Mas e os cânones, poxa!

 

A gente tem um sentimento meio louco quando se fala em cânones literários: por mais que queiramos nos ver libertos disso, é quase impossível tirar o último pé desse espaço. E não falo isso quando me refiro à nossa Literatura do século passado. Não, não estou falando de Machado de Assis, Rosa Guimarães e nem de Clarice Lispector. Eles podem ter alguma culpa nesse nosso “vai, não vai” para aprendermos a apreciar uma boa e moderna literatura, mas estou me referindo à Literatura em geral. Ou, mais especificamente, à Literatura Fantástica.

Participei de uma discussão num grupo literário que começou falando sobre a necessidade de descrições em um livro de literatura fantástica, principalmente quando o autor apresenta aos leitores um novo universo. Se toda obra precisa ser algo como Tolkien, na série Senhor dos Anéis, com seus apêndices e eterna ladainha narrativa-descritiva, ou pode ficar algo mais simples como Rowling em Harry Potter, cujas explicações são leves dentro da narrativa. No entanto, a discussão não parou nesse tema (como acaba acontecendo em qualquer grupo de muitas pessoas). Ela acabou divergindo sobre cânones literários.

Isso aconteceu, porque eu disse que não entendi por que os vampiros de Crepúsculo brilham. Talvez porque tenha lido as obras há um tempo, ou porque minha memória preferiu excluir isso. Mas não interessa. É que foi quase a partir daí que se começou a falar das ramificações e mudanças das mitologias a torto e a direito.

Sabemos que não há uma enciclopédia ou um manual dizendo que vampiros são seres noturnos, que morrem à luz do sol e dormem em caixões, como sabemos que encontraremos uma explicação detalhada sobre Realismo Brasileiro, por exemplo. Para este, se quisermos escrever alguma coisa, teremos que nos prender a vários cânones. Mas com fantasia não é assim.

Falamos dos vampiros de Anne Rice, de Charlaine Harris e dos brilhantes de Stephenie Meyer (houve até uma comparação com um diamante negro que rendeu algumas risadas, mas, enfim…). Como a gente acha estranho e vê com maus olhos os vampiros brilharem, teres poderes sobrenaturais, quando os de Harris apresentam algumas dessas características (como voar), e o de Rice ter uma coloração mais pálida (pela falta de circulação sanguínea). Ou seja, decidimos escolher Anne Rice como cânone. Talvez porque ela foi uma das primeiras que agradou depois do (também praticamente um cânone Bram  Stoker ou por Crepúsculo ter sido uma modinha. E quem tem coragem de dizer que curte modinha, enquanto lê George Martin? (Aloou, olha outro cânone aí se formando a partir de um bestseller!). Só uma observação: bestseller = na moda.

“Deus, eu odeio vocês. Odeio desde o primeiro maldito trailer.”

“Ah, não”

Ok, voltando.

Rowling também está quase se transformando em um. E como é possível diagnosticar isso? Fácil, fácil. Não se pode falar mal dos cânones. Tolkien, Rowling, Rice, Martin, Owel, King… Quem é você para dizer que há falhas em suas obras? Quem é você para desvirtuar o que eles lançaram no mundo? Quem é você para dizer que vampiros podem brilhar? Ou não podem?

Uma pessoa no grupo falou que a gente se prende tanto nesses cânones, que nos esquecemos que literatura, principalmente a fantástica, é ter mente aberta. Nada é concreto. Nada é certo. TUDO é inventado. Então, por que não posso ramificar um pouco aqui, esticar ali, inventado lá? Por que não posso pegar a ideia dos anjos caídos e transformá-los em criaturas quase humanas e que se digladiam com seus irmãos por poder? E, além disso, colocar um pé deles na feitiçaria para lançar maldições complexas em um mundo novo? Eu posso fazer isso. É ficção. É fantasia. Não é Escola Literária pronta para ser estudada, decorada e analisada em vestibular. Um anjo não precisa ser necessariamente bom, e o diabo não precisa ser a figura grosseira, pestilenta e doentia que todos pregam (cheiro de Spohr nesse trecho? Sim!).

Apenas para finalizar o raciocínio, digo que, sim, você precisa ler fantasia para escrever fantasia. Se quiser escrever sobre Iara, precisa ler folclore, mas não precisa ser Monteiro Lobato. Se quiser escrever sobre bruxidade, seria interessante ler sobre a Inquisição e Mitologia, mas não precisa se enfiar em Rowling ou Geralt de Rivia. Não que você também não possa lê-los. A questão é que você precisa saber onde está se metendo. Saber em qual mundo está entrando para que não fique se perguntando “E agora?” ou, o que acaba sendo comum,  pensar que está criando algo inteiramente novo. E em Literatura, e principalmente a fantasia, nada é 100% original: é tudo questão de pegar os clichês e saber “o que”, “onde” e “como” moldá-los.

E aí você me pergunta: mas, e os cânones? O que faço com eles? E eu te dou duas respostas:

1 – Use-os como base. Mas apenas como base.
2 – Pegue tudo e jogue no lixo.

E sem terceira opção? Bem, sim. Use os cânones como base, distorça-os e crie algo a partir deles, mas não sendo eles. Porque, convenhamos, originalidade em clichês acaba sendo muito mais legal. Mesmo que ela venha com dificuldade. Ou talvez por ser justamente difícil…

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