[Conto] A BUSCA PELO IMPOSSÍVEL – Parte I

 

Imagem: Google


O BEIJO DA AURORA

“Acontece que, para ter o que desejamos,

é melhor não falar do que queremos.”
– William Shakespeare –

Quando os primeiros raios daquele dia lhe queimaram a pele, Fenice recolheu-se para contar as perdas. Centenas haviam perecido e dezenas agonizavam sob o cuidado dos curandeiros. Ela estava exausta, seus músculos doíam, a mão machucada e com bolhas novas apesar da luva de couro. Ainda assim olhou ao redor, buscando qualquer coisa que pudesse fazer. Mas tudo já estava arranjado, como sempre acontecia. Então ela permitiu que seu coração se agitasse e um sorriso cansado lhe moldasse os lábios.

Discretamente, saiu do acampamento: um mundo arenoso isolado, protegido por magia, no meio do deserto africano. Enquanto estava sob a proteção do feitiço, voou baixo para que alcançasse a fronteira mais rapidamente, sentindo o ar abafado contra seu rosto e os pequenos grãos de areia, que se levantavam pela força de suas asas, entrando nas feridas ainda abertas da pele.

Sentiu o portal antes de ver a fenda que tornava o horizonte opaco e distorcido. Passou por ele sem que ninguém sequer a visse, e recebeu o ar gelado do norte com alegria. Recolheu suas asas, ocultando-as dos olhos mundanos, e caminhou devagar. Ninguém a notava e, se o fazia, desviava-se. Embora de uma beleza perturbadora, ela se parecia muito com aqueles pedintes de rua.

Os passos foram muitos antes de encontrar a igreja abandonada. Fenice ignorou a entrada principal, onde uma enorme placa dizia o quão perigoso era aquele lugar prestes a desabar. Pelos fundos, uma pequena entrada permitiu que ela passasse sem muitos problemas, colocando novamente ali o pedaço de madeira que servia como porta. O desenho na poeira indicou que ela não estava sozinha, portanto espalmou a mão na porta improvisada e invocou magia, de modo que ela ficasse grudada à parede, impedindo que qualquer um entrasse.

Braços a rodearam, apertando os músculos tensos e doloridos, mas ela não reclamou. Um corpo maior que o seu pressionou suas asas contra as costas, ativando alertas que ela facilmente mandou para o vento. Mãos rápidas retiraram a espada presa à cintura, o punhal na coxa e o espadim acima do quadril.

Havia poucas coisas no mundo que Fenice tomava por certa. A primeira era que, depois da noite, havia a aurora, e que ela era tão bem-vinda que o coração chegava a doer de felicidade. Já a segunda era Gregório. Se bem que Gregório deveria ser a primeira coisa certa no mundo para Fenice. Mas ele só existia por causa da aurora…

Finalmente livre de suas armas, Fenice virou-se nos braços de Gregório para olhá-lo. Assim como ela, ele também carregava pequenos cortes pelo corpo. Alguns arroxeados também se mostravam na penumbra da construção que mal recebia luz através de suas janelas quebradas. Desejou levá-lo para a luz, cuidar de seus ferimentos e permitir que ele cuidasse dos dela. Mas, como nas outras vezes, a prioridade foi invertida.

A tensão da batalha noturna ainda não se perdera, nem mesmo a adrenalina, e ter um ao outro tão perto apenas fazia o sangue correr mais rápido, porém de uma maneira muito melhor. Antes que qualquer palavra fosse dita, a calça encouraçada de Fenice já estava longe, fazendo companhia para as botas e as armas, e a boca de Gregório estava sobre a sua, buscando dentro dela a vida que eles tanto ansiavam.

Fenice rodeou a cintura de Gregório com as pernas quando ele a ergueu e a apoiou contra a parede de tijolos, finalmente livres de quaisquer reservas ou empecilhos. Havia um ardor presente nele daquela vez que, mesmo bem-vindo, a preocupou. Mas deixaria isso para depois. Afinal, a única preocupação que tinha era que Gregório precisava se mover mais rápido.

* * *

Quando finalmente conseguiram se separar, encontraram um colchão velho no que antes servia como aposento para um sacerdote. Fenice usou de magia para que as pequenas pragas o deixassem e Gregório o colocou no chão, deitando-se com ela. Beijavam-se o tempo todo, como se nunca fosse o bastante. E não era. Não quando precisavam se encontrar em um campo de batalha, com o céu repicado de estrelas, com a magia protegendo olhos e ouvidos mundanos da guerra que se estendia século após século. Uma guerra onde anjos diziam buscar naquelas batalhas o equilíbrio do mundo, perfurando e estraçalhando as serpentes de fogo que um dia ousaram quebrar o véu que separava o mundano do místico. Uma guerra iniciada pelos antepassados de Fenice e Gregório.

Em pequenos, eles recebiam o aprendizado de que os anjos e as serpentes de fogo não podiam se olhar sem que uma espada estivesse entre eles. E as espadas dos anjos tinha a textura certa para perfurar o couro de uma serpente de fogo e bloquear as chamas que saíam de suas bocas imensas e dentes que estraçalhavam.

