[Excerto] Clemènce

“Clemènce” é um conto e faz parte de um universo literário-fantástico ainda em construção.  

 


Clemènce

O sol lhe esquentava o rosto enquanto os respingos da água do mar o refrescavam, molhando seu cabelo. Ela passou a língua pelos lábios, sentindo seu sabor salgado e sorriu. Sempre gostara do mar. Ele parecia chamá-la a todo o momento, como se fosse o próprio Destino a impelindo. E Clemènce acreditava nisso.

Segurando firmemente a corda das velas da proa do Rod’ Draak, ela olhou para trás, vendo os marujos trabalharem com afinco, utilizando o forte vento para alcançarem mais rapidamente seu destino. Olhou para o jovem Dwayne, filho bastardo de John Caolho, que entrara há pouco tempo como membro da tripulação. Era um garoto magricelo, de braços e pernas compridos, mas não desajeitado. Ele correspondeu ao olhar de Clemènce e sorriu. Sua distração rendeu um sonoro tapa do pai, que meneou a cabeça desanimado, como se ele não tivesse conserto. Clemènce voltou a olhar para o horizonte, sentindo uma solitária lágrima misturar-se às gotas de mar que a alcançavam.

Na noite passada – assim como ocorrera na última semana –, Dwayne fora ao seu encontro na amurada a bombordo, perto da proa, onde sempre se sentava para ver as estrelas e sentir a brisa do mar noturno. Eles falaram sobre tudo e nada, riram de coisas insignificantes e então ficaram em silêncio. O barco não balançava nas águas calmas e a noite estava tão silenciosa que chegava a encher o coração de tranquilidade. Então Clemènce, que estivera olhando apenas as águas confundirem-se com o céu escuro, voltou seu olhar para Dwayne, que lhe sorria timidamente.

— O que foi? — ela perguntou, desencostando a cabeça que estava apoiada na amurada.

— Eu… — a voz oscilou, normal para a idade, mas fez Dwayne corar. Clemènce apenas esperou. Ele limpou a garganta antes de continuar. — Você fica muito bonita sob a luz da lua.

Ele falou isso tão rapidamente que Clemènce julgou ter entendido errado. Mas as faces coradas dele mostravam que ela não se confundira. Sorrindo, e sentindo as suas próprias arderem, voltou o olhar para as águas.

— Obrigada.

— E eu estava pensando — Dwayne continuou, falando devagar enquanto seus dedos procuravam os de Clemènce, apoiados na amurada. — Estava pensando se…

— Sim? — Ela sentiu o coração pular quando os dedos se encontraram. As mãos de Dwayne estavam quentes em comparação com as dela, que recebiam o ar frio da noite.

— Estava pensando o quanto quero te beijar, desde que a vi.

Clemènce não disse nada, porém seus olhos foram surpresos para Dwayne e o viu se aproximar lentamente. Fechou os olhos quando estavam a uma distância curta demais para o decoro, mas não se afastou. Talvez não o pudesse, pois Dwayne a segurava pela cintura. A respiração dele estava curta, ela sentia sobre seus lábios ressequidos. Sem se segurar, passou a língua por eles, um segundo antes de ter os de Dwayne sobre os seus.

Um arrepio gostoso percorreu seu corpo e sentiu que o coração se acelerava mais. Era o primeiro beijo de Clemènce, e apesar (e também a contragosto de seu pai) de ver os marujos se atracarem com as prostitutas do porto quando baixavam âncora, ela não sabia o que fazer. Não se sentia ousada, como imaginou que aconteceria. Na verdade, nenhum pensamento passou por sua cabeça, tendo apenas a realidade pura de Dwayne a beijando, as mãos a apertando contra ele enquanto ela conseguia apenas segurar-se em seus ombros.

Depois do que pareceu uma eternidade, Dwayne se afastou, tocando a face de Clemènce, que abriu os olhos e lhe sorriu.

— Clemènce — a voz grave de seu pai foi como um tambor ensurdecedor, fazendo-os pular e se afastar.

