O trabalhar com as palavras

critic-ratatouille2017 está sendo um ano de projetos, para mim. Projetos para as vidas pessoal e profissional. Projetos que me satisfazem a mente, que me completam, me fazem suspirar; que me atraem à medida que vou os conhecendo a fundo. Que me deixam apaixonada, ouso dizer.

Um dos projetos é, e sempre será, o Linhas e Pensamentos. Mesmo que eu fique tempos sem passar por aqui, quando retorno é como se não tivesse deixado nem por um instante. Porque o L&P é onde me mostro. Mas tem tanta coisa boa e bonita a se fazer nos bastidores. Tantos projetos…

Entre esses projetos, está a minha capacitação e aperfeiçoamento com Revisão. Trabalho com isso há algum tempo, mas nunca me virei totalmente para o assunto, nunca parei e falei: OK, disso eu sei totalmente o que estou falando. Apesar de dizer que sabemos de tudo sobre determinado assunto ser um pretensiosismo de doer do dedão do pé até o fio de cabelo que se vai com o vento. Mas mesmo assim, mesmo que ousamos dizer que sabemos muito, muito e muito sobre algo, sempre tem aquela vozinha que nos invoca a estudar mais.

spilled-wordsIsso – a vontade de trabalhar com Revisão, focar-me na teoria da literatura – é que primeiramente me fez ler livros com uma perspectiva diferente. Leio, sim, para meu inteiro prazer. Mas não há revisor ou leitor com conhecimento bastante em teoria que fique sem analisar uma coisa ou outra. E essa minha paixão literária, em procurar, esmiuçar, levantar o tapete para procurar as sujeiras disfarçadas, é o que me faz estudar cada vez mais literatura. E entre a teoria, está a Revisão. E não apenas Revisão por revisão, mas o estudo do texto, o que o deixa melhor, o que o atrapalha, o que (em minha opinião) pode melhorá-lo. E sempre, para todas esses argumentos, estão elas: AS PALAVRAS.

Então, apenas para demonstrar o que estou falando, deixo aqui um pequeno trecho do livro que estou lendo. Um pouquinho de A Tarefa do Crítico (Ed. Unesp. 2010):

Se por um lado a análise literária possui
uma vocação crítica importante,
por outro lado ela também possui uma dimensão utópica:
“Lidar com a sensação e a forma das palavras

significa recusar-se a tratá-las de forma puramente instrumental,
e portanto recusar um mundo no qual
a linguagem é desgastada pelo comércio
e pela burocracia até ficar tênue no papel”

Terry Eagleton

hb5kkPor isso eu digo: revisar é muito mais do que corrigir coerência, coesão, ortografia. É fazer com que as palavras não se desgastem, não se percam, não se tornem um complexo desagradável e obediente a uma norma que pode tanto maravilhar quanto entristecer um leitor e um escritor. Muito pelo contrário. É fazer com que elas sejam tão reais quanto a emoção que o leitor sente ao lê-las; fazer com que elas saiam do papel e se misturem ao seu redor e transformando-o em algo sempre melhor. Trabalhar com palavras é pegar as melhores e piores sensações; e então colocá-las de tal maneira que o leitor não sabe quem mais é, e se transforma naquilo que deseje (ou não) ser.

O tempo e o Tempo

A gente adora culpar o tempo. E em muitas vezes até lhe damos tamanha importância que o tratamos assim, Tempo, com um supervalorizado tê maiúsculo. Mas eu sempre preferi tempo, mesmo, como uma tentativa de mostrar a ele que quem manda sou eu. O problema é que, infelizmente, eu não tenho tanta autoridade assim, e o Tempo sempre mostra aquele sorrisinho sarcástico que me faz querer lhe estapear. Só que Tempo não tem rosto nem corpo, assim como o tempo. 
 

Hoje é um dia especial. Daqueles em que o tempo passa despercebido, enquanto o Tempo insiste em manter seu sorriso, seu poder e força. Neste caso, ele tem mesmo. E talvez seja justamente por isso a nossa valorização para com o Tempo. Ele que cura as feridas e também fortalece amores sinceros, mandando embora medos e futilidades da vida que não conseguimos enxergar. Pois passaram-se três anos desde que minha sobrinha nasceu, e ainda lembro daquele dia como se fosse ontem. E percebo como o amor que sinto por ela, e que eu nem sabia que um dia seria capaz de sentir, só aumenta.

