como personagem. Coerente. Que finalmente sabe quem é, mesmo com sentimentos tão controversos. E quando digo personagem, digo em termos literários; em termos que devem ser considerados a realidade que a gente sabe que é intrínseca ao ser humano (pois só assim nos identificamos com eles, os aceitamos e, também, os amamos ou odiamos – ou ficamos indiferentes).

Sendo o ser humano uma criatura inconstante no que tange a evolução emocional e psicológica – afinal, a cada dia conhecemos mais do mundo e do que ele tem a oferecer, e isso nos muda sim! -, com Celaena não seria diferente. Sua evolução, desde Trono de Vidro até o último lançado da autora, Empire of Storms (cuja tradução, pela editora Galera Record, não tem data de lançamento ainda), foi excepcional. E por mais que Celaena tivesse seus altos e baixos como criatura, a personagem seguiu sólida.

E foi por aceitar Celaena, por ver a excepcional evolução dela, por saber que ela passou por tanta coisa, que o final do quinto livro foi um baque: pois foi coerente. Foi real. E é muito difícil lidar com a realidade todos os dias. Ela é feia quando queremos apenas beleza; é pesada quando tudo o que precisamos é leveza. Mas também nos traz esperança – e é isso que nos move, de qualquer maneira. Esperança de um amanhecer mais leve e bonito.

E esperança de um sexto e último livro que seja tanto coerente como feliz. Pois também não é isso que nos move? A felicidade – e a esperança de encontrá-la em suas mais variadas formas?

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(reprodução)

Nenhum livro vai ocupar o lugar da série Harry Potter no meu coração por N motivos. E o Harry continuará a ser aquele velho amigo sempre disposto a me fazer sorrir. Mas Sarah J. Maas me fez colocar a série Trono de Vidro também na estante. Li tudo em e-book. Mas como colecionadora de livros que sou – descobri o termo há pouco tempo e me identifiquei muito! -, a série está na lista para ser adquirida junto de outros poucos títulos. Afinal, sou uma chata no que diz respeito às leituras minhas de cada dia. Porém Celaena ganhou seu lugar no trono.

Não é top-5, mas é da Nora

Romance nunca foi uma de minhas leituras top-5. Eu vou para o romance, aquele clichê, rosa-chiclete, moço-bonitão-encontra-mulher-independente/fragilizada, quando eu quero muito desanuviar ou preencher uns minutos de sem nada para fazer. E, não, não desmereço em nada os romances. E os exalto quando o romance aparece como parte da história, e não ela toda. Talvez seja por isso que eu adore ler Priscila Louredo.

Mas não foi sobre a Priscila que eu quero falar. É sobre outra. Ela. A dita “Rainha dos Romances”, também conhecida como Norinha.

Nora  Roberts é uma das minhas preferidas em preenchimento de tempo e desanuviamento. Adoro Trilogia da Magia, Trilogia da Fraternidade (embora o terceiro poderia ter um fim mais arranjado, em minha opinião), Irmãos MacKade e entre outros livros que ela escreveu atualmente. Sim, atualmente. Porque nos últimos dias fui me enredar pelo Legado dos Donovan. E devo dizer que os três primeiros foram aprovados. Já o quarto livro…

Bem, vamos lá à explicação.

Antes de mais nada, a saga O Legado dos Donovan fala de um legado hereditário de magia que a família Donovan (dã!) possui, ligado diretamente ao herói mitológico irlandês Finn McCool. Mas o legal é que é um livro de história contemporânea, e foi bem interessante ver os personagens lidando com seus poderes em pleno século XX e vendo como a nossa sociedade nada tolerante lida com isso.

O primeiro livro, lançando em 1992, tem o título de “Cativado”, e fala de uma mulher independente, segura de si tanto pessoal quanto magicamente, e que vê num roteirista de filme de fantasia e horror seu amor para toda vida. O desenrolar deles é aceitável, e você se diverte vendo a bela Morgana dando indícios mais do que fortes de que é uma feiticeira sim, porém o belo Nash Kirkland vê suas palavras apenas como um aproveitamento de rótulo que o pessoal da Califórnia deu a ela.

Já o segundo, Fascinado, foca no praticamente irresistível (palavras minha, não apenas da autora) Sebastian, e  no poder dele, que é de ler mentes e conseguir ver e sentir, através de objetos, onde e como estão seus donos. Por ter um enredo policial, esse me fascinou mais. E muitas vezes eu vi a personagem Mel personificada como a Sonya Cross, de The Bridge.

O terceiro, Encantado, fala de Anastasia (ou Ana) e seu poder quase torturante que é o de empatia. Imagina você conseguir sentir tudo o que outra pessoa sente: tanto emocional, quanto física e mentalmente? Imaginem a loucura que seria se você não se fechasse para os outros?! E Anastasia também sofreu ao dizer quem era para o homem que amava. Esse livro foi bem sensível, em minha opinião.