Tomas, o Vermelho, era o capitão de Rod’ Draak muito antes de Clemènce nascer. Seus olhos inteligentes e feição de poucos-amigos era um convite para desviar o olhar para qualquer coisa, e foi o que Dwayne fez.

— Capitão — falou com a voz rouca e olhando para os próprios pés.

Tomas olhou dele para a filha, e depois para John Caolho, que rapidamente chamou o garoto e o pegou pelos cabelos até alcançarem a popa do navio. Clemènce assistiu a tudo calada, mas não encarava o chão como os novos marujos de Rod’ Draak faziam quando se deparavam com o Capitão. Ela não tinha medo do pai. Mesmo assim, naquele momento preferiu manter os olhos no mar.

— Imaginei que estaria aqui — ele falou com a voz seca, aproximando-se da amurada e também olhando para o horizonte.

Não, não imaginou, pensou Clemènce. Ele o sabia. Sempre sabia de tudo.

— Gosto de olhar a estrelas — ela respondeu, olhando o perfil do pai. — E o mar à noite também é mais calmo.

— É apenas impressão tua. 

Eles então ficaram em silêncio e Clemènce sentia que iria morrer de nervosismo. Não poderia virar as costas e sair sem que o pai lhe dissesse, e não tinha coragem de pedi-lo. Portanto, apenas esperou. Seus dedos já estavam brancos por apertarem fortemente o guarda-corpo quando Tomas disse:

— Não vou pedir para afastar-se de Dwayne. — Olhou para Clemènce, que estava aparentemente mais tranquila, embora mordesse o lábio inferior. Ele suspirou pelo gesto, lembrando-se dolorosamente da esposa falecida. Annette saberia lidar com a filha. — Mas você precisa entender, Clemènce, que um dia será a capitã do Rod’ Draak. E não poderá permitir que seus homens a subestimem.

— Por que eles fariam isso? — perguntou com o cenho franzido, olhando de relance para Dwayne, ao lado de John.

— Porque você vai se apaixonar por Dwayne. Permitirá que ele a influencie. E seus homens poderão se dividir, não sabendo qual é o líder deste navio.

— Mas você tinha a mamãe.

Tomas respirou fundo. Sempre lhe fora difícil falar de Annette, mas o assunto não chegava a ser um tabu. Sua esposa havia sido uma maravilhosa companheira, mas ela raramente precisava dizer-lhe seus conselhos ou pensamentos. Tomas a conhecia o bastante para distinguir seus olhares e expressões. Além disso, a linhagem de seus antepassados permitia que tudo fosse mais fácil, o que não aconteceria com Clemènce e Dwayne.

— Você conhece a história de nossa família, Clemmie. Sabe por que pude ter sua mãe comigo sem correr os riscos que você, com certeza, enfrentaria com Dwayne ao seu lado.

— Você não pode saber — ela disse com teimosia e sentindo os olhos arderem.

— Tenho vivido o bastante para saber o que se passa em um navio, Clemènce. — Tomas suspirou, tentando se acalmar, porém a voz continuava dura quando continuou. — Como disse, não a obrigarei a afastar-se de Dwayne. Mas seria muito melhor, para ambos, se você o fizesse. Agora, vamos dormir.

Clemènce deixou-se ser guiada pelo pai até a cabina que dividia com ele. Revirou-se na cama durante um bom tempo, pensando naquela conversa, demorando a dormir. Ao acordar no dia seguinte, já sabia o que fazer.

Quando Dwayne apareceu, duas noites depois no lugar de sempre, Clemènce tinha o coração apertado e resoluto.

— Você está bem? — ele perguntou quando viu seu rosto.

— Por que não estaria? — Clemènce não o olhou.

— Seu pai foi muito duro com você?

— Não.

— O meu foi — ele disse com um sorriso nervoso. — Disse que eu perderia a língua, ou talvez algo mais importante, se a encontrasse de novo. Mas não me importo — deu de ombros.

— Deveria. — Sua voz saiu mais seca do que pretendia, fazendo Dwayne olhá-la com o cenho franzido.