E para perpetuar ainda mais aquele 18 de fevereiro, e ainda sentindo o frescor que se manteve até hoje, deixo aqui meu amor de 2014 (e além!) em letras:

A carinha ainda está inchada, coisa de bebês com poucas horas de vinda ao mundo.
Os olhos mal enxergam o que está à sua frente, mal distingue os sons e chora para voltar ao aconchego da barriga da mãe. No entanto, tudo o que pode fazer é manter a carinha de brava que apenas nós conseguimos ver e que lembra muito a da mamãe Thaís, o punho erguido como se desafiasse e um amor que chega a transbordar.
Não importa se são apenas 3,7 kg com 48 cm. Parece pesar toda uma vida, atingindo um tamanho infinito que vem, força delicadamente e fica sem nem fazer estrago, enchendo tudo o que é ruim e difícil com beleza, paz e um amor que ninguém sabe de onde vem. Só se sabe que está lá. Completando. Emocionando. Fazendo-nos desejar sermos melhores em tudo.
Dádiva de nossas vidas, amor eterno e paixão que veio se alojando vagarosamente até criar raízes tão profundas que, se forem arrancadas, nos matarão. E, isso, tendo apenas nove meses de útero e três horas de mundo.

Melissa, seja bem-vinda! Sua tia Lívia te ama.

O patamar do principiante

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Eu ainda me sinto principiante. Afinal, minhas conquistas não foram tão grandes assim quando eu paro e comparo aos outros. Então, às vezes me pego a pensar em que cargas d’água de patamar estou me colocando quando me chamo “praticante de atividade literária”, “a escritora”, “a romancista”. É uma coisa de neófitos, mesmo. Aqueles que se veem num mundo novo e se perguntam: “E agora? Me enquadro no mesmo patamar que Saramago, Drummond, Machado, Rowling? Ou vou acabar ficando mesmo entre aqueles nomes que foram vistos apenas uma vez e, então, esquecidos?”

Mas aí eu me lembro que também me coloquei no patamar de Rowling. Que não é Kathleen, mas apena Joanne. Se tornou J. K. só depois de muito suor. E não é disto – suor, transpiração! – de que se trata a escrita? Picasso já falava isso; de que a inspiração de uma obra prima poderia até vir, mas não se sabia quando ou como – o importante era que a inspiração o encontrasse trabalhando.

Inspiração todos tempos, desde que permitamos abrir nosso mundo, nossa mente – e várias vezes -, nossa alma. Para mim, escrever se trata disso. De abrir minha alma em um papel e, então, usar tudo o que me cerca para tornar o abstrato em algo que se possa entender.

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Talvez eu seja mesmo uma escritora. Recém-batizada com seus poucos contos publicados, é verdade. Mas se eu estou romanceando em palavras, se estou transformando e criando um mundo inteiramente meu e que alcançará a outros – mesmo que poucos, a princípio -, então é o que sou. Escritora. Principiante. Aspirante.

Então, sim. Sou Machado. Sou Rowling. Mas, acima de tudo, sou eu mesma. E isso é muito bom.

Ando devagar porque já tive pressa

 

Lagoa da cidade

 

Existe uma certa exigência em parar e olhar. 

Olhar os adultos correndo numa manhã de trabalho. Olhar as crianças bocejando no ponto de ônibus. Olhar os bebês dormindo em seus berços ou dançando ao som de All about that bass no banco traseiro do carro (pois dois anos ainda é ser bebê).

Mas a maior das exigências é olhar para um céu azul de poucas nuvens, mesmo que este céu se encontre parcialmente oculto por um pé-direito alto, um pilar e a estreita porta do escritório. Sem falar na tela do computador, que te exige tanto que às vezes é difícil mandá-la às favas.

 

Via Google

Gostar de olhar o céu azul ou a lagoa calma entre verdes e asfaltos é uma imposição. Não da sociedade. Ou da cultura preguiçosa. É uma exigência nossa, de nosso estresse rotineiro que só faz com que o dia corra mais rápido e sem altos e baixos; apenas naquela mesmice que, sim, faz o dia correr muito mais rápido. Culpar o tempo é consequência. Quase uma obrigação. Uma maneira de dizer: a culpa não é minha, é dele, ele que começou, não eu! (pode-se emendar aí um pai ou mãe ou professor – o vocativo não importa, desde que não seja eu mesmo).

