[Conto] A BUSCA PELO IMPOSSÍVEL – Parte III

A busca pelo impossível é um conto dividido em três partes.

A primeira é O beijo da aurora (leia aqui).
A segunda é Lágrimas do entardecer (leia aqui).

~*~*~

Imagem: Google


NOS BRAÇOS DA NOITE

“Deixem reinar a liberdade.

O Sol nunca se põe em tal façanha humana.”
– Nelson Mandela –

O infinito negro os abraçou junto da brisa gelada. De um extremo do deserto que recebia seus primeiros mortos, estava Fenice. A espada estava em riste, defendendo-se de uma serpente de fogo que usava a enorme cauda para feri-la. Os espinhos venenosos passaram a milímetros de seu braço. Aquela era a segunda vez que permitia essa proximidade, e recebeu uma reprimenda de um anjo ao seu lado. No entanto, a cada vez que deixava Gregório, tornava-se difícil matar um de sua espécie. As marcas por todo seu corpo eram a prova disso, e sabia que com Gregório era o mesmo.

Ambos procuravam isolar-se com seus inimigos, incapacitando-os pelo resto da noite para que, na aurora, seus respectivos amigos os encontrassem e cuidassem deles. Mas apenas para que voltassem ao campo de batalha na próxima lua. Era um jogo perigoso, pois isso poderia matá-los.

Ao ter a boca da serpente de fogo próxima, Fenice voou, batendo as asas com violência e levantando poeira. A serpente de fogo piscou várias vezes, cega naquele momento, e Fenice aproveitou, passando a espada na asa da criatura de maneira que não tocasse em suas articulações. Apenas pele, que cicatrizaria dentro de bons dias. Depois, utilizando o punho da espada, próprio para ela com suas pedras que aumentavam a magia dos anjos, desacordou a fera. Estava distanciando quando o mesmo anjo que lhe chamara a atenção agora a segurava pelo braço.

— Termine — ele disse, a voz rouca e fria.

Fenice olhou para a fera desacordada. Negra como Gregório, mas as linhas não eram vermelhas, e sim amareladas. Fenice não ousou olhar para o outro anjo. Afinal, ela não poderia hesitar. E, se o fizesse, levantaria perguntas que não estava disposta a responder. Sentiu que seu coração sairia pela boca quando atravessou a garganta da serpente com sua lâmina. Somente depois voltou seu olhar para o anjo, mas ele já tinha ido embora. E Fenice se impediu de vomitar.

Dizer que a noite seguiu como todas as outras seria um insulto da pior espécie. As noites nunca eram iguais. A sede de sangue dos guerreiros sempre aumentava. A dor se intensificava. E a sensação de injustiça e impotência crescia em cada pedaço de alma, tanto dos anjos quanto das serpentes de fogo. Se é que pudesse dizer que ambas as criaturas possuíam alma com o banho de sangue que se formava naquele deserto.

Daquela vez, quando a aurora chegou, Fenice não correu para Gregório. Seu coração pesava pelas mortes que fora obrigada a cometer. Sentia-se suja, empesteada por algo que nunca a deixaria. E soube que Gregório sentia o mesmo quando o viu, já ao meio da manhã, na mesma igreja abandonada.

— Meu irmão — ele murmurou no ouvido de Fenice quando a abraçou forte. Ela sentiu sua pele queimar pelas lágrimas da serpente de fogo que aprendeu a amar com todo seu ser. E quando Gregório começou a contar do caçula de sua família, um garoto cheio de coragem e impetuoso, que se orgulhava das listras que lhe cobriam o couro negro, Fenice soube que havia sido ela a responsável pela tristeza dele.

— Me perdoe — pediu, sentindo as próprias lágrimas queimarem-lhe o rosto junto da vergonha e da dor que via naqueles olhos que tanto amava.

Mas Gregório não se afastou como ela pensou que ele faria. Ele não tinha forças. Amava Fenice demais para odiá-la, para jogar nela uma culpa que transcendia aos dois. Ele também havia matado pessoas que ela amava, que eram importantes para ela. Tanto antes, quanto depois de se conhecerem. Eles eram apenas peões em um joguete cruel. Criaturas afastadas por um abismo de dor. E, naquele momento, Gregório soube o que precisava fazer.

Retirou devagar as armas de Fenice. Depois a couraça que lhe protegia o tronco, as botas e as calças, deixando-a nua à sua frente. E pediu que ela o despisse completamente. Pele contra pele, Gregório a abraçou, sentindo o calor de Fenice contra si, a força do coração dela batendo enquanto ela percebia o seu. Com olhos sem lágrimas, encarou-a, buscando nas íris negras a recepção que ele tanto precisava.

Fazer amor daquela vez foi diferente de todas as outras vezes. A entrega foi maior, o pedido, mais dolorido, e a busca, implacável. Era o entendimento sem palavras, o dizer em gestos; a pergunta que eles tanto temiam sendo formulada em meio ao prazer, à necessidade.

Com as pernas entrelaçadas e as respirações finalmente tranquilas, eles adormeceram. E ao despertaram no meio da tarde, repetiram a pergunta um ao outro, dessa vez verbalizando, ousando trazer à luz o que sempre havia sido um tabu. Mas a decisão continuava a mesma, apesar de tudo o que poderia acontecer.

A noite então veio, fria, e os flocos de neve que enchiam a rua daquela cidade do norte do mundo terreno parecia abençoá-los. Mas nem Fenice ou Gregório se incomodaram em deixar aquela igreja abandonada. Afinal, precisavam pensar em coisas mais importantes do que numa guerra que nunca alcançaria seu final. Precisavam buscar o impossível. E aprender coisas que a guerra não ensinava. Como, por exemplo, construir uma casa no sopé de uma montanha. E, quem sabe, se o destino fosse bom, aprender a como criar quatro crianças sem a sombra da morte.

~* FIM *~

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