Registros

banco

29 de setemb
Segunda semana de
Primavera. 1997.

Há quem diga que o ato de observar é coisa de quem não tem o que fazer. Que não tem uma pia cheia de louça suja, uma pilha de roupa a ser lavada e passada, e que seria bem melhor se estivesse observando pretendentes e analisando como seria a melhor maneira de se criar filhos. Eu não me importo que pensem isso de mim; que sou uma criatura vagabunda, sentada num banco, vendo a vida dos outros passar enquanto a minha espera.

Mal sabem que minha vida não espera. E que, apesar de parecer, eu não vivo através dos outros. Quando tentam me julgar, eu simplesmente dou um sorriso e sigo com minha vida. Mas quando não estou no melhor do meu humor, lanço um proverbiozinho popular: sábio é aquele que aprende com os erros alheios. Ou coisa que valha. Não que eu use tal conselho, também.

Carrego sempre comigo minha máquina fotográfica de segunda mão e uma caderneta. Aprendi a gostar de observar os outros. De entender o que se passa na alma de cada um apenas pelo que vejo em seus rostos taciturnos, ombros caídos, andar pesado… Ou de tentar descobrir o que fez um olhar brilhar, enquanto olha para o nada, os dedos passando distraídos nos cabelos, numa barba que cresceu demais, num vestido colorido que voa com o vento como num filme hollywoodiano da década de sessenta.

Quando não utilizo a fotografia para registrar os detalhes de um par de mãos unidas ou um beijo ao pôr do sol, na beira da lagoinha, sento-me no banco e procuro alguém que possa ser o gatilho. Uma criança que sorri para os patos que nadam despreocupados, um pai esperando ao pé do escorregador o filho temeroso, a avó que está se perguntando onde foi se meter enquanto a neta só quer saber de fazer o balanço subir cada vez mais alto. Tento escrever uma história com isso. Não importa se seja com dez linhas ou dez páginas. Mas muitas vezes é mais difícil colocar tudo o que carrego na ponta de um lápis. Deixa-o quebradiço. Deixa a mim quebradiço.

Hoje, por exemplo, preferi as fotos. Era um dia bom, com o céu claro de início de primavera, as flores colorindo o largo da praça matriz, o sol tentando se esconder no oeste enquanto as crianças corriam, aproveitando o final de um dia sem aula, os adultos se refrescavam com sorvete e tentavam dar a liberdade para os pequenos enquanto os vigiavam como águias. Tem algo de bom admirar as crianças. Vê-los correr alguns metros como se estivessem em uma rua de maratona, lambuzar-se com sorvete sem se importar com a roupa que ficará grudenta e tentar se esconder atrás dos arbustos enquanto os pés aparecem completamente.

Havia um tênis branco e rosa atrás do arbusto das margaridas. A menina ria, imaginando-se no melhor esconderijo, enquanto a mulher fingia não a estar vendo. Ficaram naquilo por horas. Ora atrás das margaridas, ora atrás das rosas, ora atrás de uma árvore estreita.

Fotografei-as quando a menina jogou-se nos braços da mulher, quando a mulher a ergueu como se não pesasse vinte quilos, mas quatro. A menina gargalhava enquanto a mulher fingia não notar o peso contra os braços e a coluna. Quando ela colocou a menina no chão, a vi suspirar. Dor e alegria digladiavam naqueles olhos. Esperança e perda. Perguntei-me o que se passava na alma daquela mulher (pois na da criança eu tinha certeza o que a preenchia).

A mulher notou meu estudo. Em vez de se irritar, como algumas vezes acontecia com pessoas flagradas por estranhos, sorriu para mim. Fotografei-a mais uma vez. Ela pareceu querer se aproximar, mas a menina a chamava.

Quando o sol se pôs, fui embora. Vi a mulher colocar a criança lambuzada de sorvete no carro, sonolenta. Arrisquei mais uma foto antes de partir.

Minha casa estava com as luzes acesas. Ouvi barulho de liquidificador enquanto destrancava a porta. Fiz com que me ouvissem entrar. Uma voz fraca respondeu, vinda do quarto. Retirei os sapatos, sentindo o chão gelado e bem-vindo, e segui o som. Cumprimentei antes a dona Ana na cozinha, que terminava o jantar.

A luz do quarto estava acesa. Entrei sem dar muita atenção para os aparelhos, fingindo não ouvir os bipes intermitentes e monocórdios que causava inveja em qualquer sinfonia, de Beethoven ou Bach: nunca um som ficava por tanto tempo ressonando em um cérebro como aqueles bipes.

— O dia foi bom? — perguntou o amor que se instalou em minha própria alma, muitos anos atrás, e que havia criado as mais profundas raízes.

— Sim.

— Viu algum amor como o nosso?

Estive pronto para dizer que não, como frequentemente acontecia. Não por presunção; desaprendi o significado dessa palavra – assim como de tantas outras – desde que descobri o que os próximos meses me trariam. Mas eu não conseguia enxergar nos outros o que via entre meu amor e eu: uma esperança que míngua enquanto a dor cresce, uma alegria que te completa quando a tristeza tenta tomar conta a todo custo, uma completude que nunca irá findar mesmo que comece a se perder pouco a pouco.

— Tinha uma mulher, hoje, com uma criança. Ela estava cansada, mas continuava a brincar com a criança, mesmo que repetissem a mesma brincadeira por horas.

— Mãe e filha?

— Não. Penso ter ouvido a menina chamá-la de tia.

