Revivendo das férias com o conto "Revivente"

Não culpo nada (férias, viagens) e nem ninguém (amigos, cão, família). Só a mim mesma.

A culpa é minha letargia, ou apenas a preguiça de se levantar do sofá, sacudir tudo para longe e me sentar aqui, de frente ao computador. Ou talvez seja as férias, mesmo.. Aqueles trinta dias em que tudo sai da rotina, até mesmo o tempo que separamos para sentar em frente ao computador.

Ao menos revisei. E voltei a escrever. Me inscrevi. Estarei para ser lançada (quando, só a editora sabe…). Logo mais serão dois contos publicados em antologias deliciosas, e quem sabe a abertura para o tão querido romance (que, por sinal, já está pronto).

Mas enquanto isso não vem, e para voltar com a corda toda (na verdade, aproveitando uma maravilhosa corda já em uso), deixo aqui um dos contos que escrevo numa outra casa, onde estou enlaçando com outros autores e adorando o resultado.

Do blog Enlaces Literários:

REVIVENTE
Fonte: Ghosts n’Ghoul

Muitas vezes se utiliza a premissa da Lei de Murphy de maneira a se desculpar o que não consegue fazer por incompetência ou até preguiça. Ouço muito sobre ela em meu trabalho, seja na pobre prostituta assassinada por um cliente eternamente anônimo, seja no playboy que decidiu comprar drogas num beco deserto, ou até na dona de casa que estacionou numa rua escura, longe do mercado. Mas confesso que, ultimamente, tenho aceitado que ela é realmente uma lei. Que algo ruim vai acontecer, independentemente do que façamos ou deixemos de fazer. Se for para dar errado, vai dar errado. E da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível.

Olhando para a sujeira que tinha se espalhado através do tapete caro, percebi que tudo naquela casa cheirava a dinheiro e proteção. Sofás caros, tapetes felpudos, janelas com grades e vidros grossos, travas eletrônicas, alarme de segurança de ponta, vigias em guaritas e um casal de cães de guarda. Se alguém desejasse entrar ali para roubar mesmo que fosse uma das bonitas rosas amarelas do jardim dos fundos, pertinho do muro, teria sérios problemas. Além disso, aquela era uma casa que todos na cidade conheciam. Mesmo que não tivesse nenhum meio de segurança, seria considerado no mínimo burrice passar por ali. Logo, quando o chamado veio no início da manhã, todos na delegacia arregalaram os olhos. E não houve um que não desejasse chorar aos pés do delegado para pedir aquele caso. Todos queriam saber quem era o burro de extrema coragem.

— Esse caso é nosso. — Inácio tinha se encostado à mesa que eu ocupava na delegacia, mais cedo, e seus lábios mostravam um enorme e presunçoso sorriso. — A chata da Lethur que pegou o último — e indicou com um gesto a mulher de cabelos claros presos num alto rabo de cavalo que conversava com um homem da mesma altura que ela.

— Acho engraçado como você se refere a eles como um ser só. E no feminino — falei, também rindo.

— É ela quem manda, então… — Inácio deu de ombros e tirou das minhas mãos os papéis que eu tentava organizar em cima da mesa. — E a Letícia ainda está puta com o caso que sobrou pra ela.

— Foi o do hospital, né?

— É… Um imbecil fez o favor de matar um médico. Se fosse proposital, ela talvez, e digo talvez, não acentuasse aquela eterna TPM.

— Eu ouvi o Arthur falar sobre ter mais merda debaixo do tapete do que o motorista queria confessar.

— Não — Inácio despachou meu comentário com um gesto de descaso. — Foi só um acidente, mesmo.

— Para desespero da vaca. O quê? — retorqui quando Inácio arregalou os olhos em surpresa. — Devo chamá-la de princesa da Disney só porque sou mulher?

— Claro que não — ele então sorriu. — Só acho interessante você descer ao meu nível de grosseria direcionada. Mas deixe isso aí e a Lethur também. Vamos logo falar com o delegado, senão o querido doutor Borges esquece que é nossa vez.