As batalhas aconteciam à noite justamente para que o véu não fosse rompido. Pois, se uma pessoa comum olhasse por determinado tempo o espaço que dividia aqueles mundos, o véu poderia ruir. E a guerra os alcançaria novamente, criando consequências que eles não eram capazes de lidar. Nem mesmo com a tecnologia tão avançada e tão valorizada. Então cabia à noite, em sua escuridão, segredar aquelas criaturas milenares.

E com a aurora, vinha a calmaria. Vinham os feridos e os mortos. E, em um dia, Gregório veio para Fenice. Ela não esperava aquilo. Não depois de ter sido encurralada por uma serpente de fogo. Ela conseguira matá-la, banhando em sangue as escamas brancas que reluziam no luar e transformava a criatura em algo maravilhoso. Mas ela era tão perigosa quanto suas garras afiadas que se prenderam no braço de Fenice em seus últimos instantes.

Quando viu a segunda criatura se aproximar, Fenice percebeu que morreria. Afinal, o braço que segurava a espada estava ferido demais para sustentar o peso. A serpente de fogo se aproximou, seus curtos membros andando devagar no chão arenoso do imenso deserto, as asas se abrindo em uma envergadura monstruosa, negra como a noite e permitindo que a luz da lua mostrasse os contornos avermelhados que a tornava tão bela. Pois as serpentes poderiam ser cruéis, mas possuíam uma incrível beleza que deixava até mesmo os anjos boquiabertos. E ao ver-se prestes a morrer, Fenice apenas fechou os olhos e esperou.

Contudo, a dor lacerante não veio. O que ela sentiu foi um ar quente em seu rosto, um bafejar de sangue que a fez tremer e abrir os olhos. Íris alaranjadas a encaravam, a testa franzida grotescamente. A criatura a cheirou e depois se afastou, olhando para o leste e vendo o horizonte começar a clarear. Então voou para longe. E Fenice permitiu-se desmaiar pela dor.

Levou seis dias para que se recuperasse. E em todos aqueles dias não conseguia entender como a cruel serpente de fogo a deixara livre. Talvez porque temesse o sol, como diziam as lendas antigas. Mas apenas especulações não eram o bastante para Fenice, que logo buscou naquele canto em que quase morrera uma resposta. Visitava aquele lugar todos os dias, ficando ali quando o sol estava no céu. E em todas as vezes sentia o peso de um olhar sobre si, porém nada via.

Então, dez dias depois, Gregório se apresentou. Mas não a criatura alada que Fenice pensou que iria matá-la. Parecia-se com os terrenos, porém com uma estatura maior e mais encorpada, e cujos olhos mostravam a fera interior.

— Metamorfos! — murmurou Fenice, espantada. Gregório ainda estava distante, pronto para desaparecer ao menor sinal hostil que ela pudesse apresentar. No entanto, a curiosidade de Fenice era ainda maior do que seu ensinamento de guerra. — Àquela noite, na batalha. Por que me poupou?

Gregório então saiu das sombras e Fenice ofegou. Desde que se lembrava, ela tinha se maravilhado com a beleza das feras, e nunca os tinha visto em forma humana até agora. Gregório parecia ter sido esculpido cuidadosamente, exibindo uma beleza que apenas nos mais impossíveis sonhos alguém conseguiria imaginar. Uma sensação nova perturbou Fenice; por um estranho momento, ela sentiu que poderia confiar naquela figura que durante muitos anos tinha sido seu inimigo em batalha. E quando Gregório aproximou-se o bastante para aspirar seu cheiro como havia feito antes, na forma de serpente de fogo, o único movimento que ela conseguiu fazer foi oscilar perigosamente na direção dele como uma força magnética poderosa.

— Você tem cheiro de paz — ele disse baixo com sua voz rouca e que arrepiou a pele de Fenice. — E de algo que eu…

— O quê? — implorou, quase sem voz.

— Algo que eu nunca pude experimentar.

Logo as perguntas e respostas vieram, assim como as dúvidas e as antigas verdades que tanto os anjos quanto as serpentes de fogo não sabiam existir mais. Mas Gregório as sabia. Lera tudo em sua terra natal, quando ainda era menino, quando foi tirado da mãe por ela não aceitar aquela guerra sem fim, uma busca eterna de algo que nunca teriam. Pois a paz não seria alcançada com sangue. Nem mesmo o equilíbrio.

Entretanto, anjos e serpentes de fogo continuavam a digladiar, buscando no sangue do inimigo uma justiça que nunca teriam. Uma justiça que sequer sabiam o significado.

Entre ideias trocadas, segredos murmurados e sonhos ditos em meio a embaraços, Fenice e Gregório se apaixonaram. Um anjo e uma serpente de fogo. Ambos assassinos. Ambos desejosos de paz. Ambos sonhadores apaixonados que aguardavam em cada aurora pelo calor de seu amante, em um recanto do mundo terreno. O único lugar que poderiam ter ao menos alguns instantes de paz e ignorância.

~*~*~

A busca pelo impossível é um conto dividido em três partes.

Parte II – Lágrimas do entardecer
Parte III – Nos braços da noite

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