Quanto ao quarto livro, Enfeitiçado… Bem, eu não o terminei. Não consegui. Porque o problema não foi o interesse quase maluco que os personagens já apresentam ao menor sinal de olhar de esguelha e encontro sem-noção. O problema foi o Liam (filho de Finn), que é um metamorfo, transformar-se em lobo e agir feito um cachorro sem-dono e, de quebra, ver a bela Rowan se despir na frente dele sem ela saber que ali, em seu quarto, não está um animal que ela confia, mas um homem que ela não tem intimidade nenhuma. Fui correndo nas páginas, meio atropelando a leitura, porque queria ver como ela reagiria quando descobrisse que um homem, que ela não autorizou, a tivesse visto nua. E qual não foi minha frustração quando ela não falou NADA! Não se irritou, não mandou o cara ir se tratar, não falou que voyerismo não era sua praia. Porque, gente, pelamordedeus, o cara invadiu sua intimidade sem ela permitir!

Desapega, gente, desapega!

Esses livros mais antigos da Nora pecam nisso, para mim. Essa aceitação de que a mulher tem que baixar a cabeça, ser sempre a portadora de um erro que muitas vezes sequer é dela, aceitar que um homem pode tratá-la como qualquer coisa só porque é homem e está apaixonado. Fora o fato de que uma mulher nunca pode dar as costas para um homem sem que ele lhe agarre o braço em sequência.

Como eu disse, os três primeiros foram aceitáveis para mim. Embora que, quando os dois homens de Cativado e Encantado descobriram o poder das outras mulheres, eles se sentiram traídos por não terem sabido logo de cara. Aloou! Alguém aí sai contando seus segredos para o primeiro ser humano que lhe sorri? Claro que não! E em Fascinado, quando é a Mel quem faz algo que o Sebastian desgosta, adivinha quem aparece feito cãozinho sem dono pedindo milhões de desculpas? Sim, a mulher. Afinal, como ela se acha no direito de agir independente, em uma situação que precisou pensar rapidamente?

Por isso que gosto da Nora atual. Pós anos 2000. Porque nessa época, ela pegou essa chatice de ser feminista e a considerou em 80% do tempo. Mas ainda tem muito o que melhorar. Só que como não é nenhuma literatura tipo Virgínia Woolf ou Jane Austen, a gente vai aceitando. Afinal, é só pra matar o tempo e perceber como precisamos mudar esses rótulos degradantes de nossa sociedade.

Dois de Laini Taylor

Dias de Sangue e Estrelas

Uma das coisas que faz eu amar livros cada vez mais é o que eles fazem comigo depois que eu leio a última palavra da última página do último capítulo. Há livros, é claro, que me fazem dizer “Aleluia!” por ter conseguido terminar. E, é óbvio, há aqueles que eu fico olhando e olhando, como se mais palavras fossem simplesmente cair do céu até as páginas finais. 

Comecei com Feita de Fumaça e Osso (resenha aqui) de maneira despretensiosa. Apeguei-me a Karou e Akiva sem perceber, lamentando por eles, torcendo por eles, sentindo o que eles sentiam enquanto Laini Taylor destrinchava na sequência Dias de Sangue e Estrelas e Sonhos com Deuses e Monstros.

Depois que terminei de ler o terceiro livro da trilogia, me senti meio zonza. E um tanto alucinada. Há certas coisas que eu prezo muito em literatura. Não, não é a verossimilhança. Ela pode ficar num…ahm…terceiro lugar, talvez. Penso que em primeiro lugar vem sempre os personagens. São eles que nos fazem querer continuar a virar as páginas, querer descobrir o que os aguarda. Amor, separação, morte ou vida? Em segundo lugar vem a narrativa. Um “jovem adulto” abrange tantas narrativas que só sabendo do que o livro se trata a gente pode escolher melhor.

Sonhos com Deuses e Monstros

A trilogia da Laini Taylor tem partes sombrias. Afinal, os livros falam de guerra entre quimeras e anjos, aniquilação de raças, vidas ceifadas, e até que ponto isso irá afetar o mundo humano. Mas também fala de amor e amizade, de pessoas de dezoito anos e criaturas que viveram séculos demais. Àquelas estão diretamente ligadas à leveza da narrativa. Faz rir mesmo que o peso do mundo esteja nos ombros da principais personagens – e que sentimos a todo momento. Há música, há calmaria. Há risos. Assim como há choros, luta. Guerra.