Obviamente teve um debate na sala do delegado conduzido por Letícia, mas no fim eu e Inácio acabamos pegando o caso e corremos para a casa naquele bairro nobre. Dois carros da polícia guardavam a entrada principal do casarão; deixei que Inácio tratasse de receber o relatório deles e segui para dentro da casa. E o cenário nada bonito me fez repensar se era realmente sorte nossa ter aceitado um caso que qualquer um na delegacia choraria para ter.

Gargantas cortadas, pulsos marcados pelas amarras, sangue que escorreu como se aquela sala fosse um barracão para abate. A sensação de déjà vu era forte, mesmo que cada cena de crime tivesse sua própria arte. O velho patriarca estava sentado na poltrona maior, numa posição que mostrava que ele havia observado o massacre à sua família. Nem mesmo as crianças haviam sido poupadas. Eram três com pouco mais de dez anos, perto do piano; dois adolescentes perto da cozinha; a mulher sentada no sofá ao lado do marido, segurando um bebê envolto numa manta cor-de-rosa… Com o cenho franzido, me aproximei. A manta não envolvia coisa alguma.

— Todos mortos — Inácio falou, entrando na sala. Xingou alto ao ver como estava o cômodo.

— Não todos. — Virei-me para olhá-lo e indiquei a manta vazia. — Está faltando a menina.

— Mas o policial disse que todos morreram. Sem exceção.

— Então onde está a bebê?

Inácio começou a procurar pela menina perdida nos cômodos do térreo enquanto eu subi as escadas. O andar superior estava impecável com seu extenso corredor carregado de fotografias, tanto penduradas nas paredes quanto sobre aparadores. Um escritório cheio de livros, quartos imensos, três banheiros, dois lavabos… O quarto da bebê ficava no fim do corredor, cuja porta possuía uma placa com o nome “Alícia”.

O cômodo ainda cheirava a sabonete infantil, com um perfume suave de talco e fraldas limpas. Fazia parte de nosso trabalho não se apegar a nada disso, mas foi impossível não sentir um início de revolta querer me queimar o peito. Vidas tiradas abruptamente. Mais uma vez, a sensação de déjà vu. Talvez pela crueldade, talvez pelo cheiro de talco. Não soube determinar, exatamente.

Havia uma janela que dava para a rua, na qual mosaicos coloridos formavam a imagem de Nossa Senhora. Abaixo dela tinha um baú, em cuja tampa estava um pedaço de papel cuidadosamente dobrado. Retirei o par de luvas do bolso da calça jeans e as coloquei antes de manusear a carta. A letra era redonda, bem feita. E as palavras, mesmo poucas, eram perturbadoras. E comecei, honestamente, a me preocupar com a sensação de déjà vu que insistia em se manter.

Todos nascem inocentes, mas se corrompem com facilidade.
Buscar a paz através do sangue é uma medida extrema, mas às vezes necessária. O velho usou muitas famílias, e quando foi a vez da minha, fui obrigado a usar a dele. Então justiça foi feita. Mesmo nos menores. Mesmo nas crianças ainda inocentes. Afinal, os inocentes se corrompem com facilidade.
E você? Também se corrompe?

Imaginei que a carta deixada em cima do baú demonstrava que eu precisava abri-lo, então o fiz devagar. Dentro dele havia fotos. Fotos de uma criança estranha àquela casa que eu investigava. Uma criança que eu pensei estar morta; que me disseram estar morta. Meus joelhos cederam e minhas mãos tremiam à medida que passava foto a foto, vendo como o menino tinha se desenvolvido nos últimos cinco anos. Até que eu alcancei a última foto. Alcancei o rosto sem vida do menino. Alcancei o responsável pelo que lhe havia acontecido. Foi quando senti o peso das palavras escritas na carta.

O som da porta atrás de mim me despertou do transe que eu havia entrado.

— Encontramos a menina no quarto da empregada. Infelizmente estava morta, também.