Meu amor suspirou e se aconchegou mais a mim quando passei o braço sob ela, tentando não repuxar os fios que a mantinham sã e viva para mim.

— E você viu nosso amor nelas?

— Sim.

Ficamos em silêncio por alguns segundos e percebi que meu amor chorava.

— Uma pena. Só desejo que a tia tenha tempo para se despedir como eu estou tendo.

Eu não disse nada. As pessoas tinham o costume de superestimar as despedidas. Mas às vezes, quando eu conseguia sentir as raízes perdendo forças no meu peito, tornando-o gelado, eu me perguntava se não seria mais fácil esquecer a despedida e deixar logo a dor sobrepujar a tudo para enfim esvair-se.

Então olhei para minha vida – a que estava ao meu lado, ressonando baixinho, fazendo com que eu não ouvisse os bipes intermitentes e monocórdios – e percebi que nunca a despedida seria superestimada. Afinal, ela era algo que ninguém queria que chegasse. Principalmente se você fosse se despedir da própria alma que convalesce em seus braços.

(conto originalmente publicado em Enlaces Literários)
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Ladrões de almas

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O crepúsculo fazia as sombras tomarem formas engraçadas. Estranhas, para falar a verdade. Até certo ponto, um pouco surreal. Como se ganhassem vida naquele cômodo de paredes nuas. Os olhos acompanhavam a mudança das formas como se assistissem a um filme de enredo complexo, cujo personagem principal se enroscava, lutava, amava, ia embora, e tudo isso em tantos momentos que os encontros logo se transformavam em desencontros, amores em indiferenças, paixão em ódio. Por um lapso de realidade, jurou ter visto a si mesmo naquelas sombras. Mas foi só um lapso.

Erguendo-se da cama, foi até o banheiro. Era melhor voltar logo para a vida – aquela em que as sombras não brincavam como se tivessem se perdido de seus donos, às vezes eternamente meninos – e encarar a criatura estranha que veria no espelho.

Há dias não se enxergava mais. No início estranhou, é claro. O reflexo não tinha mais os cabelos carapinhos, nem os olhos escuros ou a pele da cor do tamarindo maduro. Havia desbotado, ganhado cores novas, formas diferentes e indiferentes. Era como as sombras nas paredes, sem identidade; dançavam como se estivessem se buscando, mas nunca se encontrando. Mas o engraçado – ou estranho; ou até surreal, se pensasse um pouco – é que havia pedido por aquilo. Por uma identidade diferente. Um novo “eu”. Porém não sabia que encontraria aquela criatura estranha quando se olhasse.

Suspirou, jogando água no rosto. Por um instante, conseguiu realmente se ver: cabelos crespos, olhos escuros, lábios carnudos que haviam beijado tanto e recebido sussurros. Mas logo os cabelos perderam aquela aparência a que havia se acostumado desde que se entendera por gente – muito antes de as pessoas verem que era realmente gente. A criatura estranha do espelho encarou de volta; tão igual aos outros que estariam esperando nas ruas, no trabalho, no restaurante chique que agora podia frequentar mesmo se tivesse pouco dinheiro na carteira e sem que alguém olhasse torto.

Sentiu vontade de socar o espelho. Uma raiva súbita de si. Uma raiva de tudo o que lhe rodeava. Uma raiva quase louca por ter escolhido ser outra pessoa, e não a que havia nascido para ser: alguém que já amava, que já criara sua própria identidade com ou sem cabelos. O soco no espelho foi impensável. Rasgou os dedos e fez o sangue escorrer na pia, tão impecavelmente branca quanto agora era a cor de sua pele. Os olhos arderam em lágrimas. Não pela dor física. Ah, essa era uma piada se comparada a que lhe enchia o peito a cada dia que se olhava no espelho, vendo aquela pessoa tão diferente do que realmente existia dentro de si. Dentro havia o EU. Por fora, era apenas os outros; outros que queriam que todos fossem tão iguais a ponto do mundo ser uma homogeneidade sem tons.

Havia se sucumbido a essa vontade externa. A ponto de, ao se olhar no espelho, ver o que os outros queriam ver. Por isso o soco foi impensado. Não veio da mente; veio da alma, e alma não pensa. Apenas sente, intensa.

Os olhos então desceram para a pele machucada, para o sangue ironicamente vermelho. Por um instante, pensou que sangraria azul. Colocou a mão sob a água da torneira, deixando-a limpar. “Limpe tudo!”, desejou com ardor. Mas o pensamento não foi o bastante. Esfregou, esfregou, esfregou. E quando a pia não foi o bastante, foi para o chuveiro. Daquele jeito, de pijama e tudo. E continuou a esfregar, a se limpar, a retirar aquela pele que não lhe pertencia. Era horrível ser igual a tudo. Era opressivo; um latrocínio! Um roubo seguido de morte.

Roubo de identidade, morte de alma.

Alma que não pensa.

Alma que rebate.

Que sente, reage.

Debaixo daquela água que nascia só Deus sabia onde, olhou para o corte da mão. E sorriu. Pois em meio aquele arroubo impensável, a alma tinha mesmo reagido. E antes onde era a homogeneidade sem-graça e falsamente tolerante, estava agora um risco de sua própria identidade.

Que reagiu.

E se alastrou.

Abraçou.

Alcançou a alma. Intensa, viva, pulsante como o sangue vermelho que nunca, nunca seria azul.

