[CONTO] A morte que me entra nas brancas

 

Fonte: Google Imagens

Morrer não me é mais novidade. Já aconteceu tantas vezes, que parei de contar. No entanto, até mesmo na rotina há seus altos e baixos. Logo, se você me perguntasse quais mortes eu me lembro à perfeição, eu conseguiria te falar de algumas.

Principio do clichê de que a primeira vez a gente nunca esquece. E a primeira vez foi ao nascer. Foi naqueles segundos contados, na hora marcada, no peso medido, no tamanho passado. Eu chorei e fiz chorar, mordi e fiz sorrir. Num mundo embaçado, onde só o cheiro metálico e estéril e o calor de um corpo me eram percebidos, foi estranho morrer com a música suave que ela insistia em entoar. Mas eu me apeguei, me derreti, me deixei levar naquelas singelas palavras que, mesmo sem entender, eram as mais bonitas que uma criança poderia ouvir. Até que só restou o silêncio cortado por um choro convulsivo de mãe e a típica frase dos médicos “Fizemos o que podíamos”.

Então eu morri de novo. E dessa vez foi em meio a risos cruéis, a palavras de malícia, num cinzento corredor pintado de amarelo desbotado e decorado com cartazes de arco-íris e flores que tentavam retratar uma primavera sangrenta de Segunda Guerra. Preferia ter morrido como da primeira vez, quando vozes suaves e palavras bonitas eram ditas sussurradas. E não no meio de uma noite de chuva, com relâmpagos que mal mostravam o rosto de quem me chutava, martelava, cuspia, maldizia.

Na última vez que morri, foi somente um disparo. Um estalido tão imediato quanto o calor dolorido que me atravessou o peito, e me deixou sem ar por alguns segundos. Sequer senti o chão duro da calçada ou o fedor da enorme lixeira que avizinhava o restaurante italiano.

Fonte: Google Imagens

Agora estou prestes a morrer de novo. Dessa vez sobre uma pedra lisa, com cantos suaves sendo entoados à lua, às fadas, ao demônio, a uma divindade que eu mal sabia existir, mas que para ele é uma justificativa para sua mente insana que beira à psicopatia. Dessa vez eu morro nua, sob efeito de algo que me deu para beber, e sei que, quando ele me navalhar, não sentirei nada.

E quando a página virar, não existirei mais. E precisarei encontrar um outro livro para que possa morrer mais uma vez. Até lá, somente existirá as páginas em branco que a realidade insiste em colocar no meio do caminho de uma rotina cinzenta e corrida.

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