Era Inácio. Foi estranho ouvir sua voz. Parecia deturpada, não pertencente a ele.

— Sara? — ele chamou.

Quando as coisas vão dar errado, não importa o que a gente faça. Vão dar errado, e da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior – e talvez irremediável – dano possível. E tudo naquela casa, no assassinato da família de um traficante de armas, nas fotos dentro de um baú cor-de-rosa sob a proteção de Nossa Senhora, tinha levado para o apogeu do desastre.

— Foi você — murmurei.

— O quê?

— Foi você — repeti, e voltei para encarar Inácio ao mesmo tempo em que retirava a arma do coldre e a apontava para ele. — Foi você!

— Sara, se acalme. Do que você está falando? — ele perguntou, tão falsamente desorientado que meu dedo pesou no gatilho. Eu sabia que ele era falso. A foto mostrava claramente. Tinha sido ele. Depois de tanto tempo fingindo ser meu amigo, tinha sido ele!

— Da droga das suas mentiras! — gritei. — Mas era você o tempo todo. Era você, era… Você me ajudou! Você esteve ao meu lado quando eu o enterrei, quando não o reconheci, quando tudo o que sobrou era o chaveiro de plástico com o sangue dele, e agora…

— Sara, por favor — ele pediu, ousando se aproximar de mim, e eu reagi prontamente.

— Não se mexa, seu desgraçado! Você o matou. Foi você…

Os pedaços que eu havia juntado nos últimos anos se desfizeram novamente, e para que Inácio parasse de tentar mentir, joguei a foto aos pés dele. A foto em que ele se divertia com o corpo sem vida do meu filho.

— Confessa. Anda, confessa!

— Sara, não fui eu, você sabe que não fui eu. Isso é uma montagem, precisa acreditar em mim!

— Olha a data da foto. — Voltei para o baú e peguei as outras fotos, atirando-as nele. — Olha a droga das datas! Sempre nas suas férias, sempre nos feriados. Sempre que você estava fora da cidade, Inácio. Confessa!

Meu dedo pesou ainda mais e o revólver disparou sem que eu me desse conta. Por ter sido pego desprevenido e estar muito perto, Inácio caiu, seu ombro esquerdo banhando-se de sangue de imediato.

— Sara, pelo amor de Deus! Olhe direito, é montagem e…

— Não! — Depois do primeiro tiro, foi mais fácil dar o segundo na coxa dele. Ouvi-lo gritar de dor acabou comigo, mas também me deu um prazer que nunca senti antes. Era justiça. Era sangue sendo pago com sangue! Sabia que precisava terminar aquilo logo, antes que os policiais que estavam no andar de baixo nos alcançassem. Caso isso acontecesse, eu não teria minha justiça. — Não é montagem, você sabe disso.

Então o desespero desapareceu dos olhos de Inácio, dando lugar ao deboche, e um esgar de lábios tomou sua expressão. Enquanto a postura defensiva também o abandonava, o rosto dele começou a mudar. Barba cresceu no rosto liso, o nariz se alargou e os cabelos escuros ficaram de um loiro sujo.

— Sim, eu o matei. — A voz era rouca e baixa, carregada de malícia e crueldade. — E vou continuar a matá-lo repetidas vezes, pois é isso que você quer. É isso que você busca!

Meus olhos foram para as fotos caídas no chão e vi ali o mesmo rosto que estava na minha frente misturar-se às fotos de Inácio.

O que eu estava vivendo não era déjà vu. Era simplesmente algo que eu tinha escolhido vivenciar. Repetidamente. Mas mesmo que fosse apenas em minha mente, não deixava de ser verdade.

— Não! Não! — Meu grito ecoou repetidas vezes enquanto eu lhe descarregava a arma, mas dessa vez o assassino continuava a se aproximar de mim, seu olhar preso no meu, não importando que os tiros lhe acertassem nas pernas, no peito, no rosto…

E então tudo se transformou em escuridão.