Foi para o espelho. O cabelo carapinho estava lá. E os olhos escuros e a pele da cor do tamarindo maduro. E os lábios… Ah, os lábios! Estes sorriram de lado. Prontos para ser o EU e deixar que os outros… Bom, apenas deixe os outros.

[CONTO] Roda da fortuna

broken-mirrorEstavam em silêncio desde que terminaram os cumprimentos triviais de “Boa-tarde; boa-tarde”. O terapeuta nem falou nada, nem questionou. Sequer instigou que seu paciente começasse a falar sobre os problemas que sempre lhe trazia. Havia dias que o silêncio era melhor do que esbravejar toda a complexidade que sufocava. Pelo visto, daquela vez seria cinquenta minutos de silêncio.

Faltavam dez minutos para a sessão terminar quando o rapaz se sentou. O terapeuta ergueu as sobrancelhas, vendo aquele movimento súbito de longas pernas sendo jogadas para fora do divã enquanto os olhos escuros e ansiosos se fixavam num ponto além da janela sem cortinas.

Ele aguardou, estranhando aquele movimento novo depois de dezessete sessões em que o paciente sempre ficou estirado no divã marrom-desbotado. No entanto, ao ver o paciente se erguer e ir até a janela como se sua vida dependesse disso, o silêncio não era mais o melhor remédio.

— O que aconteceu? — perguntou o terapeuta depois de mais minutos silenciosos.

— Era ela.

— Ela…?

— No vidro, eu vi. Tenho certeza…

Então era aquilo. O terapeuta suspirou internamente e voltou a se sentar (mal notara que também tinha se levantado em seu lapso curioso e nada profissional).

— Me explique como uma mulher pode estar no reflexo de um vidro.

— Ela continua presa. Entre os mundos, entende?

O terapeuta anotou algo no papel preso à prancheta.

— E o que você sente quando vê essa mulher?

— Sinto que não consigo alcançá-la. Mas de que deveria conseguir.

O terapeuta olhou para o relógio. Ainda restavam três minutos.

— Me sinto em um ciclo — continuou o paciente. — Como se estivesse preso numa roda que gira sem parar, fazendo com que eu volte sempre e sempre no mesmo princípio.

— E qual seria?

— De que, por mais que eu tente, não posso tocá-la por mais do que um instante. Não posso vê-la por mais do que um segundo. E quando percebo isso me sobe um amargo pela garganta, como veneno, que me sufoca. E depois vejo sangue em minhas mãos. Vejo o sangue dela em minhas mãos.

O terapeuta franziu o cenho.

— Você está citando Romeu e Julieta?

— O quê?

— Romeu pensa que Julieta morreu e toma um veneno. Mas a Julieta, que não estava morta, vê o homem que amava morto e se mata com um punhal.

Mas o paciente não o escutava mais. Estava concentrado em si mesmo. Ele precisava tanto de alguma coisa que lhe explicasse aquelas visões e sensações. Algo que lhe abrisse verdadeiramente os olhos. Por que sentia tudo aquilo. Por que se via em várias perspectivas, sob vários pontos de vista, porém com a gritante certeza de que continuava sempre a ser quem era. Nunca um ser diferente. Ainda assim…

Entre visões e sonhos misturados com uma racionalidade desesperadora, ele havia sido um sol que queima as flores do jardim orvalhadas. Um homem sentado num banco apreciando a maresia. Uma sombra que deixa apenas uma rosa branca de rastro.

Além de si mesmo, havia ela. A mulher sem rosto. Apenas um contorno que ele via nos reflexos, ou numa olhada de relance. Um rosto cheio de dor, de mágoa. Um rosto que lhe buscava há tanto tempo que o paciente se sentia velho, apesar da pouca idade. Sentia-se desgastado, mesmo na juventude. Sentia-se em dor, mesmo que nunca tivesse se ferido.
Sensações que o preenchiam, deixando um vazio inexplicável e que era esquecido apenas quando o rosto da mulher se mostrava naqueles instantes.

Um arrepio na nuca. Uma premonição. Não ouvia o que o terapeuta falava. Continuou a olhar pelo vidro, esperando e esperando…

Quando ela se mostrou daquela vez, estava mais nítida. Os olhos grandes e também ansiosos. Sedentos. Procurando! O rapaz encostou-se mais ainda contra a janela. Ele a sentiu deslizar como água por seus dedos. Sentiu o frio na barriga. E então o vento contra o rosto.

Atravessou. Estava em casa.

*

Da janela do consultório, o terapeuta gritou pela recepcionista.

— Ligue para a polícia! Teremos muita coisa pra explicar…

E enquanto esperava, não conseguiu desviar os olhos do paciente, estatelado, cinco andares abaixo, no chão da calçada.

Publicado originalmente em Enlaces Literários

[CONTO] Encadeamento

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Eu já estava acostumado à escuridão. A cada dia, mais e mais dela me envolvia em um redemoinho de dores e lembranças. Não adiantava tentar distrair-me com o agora ou o que poderia ser o amanhã. Nada, absolutamente nada, conseguia fazer esse redemoinho se acalmar a ponto de eu conseguir livrar-me dele. Mas, mais do que isso, eu não queria deixá-lo.

Livrar-me de minhas dores era o mesmo que me livrar das lembranças. E estar sequer um segundo sem pensar em tudo o que me moldara nos últimos tempos era o mesmo que esquecer-me de mim mesmo. Por isso eu usava o mesmo trajeto todas as manhãs, embora mal reparasse na orla da lagoa cheia de patos. Poucas vezes – bem raras, para falar a verdade – eu deslocava minha atenção para uma criança que gritava em surpresa quando via um peixe pular e fugir do anzol, ou quando ria até quase passar mal por ter um cachorro a lambendo mais do que a higiene poderia um dia permitir.