— Clemènce, que acontece? Eu pensei que…

— Que por ter me beijado eu o trataria como um igual? Pois não somos iguais, Dwayne — falou com desprezo. — Um dia serei a capitã do Rod’ Draak e você continuará apenas como um marujo bastardo.

— Clemènce — a voz dele foi um sussurro sofrido, mas ela não voltou atrás. Nem quando ele lhe segurou pela mão e tentou beijá-la. Clemènce apenas virou o rosto e Dwayne a soltou. — Perdoe-me se me confundi.

— Está perdoado. Mas que não se repita, ou farei com que pague por isso.

— Claro.

Afastando-se com toda a arrogância que conseguiu reunir, Clemènce seguiu para sua cabina e afundou-se na cama, coberta pelas mantas, e chorou até adormecer, fazendo a promessa de que nunca passaria por aquela dor novamente.

Anúncios

[Excerto] O beijo da sereia

“O beijo da sereia” é um excerto que faz parte de uma história ainda em andamento que estou desenvolvendo devagar. Honestamente, não sei como será seu final, pois ainda não tem corpo completo e definido, mas vez ou outra vou até meus arquivos, mexo aqui ou acolá, desenvolvo ou crio um personagem que me parece se encaixar com perfeição. Não sei se algum dia conseguirei terminá-la ou simplesmente publicá-la (mesmo que seja aqui no blog), mas posto mesmo assim esse trecho que conta um pouco sobre os personagens que insistem em me perturbar.

Decidi postar este excerto por inspiração folclória, afinal, agosto é o mês que se comemora o Folclore Brasileiro. Segue-o então.

b2b85-the_black_mermaid_of_bali_by_homelyvillain

O Beijo da Sereia

O pequeno grupo havia parado há pouco tempo para descansar. Liana estava procurando lenha seca para que pudessem acender uma fogueira enquanto Amael verificava a segurança. Restou para Helena, João e Sara prepararem a comida que seria feita tão logo o fogo estivesse aceso.

Depois de uma semana de viagem, Helena e João haviam se acostumado à rotina. Até mesmo os queixumes de João diminuíram. O rapaz limitava-se a dizer que seria muito mais prático se eles atingissem o destino fazendo toda a viagem de avião e carro quando estava a sós com Helena. Apenas os olhares de Liana mantinha a boca de João fechada.

Enquanto esperava a volta dos outros dois, Helena se sentou no chão, encostando-se em uma árvore. Suspirou, finalmente conseguindo descansar depois de um dia inteiro de caminhada pela mata amazônica. O ar quente e úmido, totalmente diferente da capital paulista, fazia-a transpirar e se cansar mais que o normal. Sua vontade era procurar o riacho mais próximo e se banhar, mas teria que esperar Liana.

Desde que saíram de São Paulo, a mulher não deixava que Helena ficasse sozinha. “Sua segurança é primordial”, dizia Liana. Helena a entendia, mas ficar a mercê da vontade de uma desconhecida não era a melhor coisa do mundo. De onde estava, viu Sara e João em uma entretida conversa e sorriu. A afinidade entre os dois aumentava gradativamente; na verdade, eles pareciam combinar desde que se viram pela primeira vez. Sara mostrava as armas que tinha, deixando que João os segurasse por um momento, deslumbrado.

Na opinião de Helena, o mais bonito era um punhal de mais ou menos trinta centímetros, cuja lâmina tinha algumas ondulações e marcas ainda desconhecidas. O cabo de madeira tinha um lindo desenho amarelo e laranja, que lembrava muito um sol. No entanto, a arma que mais lhe chamava a atenção era o imenso arco negro que Sara carregava. Por mais arcaica que essa arma fosse, não havia dúvidas de sua eficiência: Sara conseguira matar duas aves em pleno voo dois dias atrás.

Helena estava quase dormindo quando Liana e Amael voltaram. Pendurados por uma pequena corda, Amael trazia consigo dois enormes peixes. O rosto de João mostrava a satisfação em ter carne para comer àquela noite, pois a comida que eles tinham armazenado não era tão apetitosa: pão seco e duro, queijo e as frutas que conseguiam encontrar no mato.