Quando ouvi a voz de Inácio novamente, eu estava deitada. As paredes brancas voltaram ao meu campo de visão; paredes de um hospital. Tentei mexer os braços, porém eles estavam presos. Era para minha própria segurança, como a enfermeira havia dito tantas e tantas vezes.

— Como ela está hoje?

— Teve outro surto, seu Inácio — disse o médico.

— Por que isso está acontecendo mesmo depois de tantos meses? — Inácio retorquiu, e havia tanto pesar na voz dele que eu desejei virar meu rosto para olhá-lo, dizer que estava tudo bem. Que não haviam sido os surtos que me colocaram naquele hospital psiquiátrico, mas encontrar no assassino do traficante de armas o mesmo assassino sanguinário de meu pequeno Tiago.

— O trauma foi muito grande e, como o senhor sabe, cada mente responde à tragédia a sua maneira. Além disso, com o assassino do Tiago ainda solto, ela revive aquele dia como se fosse capaz de ter feito o que era preciso. Tentando arrumar uma possível falha.

A porta do quarto abriu um pouco mais, e quando percebi que Inácio estava ao meu lado, sem sinal do médico, abri os olhos para ele. A aparência dele estava horrível. Olheiras, barba por fazer, rosto encovado. Não havia mais tipoia no braço; o tiro que eu tinha lhe dado, meses atrás, havia curado. Mas minha culpa continuava tão forte quanto naquela época em que ousei duvidar de meu amigo.

— Você precisa se cuidar — sussurrei; minha garganta estava horrivelmente seca.

— Eu o peguei.

Sustei a respiração por alguns segundos. Então alívio, dor, desespero, alegria se misturaram em mim num luto que durava uma eternidade e que se repetia dia após dia. Inácio soltou as amarras de meus pulsos e me abraçou. Retribuí o gesto com tanta força, que não sabia que era capaz de tanto. O peso do mundo saiu de meus ombros, e apenas o pesar continuava em meu peito, que tentava manter minha alma despedaçada onde devia, mas não estava. Ela sentia ganas de se livrar de tudo aquilo.

— Obrigada — murmurei. Dei um leve beijo nos lábios de meu tão amado amigo e o olhei com todo o amor que ainda continuava vivo dentro de mim.

— Você precisa descansar.

— Eu vou. Finalmente, eu vou. Obrigada, Inácio.

Ele sorriu fracamente e saiu do quarto. Antes que ele fechasse a porta atrás de si, eu o chamei.

— Eu amo você. Sabe disso, não sabe?

— Claro que sei, Sara. — O sorriso dele melhorou um pouco e vi a vitalidade voltar naquele rosto cansado. — Espero você aqui fora.

Assim que ele fechou a porta, eu olhei para meus pulsos livres. Depois olhei o corredor do hospital através da janela de vidro; nenhuma enfermeira, nenhum médico. Libertada e sem testemunhas para impedir o que eu queria fazer, tirei as outras amarras e saí da cama. O chão do hospital era gelado, e fazia tanto tempo que eu não ficava de pé que quase caí, batendo o cotovelo na cama antes de me segurar. Senti a dor, mas foi algo insignificante. Afinal, um moribundo não sente dor. Sem muita pressa, retirei os lençóis do colchão e fui para o banheiro.

Meus movimentos fluíram com facilidade, amarrando os lençóis ao cano do chuveiro como seu eu fosse uma expert. Talvez eu o fosse, já que tinha passado este momento repetidas vezes na minha mente. Com tudo pronto, tive apenas um lapso de generosidade. Então, voltei para o armário da pia, peguei a pasta de dente e escrevi no espelho. Inácio precisaria ler aquilo. De maneira nenhuma ele deveria se sentir culpado pelo que apenas eu era capaz de escolher. E as palavras que deixei para Inácio – de que eu e Tiago o esperaríamos e o encontraríamos do outro lado, quando fosse a hora certa – foi a última coisa que vi antes que a morte me tomasse. Pela última vez.

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