Esses rompantes de alegria alheia faziam a escuridão soltar um e outro dedo de mim. Mas logo eu me esquecia do mundo ao meu redor e seguia o caminho. E aquela manhã não seria diferente.

Alcancei o amontoado de pedras além da lagoa e dos risos meia hora depois, agradecendo a sorte por estar sozinho. Não, não era sorte. A sorte nunca sorrira para mim. Afinal, como algo inexistente pode sequer ter um rosto com lábios? A sorte não existia. Era algo inventado por pessoas que não aceitavam que seus próprios atos, e os de outrem, traziam consequências que às vezes você conseguia enfrentar. E outras vezes não conseguia.

Eram nestes momentos – momentos sem sorte, de azar, de infortúnios –, quando as consequências eram fortes e contrárias demais, que tudo se transformava em escuridão. Um imbecil que não verificara corretamente o carro que teve o volante travado por um instante; a mãe que deixou a criança adormecida no berço para ela mesma dormir, mas esquecendo que a janela que dava para a rua estava destrancada; a moça que, feliz demais para alcançar quem amava, atravessou a rua no momento em que um bêbado dirigia a toda velocidade. Para alguns, pessoas sem sorte. Para mim… Para mim eram apenas pessoas que não tomaram o cuidado de pensar antes agir.

Patrícia não tinha pensado. Doía cada parte de meu corpo, enchia de escuridão e morte cada centímetro de minha alma, raciocinar dessa maneira. Mas era a verdade. Ela não tinha pensado ao subir naquelas pedras, com seu joelho falho, levemente embriagada depois de uma noite inteira de vinho e sexo e risos. Mesmo que tivesse subido naquelas pedras, pela primeira vez, aos seis anos de idade.

Mas, naquela manhã, com o sol mal nascendo entre nuvens ainda carregadas da chuva da noite anterior, Patrícia não pensou. Não mediu as consequências. E quando eu vi sua mão deslizar depois do joelho falhar miseravelmente, soube imediatamente a consequência daquilo.

Não durou dois segundos a queda de quase três metros em direção àquela pedra lisa, arredondada, que Patrícia usou como primeiro degrau para o cume. Em minha mente, porém, eu via e revia aquela queda por longos minutos. Horas. Com a escuridão me envolvendo, me consumindo.

Ela não sofreu, tentou consolar o médico. Mas que consolo eu encontraria, enquanto a escuridão me sufocava, turvando minha visão para aquele mundo antes tão cheio de cores? Um mundo em que Patrícia ria enquanto bebia vinho comigo, enquanto ríamos na cama, nos amávamos, fazíamos promessas?

Os musgos tão comuns começavam a perder espaço para as flores, que cobriam tudo – chão, troncos, pedras –, e o cheiro ardeu meu nariz. Torci-o, não querendo espirrar. Elas tinham cheiro de morte. Vermelhas. Cinzas. Negras. Pisquei. Escuridão de novo, que engolfava, que sufocava. Olhei novamente para as flores, em desgosto, agora. Eu preferia as flores de plástico. Elas, ao menos, não morriam.

Publicado originalmente em Enlaces Literários 

Revivendo das férias com o conto "Revivente"

Não culpo nada (férias, viagens) e nem ninguém (amigos, cão, família). Só a mim mesma.

A culpa é minha letargia, ou apenas a preguiça de se levantar do sofá, sacudir tudo para longe e me sentar aqui, de frente ao computador. Ou talvez seja as férias, mesmo.. Aqueles trinta dias em que tudo sai da rotina, até mesmo o tempo que separamos para sentar em frente ao computador.

Ao menos revisei. E voltei a escrever. Me inscrevi. Estarei para ser lançada (quando, só a editora sabe…). Logo mais serão dois contos publicados em antologias deliciosas, e quem sabe a abertura para o tão querido romance (que, por sinal, já está pronto).

Mas enquanto isso não vem, e para voltar com a corda toda (na verdade, aproveitando uma maravilhosa corda já em uso), deixo aqui um dos contos que escrevo numa outra casa, onde estou enlaçando com outros autores e adorando o resultado.

Do blog Enlaces Literários:

REVIVENTE
Fonte: Ghosts n’Ghoul

Muitas vezes se utiliza a premissa da Lei de Murphy de maneira a se desculpar o que não consegue fazer por incompetência ou até preguiça. Ouço muito sobre ela em meu trabalho, seja na pobre prostituta assassinada por um cliente eternamente anônimo, seja no playboy que decidiu comprar drogas num beco deserto, ou até na dona de casa que estacionou numa rua escura, longe do mercado. Mas confesso que, ultimamente, tenho aceitado que ela é realmente uma lei. Que algo ruim vai acontecer, independentemente do que façamos ou deixemos de fazer. Se for para dar errado, vai dar errado. E da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível.

Olhando para a sujeira que tinha se espalhado através do tapete caro, percebi que tudo naquela casa cheirava a dinheiro e proteção. Sofás caros, tapetes felpudos, janelas com grades e vidros grossos, travas eletrônicas, alarme de segurança de ponta, vigias em guaritas e um casal de cães de guarda. Se alguém desejasse entrar ali para roubar mesmo que fosse uma das bonitas rosas amarelas do jardim dos fundos, pertinho do muro, teria sérios problemas. Além disso, aquela era uma casa que todos na cidade conheciam. Mesmo que não tivesse nenhum meio de segurança, seria considerado no mínimo burrice passar por ali. Logo, quando o chamado veio no início da manhã, todos na delegacia arregalaram os olhos. E não houve um que não desejasse chorar aos pés do delegado para pedir aquele caso. Todos queriam saber quem era o burro de extrema coragem.