— O rio é aqui perto, Liana? — Helena perguntou quando finalmente puderam saborear o peixe que Amael cozinhara com maestria. O rapaz tinha uma aptidão para usar ervas de tempero que Helena chegava a sentir inveja.

— Sim, mas ninguém tomará banho hoje — Liana respondeu.

— Mas eu não me aguento! Ontem não teve banho, hoje de novo?

— Sem banhos. — E dando o assunto por encerrado, Liana voltou a atenção para seu prato.

Helena bufou, recebendo um olhar solidário de João e Sara. Liana não era uma mulher ruim, no entanto suas ordens eram incontestáveis, tanto por ser líder do grupo quanto por ninguém ser tolo o bastante de lhe enfrentar. Havia uma autoridade quase mística em Liana que todos acabavam por ceder-lhe qualquer coisa. E essa misticidade se devia ao que tanto Liana quanto Amael e Sara eram.

Muitos anos atrás, quando a religião cristã se instaurou como soberana sobre todos os povos de tal maneira que ser diferente era considerado crime de morte, todos os seres que tinham mesmo que fosse um resquício de magia no sangue foram forçados a deixar seus lares para buscarem segurança. Os antepassados de Liana, Amael e Sara não fizeram diferente. Preferiram, porém, refugiar-se nas terras ainda não descobertas pelos homens que os caçavam. Um novo mundo abaixo da linha do Equador, cujo misticismo lhes chegava ao conhecimento através de sonhos. A viagem até aquela terra foi árdua, até mesmo com algumas mortes, mas eles se sentiram em casa tão logo colocaram o primeiro pé em terra firme.

O Povo Antigo viveu em harmonia com essa nova terra e seus habitantes durante muitos anos. Conheceram novas plantas, novas magias e rituais que incrementaram a magia antiga. Tornaram-se mais fortes e sábios. Porém, com a chegada de colonizadores naquela terra tão maravilhosa, tiveram que se esconder novamente, pois eles traziam para aquela terra seu novo Deus. Desde então, aquele povo antigo tem vivido escondido, como se tivessem seu próprio mundo. Aprenderam a aprimorar a proteção, mantendo-se o mais distante possível do inimigo que deixaram no além-mar e que ainda os perseguia. Hoje, porém, o inimigo era outro. Alguém mais forte e impiedoso.

A viagem que aquele pequeno grupo fazia era justamente para conseguirem resistir a esse novo inimigo. Ao que tudo indicava, Helena era uma peça fundamental nessa guerra, porém a garota nada sabia concretamente. Ela apenas sabia que a mãe que nunca havia visto e a abandonara ainda bebê havia sido morta para protegê-la, porém, o destino de seu pai era incerto, assim como de seus antepassados. E era exatamente por isso que a proteção de Liana, mesmo parecendo demasiada, era de vital importância. Helena precisava voltar a trilhar o destino que lhe cabia, voltar para o mundo do Povo Antigo.

Com o cair da noite, o turno de vigília foi feito, cabendo a Sara ficar acordada algumas horas mais. O restante do grupo ajeitou-se como puderam sobre a terra macia, protegendo-se da umidade natural que tanto incomodava. A fogueira mantinha-se acesa, evitando assim a aproximação de animais, porém o silêncio que se instaurou era incômodo.

— Você está sentindo? — Helena perguntou a João, aos cochichos. Não queria ser repreendida por Liana por ainda estar acordada.

— Eu só sei que está silencioso demais para uma floresta. — João ergueu a cabeça levemente, tentando ver alguma coisa, mas só havia árvores.

— Isso não é normal — completou Helena. Sentiu, então, um forte arrepio percorrer-lhe desde a nuca até a base da espinha, o que a forçou se levantar, ofegante. Havia algo errado sim!