Falar da trilogia Feita de Fumaça e Osso é falar disso tudo. E também (outra coisa que adoro em literatura) de drama. Drama por não saber, até a última página, o que realmente vai ser dos personagens que você aprendeu a gostar. Fica ali, sofrendo, querendo que eles se veem logo, se abracem logo, se beijem logo. E, enquanto isso não acontece, sofre com eles por essa separação, o que foram obrigados a fazer depois de tudo o que sofreram, apenas para sofrerem ainda mais (sim, muito sofrimento!). E não falo aqui apenas dos principais. Pois Taylor conseguiu desenvolver de maneira incrível seus personagens secundários, tão importantes na trama.

Ela segura os acontecimentos com uma mão apertada, deixando o leitor angustiado, sofrendo junto. E, então, você se vê igual aos rebeldes que se juntam. Improváveis, mas tão, tão essenciais. E é nesse momento que você vê que as diferenças não devem ser vistas como imposição, e sim com algo que se completa. Tem tanto ali de realidade, nos atos de serafins e quimeras que se envolvem apesar da guerra vivida há tantos anos, que você começa a pensar nas nossas próprias. Guerras verdadeiras que exterminaram seres humanos apenas por eles serem diferentes daqueles que se acham em supremacia. Você encontra nas palavras de Taylor um conceito pré-concebido sobre as criaturas, um conceito moldado por aqueles que estão no poder. Um conceito de que, se é diferente, deve ser exterminado.

E é isso que amo em livros. O que ele faz comigo depois de ler a última palavra da última página do último capítulo. Essa realidade tão intrínseca na literatura. E essa literatura tão enraizada em nossa – ainda distorcida – realidade.


Título: Dias de Sangue e Estrelas
Original: Days of Blood and Starlights
Editora: Intrínseca 
Edição/Ano: 2013
Páginas: 444
Sites: Skoob; Laini Taylor

 

 
Título:
 Sonhos com Deuses e Monstros
Original: Dreams of Gods and Monsters
Editora: Intrínseca 
Edição/Ano: 2015
Páginas: 558
Sites: SkoobLaini Taylor

Um retorno à delícia juvenil

Desde outubro eu não pegava um livro para ler. Prender-me em projetos próprios acabou atrasando minhas leituras e confesso que senti falta. É bom demais conhecer novos mundos, fantásticos ou não, e se permitir aventurar em uma história já pronta, que apenas te espera. Talvez seja por isso que gostei por ter voltado ao meu hábito de leituras com o primeiro volume da série Crônicas de Fímbria.

O livro tem uma narrativa leve, mas também que atinge o emocional. Ou talvez seja pela leveza que o emocional acaba sendo tocado… Não conhecia Paul Stewart ou Chris Riddell, e a apresentação, com Fora da Trilha, foi sensacional. A parte fantástica do livro é de uma riqueza maravilhosa e a sutileza com que ele descreve Fímbria, logo no capítulo introdutório, é de fazer cair o queixo. O livro é direcionado para o público infanto-juvenil, então tem tudo o que um pré-adolescente precisa. Uma busca por respostas e uma identidade, amigos sinceros e a descoberta de que nem tudo é o que parece, e tudo isso recheado de aventuras belas e perigosas. Pois assim é a Matafunda.

Escura e envolta em mistério, a Matafunda é cruel e perigosa para os que a chamam de lar. E muitos o fazem.[…] É uma vida dura e eivada de perigos mil – criaturas monstruosas, árvores carnívoras, hordas predadoras de bestas ferozes, grandes e também pequenas. E no entanto ela também pode ser proveitosa, pois as frutas suculentas e os bosques boiantes que ali vicejam são altamente valorizados. Piratas do céu e mercadores confederados competem no comércio e travam violentas disputas acima das infindas copas verde-oceano. – Páginas 09 e 10.

Esta foi apenas uma pequena introdução, a qual prepara o leitor para o que irá aparecer nas decorrentes 254 páginas.Twig é um garoto criado por sua mãe Spelda, uma arboritrol, que vive na Matafunda. Ele e nem a mãe sabem por que Twig foi encontrado ainda bebê, com pouquíssimo tempo de vida e envolto em um xale. Então, para que ele não seja dado aos Piratas do Céu por seu pai-arboritrol (que vê nele uma decepção), a mãe o faz ir até um parente para se esconder. Twig começa sua jornada, ainda de noite e sob o choro de sua mãe Spelda. Entretanto, ele acaba fazendo o que é imperdoável para um arboritrol: Twig sai da trilha.

E é aí que começam as aventuras de Twig. Ele conhece todos os tipos de criaturas que vivem na Matafunda, amigos verdadeiros – e alguns deles complicados -, porém também conhece criaturas cruéis e muito perigosas. Passa por provações, adquire conhecimentos valorosos, mas sempre acabando sozinho. É essa a sensação o tempo todo no livro: de que Twig é um garoto fadado a ficar sozinho, nunca se encaixando, desde que foi encontrado pela arboritrol Spelda.