— Esse caso é nosso. — Inácio tinha se encostado à mesa que eu ocupava na delegacia, mais cedo, e seus lábios mostravam um enorme e presunçoso sorriso. — A chata da Lethur que pegou o último — e indicou com um gesto a mulher de cabelos claros presos num alto rabo de cavalo que conversava com um homem da mesma altura que ela.

— Acho engraçado como você se refere a eles como um ser só. E no feminino — falei, também rindo.

— É ela quem manda, então… — Inácio deu de ombros e tirou das minhas mãos os papéis que eu tentava organizar em cima da mesa. — E a Letícia ainda está puta com o caso que sobrou pra ela.

— Foi o do hospital, né?

— É… Um imbecil fez o favor de matar um médico. Se fosse proposital, ela talvez, e digo talvez, não acentuasse aquela eterna TPM.

— Eu ouvi o Arthur falar sobre ter mais merda debaixo do tapete do que o motorista queria confessar.

— Não — Inácio despachou meu comentário com um gesto de descaso. — Foi só um acidente, mesmo.

— Para desespero da vaca. O quê? — retorqui quando Inácio arregalou os olhos em surpresa. — Devo chamá-la de princesa da Disney só porque sou mulher?

— Claro que não — ele então sorriu. — Só acho interessante você descer ao meu nível de grosseria direcionada. Mas deixe isso aí e a Lethur também. Vamos logo falar com o delegado, senão o querido doutor Borges esquece que é nossa vez.

Obviamente teve um debate na sala do delegado conduzido por Letícia, mas no fim eu e Inácio acabamos pegando o caso e corremos para a casa naquele bairro nobre. Dois carros da polícia guardavam a entrada principal do casarão; deixei que Inácio tratasse de receber o relatório deles e segui para dentro da casa. E o cenário nada bonito me fez repensar se era realmente sorte nossa ter aceitado um caso que qualquer um na delegacia choraria para ter.

Gargantas cortadas, pulsos marcados pelas amarras, sangue que escorreu como se aquela sala fosse um barracão para abate. A sensação de déjà vu era forte, mesmo que cada cena de crime tivesse sua própria arte. O velho patriarca estava sentado na poltrona maior, numa posição que mostrava que ele havia observado o massacre à sua família. Nem mesmo as crianças haviam sido poupadas. Eram três com pouco mais de dez anos, perto do piano; dois adolescentes perto da cozinha; a mulher sentada no sofá ao lado do marido, segurando um bebê envolto numa manta cor-de-rosa… Com o cenho franzido, me aproximei. A manta não envolvia coisa alguma.

— Todos mortos — Inácio falou, entrando na sala. Xingou alto ao ver como estava o cômodo.

— Não todos. — Virei-me para olhá-lo e indiquei a manta vazia. — Está faltando a menina.

— Mas o policial disse que todos morreram. Sem exceção.

— Então onde está a bebê?

Inácio começou a procurar pela menina perdida nos cômodos do térreo enquanto eu subi as escadas. O andar superior estava impecável com seu extenso corredor carregado de fotografias, tanto penduradas nas paredes quanto sobre aparadores. Um escritório cheio de livros, quartos imensos, três banheiros, dois lavabos… O quarto da bebê ficava no fim do corredor, cuja porta possuía uma placa com o nome “Alícia”.

O cômodo ainda cheirava a sabonete infantil, com um perfume suave de talco e fraldas limpas. Fazia parte de nosso trabalho não se apegar a nada disso, mas foi impossível não sentir um início de revolta querer me queimar o peito. Vidas tiradas abruptamente. Mais uma vez, a sensação de déjà vu. Talvez pela crueldade, talvez pelo cheiro de talco. Não soube determinar, exatamente.

Havia uma janela que dava para a rua, na qual mosaicos coloridos formavam a imagem de Nossa Senhora. Abaixo dela tinha um baú, em cuja tampa estava um pedaço de papel cuidadosamente dobrado. Retirei o par de luvas do bolso da calça jeans e as coloquei antes de manusear a carta. A letra era redonda, bem feita. E as palavras, mesmo poucas, eram perturbadoras. E comecei, honestamente, a me preocupar com a sensação de déjà vu que insistia em se manter.

Todos nascem inocentes, mas se corrompem com facilidade.
Buscar a paz através do sangue é uma medida extrema, mas às vezes necessária. O velho usou muitas famílias, e quando foi a vez da minha, fui obrigado a usar a dele. Então justiça foi feita. Mesmo nos menores. Mesmo nas crianças ainda inocentes. Afinal, os inocentes se corrompem com facilidade.
E você? Também se corrompe?

Imaginei que a carta deixada em cima do baú demonstrava que eu precisava abri-lo, então o fiz devagar. Dentro dele havia fotos. Fotos de uma criança estranha àquela casa que eu investigava. Uma criança que eu pensei estar morta; que me disseram estar morta. Meus joelhos cederam e minhas mãos tremiam à medida que passava foto a foto, vendo como o menino tinha se desenvolvido nos últimos cinco anos. Até que eu alcancei a última foto. Alcancei o rosto sem vida do menino. Alcancei o responsável pelo que lhe havia acontecido. Foi quando senti o peso das palavras escritas na carta.