— Não se mexa ou fale qualquer coisa — Amael sussurrou-lhe, tapando sua boca. Helena tentou olhá-lo, porém ele a segurou firmemente, reafirmando a ordem.

Quando se viu livre, Helena olhou para João. O rapaz estava sentado ao seu lado, os olhos parecendo focar alguma coisa que estava à sua frente. Olhando-o mais atenciosamente, Helena percebeu que havia algo errado com João, também. Seus olhos pareciam desfocados e mais escuros que o normal, e a feição preocupada de antes estava totalmente desprovida de sentimentos.

Então, sem que pudesse prever de onde surgira, uma figura escura apareceu atrás de João, erguendo-o facilmente. Os braços de João foram rapidamente para a cintura da criatura, enlaçando-a como se fossem um casal de enamorados. Seus lábios estavam quase para se tocarem quando Sara surgiu rápida, colocando o punhal debaixo do pescoço da criatura.

— Não há nada para você aqui — a voz de Sara mais parecia um rugido baixo, sem a alegria ou a suavidade que sempre a acompanhavam.

— Eu quero o que ainda é puro.

Helena sentiu-se arrepiar diante da voz que respondeu Sara. Era suave e feminina, contudo notava-se uma frialdade e malícia que não pareciam corresponder à pequena figura abraçada a João: uma mulher jovem e bonita, de corpo delicado, cujos cabelos negros e compridos tapavam os seios nus.

— Vá embora, ninfa. Você não levará ninguém daqui. — Foi Liana quem se pronunciou, a espada em riste, apontada para a garganta da ninfa.

O ser místico ainda tentou finalizar seu intento, que parecia ser beijar João, mas Liana foi rápida, cabendo a ninfa apenas mostrar os muitos dentes pontiagudos quando um corte profundo machucou-lhe o braço.

— Eu o quero! — exigiu, as mãos fechadas em punho.

— Hoje não. Vá, antes que minha espada a transforme no que realmente é!

Como se esperasse a ameaça de Liana, a ninfa sorriu. Suas feições, antes belas, transformaram-se, adquirindo formas animalescas que lembravam um peixe. O corpo não era mais delicado ou de pele humana, mas grotescamente coberto de escamas azul-acinzentadas, e o cabelo parecia azul, escorrido e estranhamente molhado.

— Vocês não estão em seu território — a voz também havia mudado, rouca e sem conseguir distinguir se era feminina ou masculina. — Eu manteria ao menos um olho aberto, Liana do Povo Antigo.

— O recado está dado. E avise à Mãe das Águas que tal ameaça não ficará esquecida.

Por um momento, Helena viu medo perpassar pelos olhos da criatura. Mas rapidamente ela se afastou, voltando de onde viera. Ao mesmo tempo em que ouvia algo caindo do rio – mais parecendo uma imensa pedra jogada de uma extraordinária altura, pelo barulho –, João despertou do transe em que estava, desmaiando em seguida.

— Não precisa se preocupar — Amael se aproximara para cuidar do garoto. — É apenas efeito da maldição da ninfa.

— Ninfa? — retorquiu Helena, sem saber realmente se inquiria Amael sobre o estranho ocorrido ou sobre a saúde de seu amigo.

— Seres aquáticos, subalternos da Mãe das Águas.

— Escravos de Iara, você quer dizer — resmungou Liana.

— Iara? Da lenda folclórica?

— Iara não é uma lenda, mas uma semideusa. Um ser único escolhido e agraciado pelos deuses para proteger todos os que vivem no mar, rios ou lagos — esclareceu Sara.

— Não estamos mais no seu mundo, Helena — Liana a advertiu. — No nosso mundo, a maioria de suas lendas são reais. E perigosas. Lembre-se disso.

Helena apenas acenou em resposta. Se tudo o que sempre pensou ser apenas uma lenda fosse real, não queria nem pensar caso quisesse aparecer para eles um boitatá. Esquecendo-se disso, porém, voltou seus cuidados para João. O amigo ainda estava branco feito cera, mas tinha um sono tranquilo.

Contudo, para os outros foi difícil dormir àquela noite.