A questão é que parar por uns dias, seja pelo feriado ou por uma folga forçada para ajudar a irmã recém intitulada mãe, nos força a perceber que correr é coisa de atleta. E eles, ainda por cima, só o fazem por alguns momentos. Correr fora das pistas é coisa de gente doida. Correr com dedos num teclado, com telefone à orelha, sentado num banco de carro ao volante ou não. No fim não haverá faixa de vencedor, apenas um sofá nem tão macio e uma comida semi-congelada que ninguém teve paciência de deixar mais tempo no micro-ondas.

Não que o tempo vá prover, mas… Bem, ele vai. Prover a tranquilidade em vez da enxaqueca. E sua percepção de um sorriso e não de uma careta de desgosto. E se você me diz que “é correndo que se chega lá”, eu te falo: qual a graça de ter uma vida corrida, quando a pressa é inimiga da perfeição?

 

Via Google

Citações #19: Luís Fernando Veríssimo

…e um tequinho de crônica.

Ler livro é um ato comum. Qualquer pessoa alfabetizada e minimamente capacitada fisicamente consegue abrir um livro e passar as páginas. O extraordinário é quando o interpretamos; quando enxergamos nas entrelinhas por que o autor escolheu tal palavra. Talvez como fator ambíguo? Talvez para fazer o leitor, justamente, duvidar do que acontece?

Desde que me formei em Letras, eu tenho um carinho especial pela Língua Portuguesa e, de maneira especial, por sua sintaxe tão permissiva. Pois é como nos diz Veríssimo:

A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios.
Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo.
Por exemplo:
dizer “escrever claro” não é certo, mas é claro, certo?

Ultimamente, eu tenho me libertado de muitos preconceitos linguísticos arraigados pela norma padrão da gramática. A leitura foi muito importante para isso, mas mais libertador foi o fato de eu começar a escrever literatura. De eu também tentar escrever claramente, ou escrever com ambiguidade. Escrever pensando que são pessoas ali falando, e não meros robôs, além do fato de que não serão robôs que o lerão. E percebo que isso apenas enriquece o texto, mostrando personalidades. Pois nós conhecemos um personagem tanto pela maneira com que ele age – o que o autor nos descreve -, como pela maneira que ele fala.

É muito bom conseguir enxergar isso no texto alheio. Mas tão bom quanto é enxergar no seu. Quanto à sintaxe? Deixo ela pros gramáticos.

Impulsos de pena

É de uma verdade inquestionável que a Literatura nada mais é que uma sequência de eventos e acontecimentos de nosso dia-a-dia transcritos de maneira cuidadosa, floreada, ou até rebuscada e sem meias palavras. Para alguns, ela é uma necessidade que te empurra a pegar um lápis ou ficar de frente a uma tela de computador, com as teclas do teclado intercalando-se entre batidas furiosas e o silêncio de uma mente em reboliços.

E talvez seja justamente por isso – por esse relato de dia-a-dia – que a Literatura, de maneira alguma, vai ser algo inédito. Temos 516 anos de história literária brasileira, e milênios de literatura mundial. Logo, toda e qualquer literatura escrita hoje tem um pé em outras obras. Um pé de influência, um Q de cutucadas, uma letra que, definitivamente, tinha que estar em seus escritos. Não é plágio. É a pura e simples influência.

A grande questão é o que escrever, como escrever e o quanto escrever. Acredito que algumas coisas devem ser publicadas de maneira que mostre que o autor é alguém que trabalhou para que suas palavras saíssem da maneira perfeita, como um arquiteto que planeja uma casa ou o professor que se curva no aluno para ensiná-lo devidamente a desenhar as letras. Mas tem outros escritos que você simplesmente precisa mostrar para quem quiser ver e tiver disponibilidade de apenas um clique. Não por eles serem inferiores. Nunca! Pois um escritor não publicaria algo que julga inferior se acredita em seu trabalho e gostaria que outros também acreditassem e dessem o devido valor.

No entanto, assim como o professor te corrige no dia-a-dia sem te cobrar nada, ou o arquiteto que dá dicas sem que precise assinar contrato ou fazer o pagamento adiantado, o escritor tem certa necessidade em publicar algo de maneira livre – ainda mais escritores que ainda estão no começo de suas vidas literárias. É quase um impulso, na verdade. Seja aquele sonho estranho, ou até um fato ocorrido que ficaria bem melhor se transformado em conto ao invés de crônica.