O som da porta atrás de mim me despertou do transe que eu havia entrado.

— Encontramos a menina no quarto da empregada. Infelizmente estava morta, também.

Era Inácio. Foi estranho ouvir sua voz. Parecia deturpada, não pertencente a ele.

— Sara? — ele chamou.

Quando as coisas vão dar errado, não importa o que a gente faça. Vão dar errado, e da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior – e talvez irremediável – dano possível. E tudo naquela casa, no assassinato da família de um traficante de armas, nas fotos dentro de um baú cor-de-rosa sob a proteção de Nossa Senhora, tinha levado para o apogeu do desastre.

— Foi você — murmurei.

— O quê?

— Foi você — repeti, e voltei para encarar Inácio ao mesmo tempo em que retirava a arma do coldre e a apontava para ele. — Foi você!

— Sara, se acalme. Do que você está falando? — ele perguntou, tão falsamente desorientado que meu dedo pesou no gatilho. Eu sabia que ele era falso. A foto mostrava claramente. Tinha sido ele. Depois de tanto tempo fingindo ser meu amigo, tinha sido ele!

— Da droga das suas mentiras! — gritei. — Mas era você o tempo todo. Era você, era… Você me ajudou! Você esteve ao meu lado quando eu o enterrei, quando não o reconheci, quando tudo o que sobrou era o chaveiro de plástico com o sangue dele, e agora…

— Sara, por favor — ele pediu, ousando se aproximar de mim, e eu reagi prontamente.

— Não se mexa, seu desgraçado! Você o matou. Foi você…

Os pedaços que eu havia juntado nos últimos anos se desfizeram novamente, e para que Inácio parasse de tentar mentir, joguei a foto aos pés dele. A foto em que ele se divertia com o corpo sem vida do meu filho.

— Confessa. Anda, confessa!

— Sara, não fui eu, você sabe que não fui eu. Isso é uma montagem, precisa acreditar em mim!

— Olha a data da foto. — Voltei para o baú e peguei as outras fotos, atirando-as nele. — Olha a droga das datas! Sempre nas suas férias, sempre nos feriados. Sempre que você estava fora da cidade, Inácio. Confessa!

Meu dedo pesou ainda mais e o revólver disparou sem que eu me desse conta. Por ter sido pego desprevenido e estar muito perto, Inácio caiu, seu ombro esquerdo banhando-se de sangue de imediato.

— Sara, pelo amor de Deus! Olhe direito, é montagem e…

— Não! — Depois do primeiro tiro, foi mais fácil dar o segundo na coxa dele. Ouvi-lo gritar de dor acabou comigo, mas também me deu um prazer que nunca senti antes. Era justiça. Era sangue sendo pago com sangue! Sabia que precisava terminar aquilo logo, antes que os policiais que estavam no andar de baixo nos alcançassem. Caso isso acontecesse, eu não teria minha justiça. — Não é montagem, você sabe disso.

Então o desespero desapareceu dos olhos de Inácio, dando lugar ao deboche, e um esgar de lábios tomou sua expressão. Enquanto a postura defensiva também o abandonava, o rosto dele começou a mudar. Barba cresceu no rosto liso, o nariz se alargou e os cabelos escuros ficaram de um loiro sujo.

— Sim, eu o matei. — A voz era rouca e baixa, carregada de malícia e crueldade. — E vou continuar a matá-lo repetidas vezes, pois é isso que você quer. É isso que você busca!

Meus olhos foram para as fotos caídas no chão e vi ali o mesmo rosto que estava na minha frente misturar-se às fotos de Inácio.

O que eu estava vivendo não era déjà vu. Era simplesmente algo que eu tinha escolhido vivenciar. Repetidamente. Mas mesmo que fosse apenas em minha mente, não deixava de ser verdade.

— Não! Não! — Meu grito ecoou repetidas vezes enquanto eu lhe descarregava a arma, mas dessa vez o assassino continuava a se aproximar de mim, seu olhar preso no meu, não importando que os tiros lhe acertassem nas pernas, no peito, no rosto…

E então tudo se transformou em escuridão.

Quando ouvi a voz de Inácio novamente, eu estava deitada. As paredes brancas voltaram ao meu campo de visão; paredes de um hospital. Tentei mexer os braços, porém eles estavam presos. Era para minha própria segurança, como a enfermeira havia dito tantas e tantas vezes.

— Como ela está hoje?

— Teve outro surto, seu Inácio — disse o médico.

— Por que isso está acontecendo mesmo depois de tantos meses? — Inácio retorquiu, e havia tanto pesar na voz dele que eu desejei virar meu rosto para olhá-lo, dizer que estava tudo bem. Que não haviam sido os surtos que me colocaram naquele hospital psiquiátrico, mas encontrar no assassino do traficante de armas o mesmo assassino sanguinário de meu pequeno Tiago.

— O trauma foi muito grande e, como o senhor sabe, cada mente responde à tragédia a sua maneira. Além disso, com o assassino do Tiago ainda solto, ela revive aquele dia como se fosse capaz de ter feito o que era preciso. Tentando arrumar uma possível falha.

A porta do quarto abriu um pouco mais, e quando percebi que Inácio estava ao meu lado, sem sinal do médico, abri os olhos para ele. A aparência dele estava horrível. Olheiras, barba por fazer, rosto encovado. Não havia mais tipoia no braço; o tiro que eu tinha lhe dado, meses atrás, havia curado. Mas minha culpa continuava tão forte quanto naquela época em que ousei duvidar de meu amigo.

