[Conto] A BUSCA PELO IMPOSSÍVEL – Parte II

A busca pelo impossível é um conto dividido em três partes.

A primeira parte, O beijo da aurora, pode ser lido AQUI.

~*~*~

Imagem: Google


LÁGRIMAS DO ENTARDECER

“Aquilo a que chamamos o nosso desespero
é frequentemente a dolorosa avidez
de uma esperança insatisfeita.”
– Mary Ann Evans –

Preguiçosamente, Fenice esticou-se naquele espaço pequeno que eles tinham escolhido para descansar enquanto o sol descia o meio do céu, indicando as primeiras horas da tarde. Sentiu a mão de Gregório em sua cintura responder ao movimento, puxando-a mais para perto, mas ele ainda dormia. Ela sorriu. E se chamou de tola, porém o que ela seria se não isso? Uma tola por amar Gregório, com todas as letras da palavra “errado” grafadas de maneira forte e berrante para quem – inclusive eles – quisesse ver.

Deixando para se preocupar com o estômago roncando uma hora mais tarde, talvez, Fenice aconchegou-se em Gregório, passando a mão pelo peito dele. A resposta veio em uma respiração profunda e em olhos que se abriram preguiçosos e brilhantes. Ah, como os olhos de Gregório brilhavam! Duas fogueiras acesas para todo o sempre, dançando com a luz, ora laranja-avermelhado, ora azul-amarelado. A mente dele estava tranquila àquele momento, então se aproximava bastante do azul.

Fenice continuou a olhá-lo, desejando que o tempo parasse, que o sol permanecesse exatamente onde estava para que a trégua se eternizasse. Desejou com toda a força que também dizia que ela era uma tola apaixonada. Como acontecia ao entardecer, a vontade de chorar veio, mas a segurou. Esticou os lábios em um sorriso que não deixou, porém, de demonstrar um pouco de sua tristeza que via agora refletida nos olhos de seu amor. Preferiu fechá-los, e sentiu Gregório beijar-lhe com ternura na testa.

— Conte-me o seu, primeiro — ele pediu, a voz suave como chuvas de primavera.

Respirando fundo para voltar à tranquilidade, Fenice então abriu os olhos. Dessa vez seu sorriso foi sincero e viu o azul receber o amarelo nos olhos de Gregório.

— Era um pequeno pedaço de terra, no sopé de uma montanha.

— Sempre tem uma montanha — ele sorriu, passando o nariz no dela e roubando um beijo rápido. Fenice riu e o afastou alguns centímetros.

— Gosto delas. Trazem proteção.

E por que não queria que Fenice se enredasse por aquele caminho, Gregório perguntou:

— E o que fazíamos ao sopé da montanha?

— Ah, muitas coisas — ela respondeu com um sorriso torto. O amarelo começou pouco a pouco a se transformar em laranja nos olhos de Gregório, e Fenice sentiu a mão dele em sua cintura mover-se até suas costas, as unhas dele passando com suavidade e fazendo sua pele arrepiar. — Vivíamos longe de tudo, tínhamos o que era preciso para sobreviver. E tinha as crianças.

— Crianças? — O sorriso dele foi grande, acanhando Fenice, que deu de ombros. Ela nunca havia sonhado com crianças. Nunca se dera a esse luxo, que havia principiado exclusivamente de Gregório. — Quantas?

— Duas. A menina tinha seus olhos, o menino, meu cabelo.

— No meu eram quatro.

Fenice riu. Claro que no sonho de Gregório haveria mais.

— Todos eles eram uma mistura perfeita de seus traços e minha força.

Dessa vez Fenice afastou-se um pouco mais e o olhou com as sobrancelhas erguidas. Gregório riu.

— Tudo bem, tudo bem. Minha beleza e sua força.

Fenice rolou os olhos, mas não estava aborrecida. Não tinha tempo para isso quando estava com Gregório.

— Anaí tinha seus cabelos — ele continuou e afagou as mechas da cor do carvão, longas e soltas, tão diferente de quando via Fenice enquanto era a lua o astro principal, nos céus. — Lya, os seus olhos e agilidade. Para o Nahab, os meus olhos laranja e a impetuosidade, mas também sua inteligência. E para Yoah, a pequena, que ainda estava em seus braços, ficaram suas asas.

Por muitos anos Fenice não sabia o que era chorar e sequer se lembrava da sensação de seus olhos se encherem de lágrimas. Logo, quando a primeira escorreu por seu rosto, ela não sabia o que tinha acontecido, embora soubesse à perfeição o que tinha provocado tamanha tristeza. Gregório havia nomeado as crianças daquela vez, algo que nunca, nenhum dos dois, tinha tido coragem. Era um passo perigoso, perturbador, que os fazia tanto se encher de esperança quanto saber que ela se esmigalharia no instante seguinte.

Fenice fechou os olhos e respirou fundo, os lábios de Gregório pousando nos seus com suavidade enquanto os dedos foram para as plumas imensas e suaves, branco que se perdia no cinza e se acastanhavam nas pontas. As terminações nervosas existentes em cada uma delas fizeram o corpo de Fenice se esticar, e em vez de se defender, como havia sido treinada desde que abrira os olhos para sua vida, encostou-se mais a Gregório, permitindo, sentindo, desejando. As pernas, que haviam ousado se afastar durante o sono, entrelaçaram-se novamente, enquanto os lábios se buscavam sedentos. Não demorou muito para Gregório ter Fenice sob si, juntando-se novamente a ela. E Gregório quis mais.

Ele girou o corpo com facilidade, deitando-se de costas no colchão frágil e trazendo Fenice para cima de si. As asas dela se abriram, uma resposta inconsciente que mostrava a Gregório que ela sentia o mesmo que ele; plumas suaves em uma envergadura poderosa e que ocupava todo o espaço que eles usavam de esconderijo. E Fenice nunca ficava tão bela como naqueles instantes.

Anúncios

2 comentários sobre “[Conto] A BUSCA PELO IMPOSSÍVEL – Parte II

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s