O que me impulsiona é que as coisas estão começando a caminhar na direção que eu quero. Não é nada grande demais – ainda. Mas, ainda assim, é um impulso. Um algo mais que faz minha mente entrar em reboliço. Que faz o teclado ecoar furiosamente. E o lápis correr para o papel em branco. Enquanto os olhos correm mais uma vez pelo que já está escrito e pode ser melhorado ou, simplesmente, deixado de lado para uma sequência.

Escrever é arte, sim. Mas também um trabalho tão delicioso que, algumas vezes, você não precisa da aprovação de ninguém que não a sua própria. E, honestamente, esta é a mais difícil de se conseguir. E a mais gratificante.

Sobre autopublicação e a coluna de Raphael Montes

Há uma coisa interessante que eu percebi com essa moda de autopublicação no site da Amazon. Primeiro que isso te vicia. Já publiquei quatro contos, e tenho desenvolvido outros, por motivos que vão desde inscrição em antologias, a complementação de histórias. Tenho outro conto de horror esperando revisão e um de romance só esperando que eu tenha o tempo devido para ele. Pretendo colocar no ar um romance curto, daqueles bem clichês (afinal, quem não ama um clichê?) e, se tudo der certo, um romance mais bem trabalhado, de gênero fantasia e faixa etária juvenil. Viu? Vicia!

Mas o que realmente faz essa tal de autopublicação é colocar uma imensidão de livros eletrônicos no site da Amazon. Livros com preços tão acessíveis que você “compra sem ver” como se fosse uma promoção de sapatos! E também há livros gratuitos. E, claro, estes são os primeiros a ficarem arquivados na biblioteca Kindle. Mas nem sempre os primeiros a serem apreciados. Não, não estou falando de lidos. É apreciados mesmo.

Essa demanda gigante de novos autores, aspirantes ou experientes, cuidadosos ou “vamos ver no que essa bagaça vai dar”, faz, realmente, ter de tudo ali. Tudo mesmo! Dá para encontrar histórias que você se pergunta por que raios nenhuma editora (tanto as pequenas quanto as de renome nacional) se prontificou a transformar aquilo em papel, a trabalhar no escritor e em sua obra. A gente se pergunta, mas não dá para responder, afinal, não somos especialistas em mercado editorial.

E também há aqueles… Ah, aqueles que não dá, de maneira alguma, de apreciar quando você é uma pessoa que tem certa bagagem em leituras, certos paradigmas a serem seguidos, como, por exemplo, linguagem, coerências textual e narrativa, termos coesivos que transformam a frase, deixando-a redonda e sem trancos. São esses que faz com que um escritor autopublicado – ou escritora autopublicada! – pense duas vezes antes de converter o arquivo e “upá-lo” na Amazon. Pois você não quer carregar o estigma de que, quando se utiliza de autopublicação, suas histórias não têm revisão como muitas lançadas por aí. Que suas histórias não merecem atenção ou que não tiveram toda uma carga de seu tempo, de sua concentração e de preocupação, e de seus cuidados de que cada detalhe estivesse redondo para que os próximos volumes de uma trilogia não sofressem com falta de ganchos narrativos.

Só que, então, você lê o artigo do Raphael Montes, no O Globo. E vê todo aquele sarcasmo, aquela ironia tão bem direcionada. Ah, não! Ela não vai para o escritor autopublicado. Ao menos não em forma de ataque. As ironias provocam risos, pois você identifica ali muita coisa que antes te prendia, te fazia olhar torto para determinados escritores, determinados escritos que pareciam tão presunçosos e tão, tão sérios. Coisas de um “escritor sério” que te fazia parar e pensar se você estava fazendo certo em correr para a autopublicação. Afinal, você não fala como aquele escritor, não tem uma linha de escrita como ele. Mas lá no texto do Raphael Montes você percebe que não precisa ser como aquele escritor sério. Pois você quer, sim, falar de “vampiros com câncer que curtem sexo sadomasoquista para colorir“. Quer sorrir, tirar selfies e se autopublicar. E quer se manter nesse seu jeito, elogiando de maneira efusiva sua outra amiga escritora e traçando resenhas com palavras cotidianas, e não buscadas no Trovadorismo.

Você quer ser escritora. Ponto. Sem complementos nem nada.