Em relação à parte técnica do livro…Não há como não falar, pois vi este livro primeiramente no blog Mundo de Fantas, da Celly Borges. E nos comentários nós discutimos sobre a diferença da capa e tradução em relação à edição portuguesa. Em Portugal, a Porto Editora preferiu uma capa mais adulta, e a tradução é mais ao pé da letra. Já a Companhia das Letras mudou um pouco. A capa ficou mais infantil e sua tradução foi mais elaborada, digamos assim.

Um ano atrás eu havia achado ruim e estranha as escolhas da Companhia das Letras. Mas, agora, vejo que não (rendeu até uma procura no dicionário para a palavra “fímbria”). E achei fantástica as opções de tradução do Ricardo Gouveia. Sei que tradução é uma coisa complicada, e o tradutor tem que se prender não apenas ao pé da letra, e sim o que aquela palavra tem em relação ao livro num todo. Igual a “troll da floresta”, para a edição portuguesa, e “arboritrol” para a brasileira. É uma pegada bem inteligente, devemos confessar.

Edições portuguesa e brasileira

Então, Crônicas de Fímbria (ou Crônicas do Abismo, da Beirada) me tirou mais um dos pré-conceitos que eu tenho sobre edições literárias. E, também, me fez respeitar ainda mais o trabalho de tradutores (embora tradução de nomes eu não goste…James/Tiago, por exemplo).

Enfim… Fora da Trilha é um livro delicioso. Recomendo-o para quem gosta de literatura infanto-juvenil, mas também para aqueles que gostam de uma leitura leve, para um domingo à tarde, quando você não quer ter muito o que pensar ou raciocinar enquanto vira as páginas, mesmo que elas te façam pensar (sim, é contraditório). Como eu disse, a narrativa é de uma leveza gostosa (não que não haja momentos difíceis de engolir…), e as ilustrações, que ocupam grande parte do livro e são feitas por Riddell, são maravilhosas, não deixando nada para a imaginação do leitor. Você pode ler e olhar a imagem que tudo só fica mais vivo em sua mente. Dá até para matar a saudade de quando eu estava na escola, lendo Os Karas pela primeira vez, finalmente entrando no mundo dos livros…

Fora da Trilha


Título:
Crônicas de Fímbria: Fora da trilha
Original: The Edge Chronicles: Beyond the Deepwoods
Editora: Companhia das Letras
Edição/Ano: 2005
Páginas: 256
Sites:  Skoob; The Edge Chronicles

Elucubrações e Releitura

Feriado, cachorro cuidado (embora que passear, depois de se assustar com os primos Nero e Lola – que por sinal é muito agressiva, diga-se de passagem!), hora de ler um livro. Talvez um dos mais de vinte que estão sem ler (coisa de quem gosta de promoções e comprar algo sempre que tem um dinheiro sobrando). Mas olhos vão, olhos vêm, e o escolhido é aquele que já foi lido, adorado e que só espera por uma releitura.

Leio então o primeiro capítulo, cujo teor, apesar de ser sabido, continua a provocar tensão. Os personagens se apresentam, e apesar de saber que eles não serão vistos novamente (com exceção de um ou dois, mas isso não vem ao caso), os nomes marcam. O segundo capítulo vem, com seus personagens novos e que serão os guias das próximas páginas, e também chega o terceiro capítulo. E é aí, lendo pela terceira vez, que você para e volta para o capítulo um.

Sabe que a autora do livro não é alguém que pesca nomes em uma cumbuca do além. Nomes, para ela, são escolhidos de maneira inteligente, preparada, pensada. Vê-se pelos nomes dos personagens principais (e novamente, isso não vem ao caso). No entanto, tem um nome jogado ali. Tanto no primeiro capítulo quanto no terceiro. E o fato de saber que nomes são importantes, você para e pensa, começando a cogitar coisas que somente os próximos livros – ou até mesmo sua releitura – poderão explicar. Ou, quem sabe, uma conversa com a autora…

O nome de batismo é o mesmo: Fausto. Muda-se o sobrenome. Mas talvez seja normal, afinal, a diferença de tempo entre o primeiro e o segundo nome é de 110 anos. O primeiro é “de Abarca”. O segundo, que é doutor, é “Corte Real”. E você, um leitor desavisado e desejoso de conspirações literárias, fica se perguntando por que cargas d’água a autora repetiu o nome. Pois sabe que ela não tirou esse nome de uma cumbuca…

O primeiro, o “de Abarca”, aparece de uma maneira suspeita – embora o capítulo 1 do livro já seja todo envolto em suspeitas.

Já o segundo, o doutor “Corte Real”, é citado com empolgação por Eduardo, pai de dois garotos (que fazem parte do grupo de personagens principais).

Ah, esse feriado… Se ele não me matar de preguiça, me matará de interesse por essa escolha de nomes.

Nikelen Witter e seus Territórios Invisíveis ainda farão minha cabeça entrar em parafuso com elucubrações nessa releitura…