— Você precisa se cuidar — sussurrei; minha garganta estava horrivelmente seca.

— Eu o peguei.

Sustei a respiração por alguns segundos. Então alívio, dor, desespero, alegria se misturaram em mim num luto que durava uma eternidade e que se repetia dia após dia. Inácio soltou as amarras de meus pulsos e me abraçou. Retribuí o gesto com tanta força, que não sabia que era capaz de tanto. O peso do mundo saiu de meus ombros, e apenas o pesar continuava em meu peito, que tentava manter minha alma despedaçada onde devia, mas não estava. Ela sentia ganas de se livrar de tudo aquilo.

— Obrigada — murmurei. Dei um leve beijo nos lábios de meu tão amado amigo e o olhei com todo o amor que ainda continuava vivo dentro de mim.

— Você precisa descansar.

— Eu vou. Finalmente, eu vou. Obrigada, Inácio.

Ele sorriu fracamente e saiu do quarto. Antes que ele fechasse a porta atrás de si, eu o chamei.

— Eu amo você. Sabe disso, não sabe?

— Claro que sei, Sara. — O sorriso dele melhorou um pouco e vi a vitalidade voltar naquele rosto cansado. — Espero você aqui fora.

Assim que ele fechou a porta, eu olhei para meus pulsos livres. Depois olhei o corredor do hospital através da janela de vidro; nenhuma enfermeira, nenhum médico. Libertada e sem testemunhas para impedir o que eu queria fazer, tirei as outras amarras e saí da cama. O chão do hospital era gelado, e fazia tanto tempo que eu não ficava de pé que quase caí, batendo o cotovelo na cama antes de me segurar. Senti a dor, mas foi algo insignificante. Afinal, um moribundo não sente dor. Sem muita pressa, retirei os lençóis do colchão e fui para o banheiro.

Meus movimentos fluíram com facilidade, amarrando os lençóis ao cano do chuveiro como seu eu fosse uma expert. Talvez eu o fosse, já que tinha passado este momento repetidas vezes na minha mente. Com tudo pronto, tive apenas um lapso de generosidade. Então, voltei para o armário da pia, peguei a pasta de dente e escrevi no espelho. Inácio precisaria ler aquilo. De maneira nenhuma ele deveria se sentir culpado pelo que apenas eu era capaz de escolher. E as palavras que deixei para Inácio – de que eu e Tiago o esperaríamos e o encontraríamos do outro lado, quando fosse a hora certa – foi a última coisa que vi antes que a morte me tomasse. Pela última vez.

[CONTO] A morte que me entra nas brancas

 

Fonte: Google Imagens

Morrer não me é mais novidade. Já aconteceu tantas vezes, que parei de contar. No entanto, até mesmo na rotina há seus altos e baixos. Logo, se você me perguntasse quais mortes eu me lembro à perfeição, eu conseguiria te falar de algumas.

Principio do clichê de que a primeira vez a gente nunca esquece. E a primeira vez foi ao nascer. Foi naqueles segundos contados, na hora marcada, no peso medido, no tamanho passado. Eu chorei e fiz chorar, mordi e fiz sorrir. Num mundo embaçado, onde só o cheiro metálico e estéril e o calor de um corpo me eram percebidos, foi estranho morrer com a música suave que ela insistia em entoar. Mas eu me apeguei, me derreti, me deixei levar naquelas singelas palavras que, mesmo sem entender, eram as mais bonitas que uma criança poderia ouvir. Até que só restou o silêncio cortado por um choro convulsivo de mãe e a típica frase dos médicos “Fizemos o que podíamos”.

Então eu morri de novo. E dessa vez foi em meio a risos cruéis, a palavras de malícia, num cinzento corredor pintado de amarelo desbotado e decorado com cartazes de arco-íris e flores que tentavam retratar uma primavera sangrenta de Segunda Guerra. Preferia ter morrido como da primeira vez, quando vozes suaves e palavras bonitas eram ditas sussurradas. E não no meio de uma noite de chuva, com relâmpagos que mal mostravam o rosto de quem me chutava, martelava, cuspia, maldizia.

Na última vez que morri, foi somente um disparo. Um estalido tão imediato quanto o calor dolorido que me atravessou o peito, e me deixou sem ar por alguns segundos. Sequer senti o chão duro da calçada ou o fedor da enorme lixeira que avizinhava o restaurante italiano.

Fonte: Google Imagens

Agora estou prestes a morrer de novo. Dessa vez sobre uma pedra lisa, com cantos suaves sendo entoados à lua, às fadas, ao demônio, a uma divindade que eu mal sabia existir, mas que para ele é uma justificativa para sua mente insana que beira à psicopatia. Dessa vez eu morro nua, sob efeito de algo que me deu para beber, e sei que, quando ele me navalhar, não sentirei nada.

E quando a página virar, não existirei mais. E precisarei encontrar um outro livro para que possa morrer mais uma vez. Até lá, somente existirá as páginas em branco que a realidade insiste em colocar no meio do caminho de uma rotina cinzenta e corrida.

[Conto] A BUSCA PELO IMPOSSÍVEL – Parte III

A busca pelo impossível é um conto dividido em três partes.

A primeira é O beijo da aurora (leia aqui).
A segunda é Lágrimas do entardecer (leia aqui).

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Imagem: Google


NOS BRAÇOS DA NOITE

“Deixem reinar a liberdade.

O Sol nunca se põe em tal façanha humana.”
– Nelson Mandela –

O infinito negro os abraçou junto da brisa gelada. De um extremo do deserto que recebia seus primeiros mortos, estava Fenice. A espada estava em riste, defendendo-se de uma serpente de fogo que usava a enorme cauda para feri-la. Os espinhos venenosos passaram a milímetros de seu braço. Aquela era a segunda vez que permitia essa proximidade, e recebeu uma reprimenda de um anjo ao seu lado. No entanto, a cada vez que deixava Gregório, tornava-se difícil matar um de sua espécie. As marcas por todo seu corpo eram a prova disso, e sabia que com Gregório era o mesmo.

Ambos procuravam isolar-se com seus inimigos, incapacitando-os pelo resto da noite para que, na aurora, seus respectivos amigos os encontrassem e cuidassem deles. Mas apenas para que voltassem ao campo de batalha na próxima lua. Era um jogo perigoso, pois isso poderia matá-los.

Ao ter a boca da serpente de fogo próxima, Fenice voou, batendo as asas com violência e levantando poeira. A serpente de fogo piscou várias vezes, cega naquele momento, e Fenice aproveitou, passando a espada na asa da criatura de maneira que não tocasse em suas articulações. Apenas pele, que cicatrizaria dentro de bons dias. Depois, utilizando o punho da espada, próprio para ela com suas pedras que aumentavam a magia dos anjos, desacordou a fera. Estava distanciando quando o mesmo anjo que lhe chamara a atenção agora a segurava pelo braço.

— Termine — ele disse, a voz rouca e fria.

Fenice olhou para a fera desacordada. Negra como Gregório, mas as linhas não eram vermelhas, e sim amareladas. Fenice não ousou olhar para o outro anjo. Afinal, ela não poderia hesitar. E, se o fizesse, levantaria perguntas que não estava disposta a responder. Sentiu que seu coração sairia pela boca quando atravessou a garganta da serpente com sua lâmina. Somente depois voltou seu olhar para o anjo, mas ele já tinha ido embora. E Fenice se impediu de vomitar.

Dizer que a noite seguiu como todas as outras seria um insulto da pior espécie. As noites nunca eram iguais. A sede de sangue dos guerreiros sempre aumentava. A dor se intensificava. E a sensação de injustiça e impotência crescia em cada pedaço de alma, tanto dos anjos quanto das serpentes de fogo. Se é que pudesse dizer que ambas as criaturas possuíam alma com o banho de sangue que se formava naquele deserto.

Daquela vez, quando a aurora chegou, Fenice não correu para Gregório. Seu coração pesava pelas mortes que fora obrigada a cometer. Sentia-se suja, empesteada por algo que nunca a deixaria. E soube que Gregório sentia o mesmo quando o viu, já ao meio da manhã, na mesma igreja abandonada.

— Meu irmão — ele murmurou no ouvido de Fenice quando a abraçou forte. Ela sentiu sua pele queimar pelas lágrimas da serpente de fogo que aprendeu a amar com todo seu ser. E quando Gregório começou a contar do caçula de sua família, um garoto cheio de coragem e impetuoso, que se orgulhava das listras que lhe cobriam o couro negro, Fenice soube que havia sido ela a responsável pela tristeza dele.

— Me perdoe — pediu, sentindo as próprias lágrimas queimarem-lhe o rosto junto da vergonha e da dor que via naqueles olhos que tanto amava.

Mas Gregório não se afastou como ela pensou que ele faria. Ele não tinha forças. Amava Fenice demais para odiá-la, para jogar nela uma culpa que transcendia aos dois. Ele também havia matado pessoas que ela amava, que eram importantes para ela. Tanto antes, quanto depois de se conhecerem. Eles eram apenas peões em um joguete cruel. Criaturas afastadas por um abismo de dor. E, naquele momento, Gregório soube o que precisava fazer.

Retirou devagar as armas de Fenice. Depois a couraça que lhe protegia o tronco, as botas e as calças, deixando-a nua à sua frente. E pediu que ela o despisse completamente. Pele contra pele, Gregório a abraçou, sentindo o calor de Fenice contra si, a força do coração dela batendo enquanto ela percebia o seu. Com olhos sem lágrimas, encarou-a, buscando nas íris negras a recepção que ele tanto precisava.

Fazer amor daquela vez foi diferente de todas as outras vezes. A entrega foi maior, o pedido, mais dolorido, e a busca, implacável. Era o entendimento sem palavras, o dizer em gestos; a pergunta que eles tanto temiam sendo formulada em meio ao prazer, à necessidade.

Com as pernas entrelaçadas e as respirações finalmente tranquilas, eles adormeceram. E ao despertaram no meio da tarde, repetiram a pergunta um ao outro, dessa vez verbalizando, ousando trazer à luz o que sempre havia sido um tabu. Mas a decisão continuava a mesma, apesar de tudo o que poderia acontecer.

A noite então veio, fria, e os flocos de neve que enchiam a rua daquela cidade do norte do mundo terreno parecia abençoá-los. Mas nem Fenice ou Gregório se incomodaram em deixar aquela igreja abandonada. Afinal, precisavam pensar em coisas mais importantes do que numa guerra que nunca alcançaria seu final. Precisavam buscar o impossível. E aprender coisas que a guerra não ensinava. Como, por exemplo, construir uma casa no sopé de uma montanha. E, quem sabe, se o destino fosse bom, aprender a como criar quatro crianças sem a sombra da morte.

~* FIM *~