Não se pode escrever nada com indiferença

Simone de Beauvoir
1908 – 1986 

Tem dias que a coisa simplesmente não vai. Sequer sai do lugar. Até parece que anda para trás, confundindo os rastros tão bem colocados, disfarçando-se de pegadas, mas no fundo é apenas uma confusão de passos, caminhos e horizontes. Focar-se para além de onde está é difícil. Pede concentração, disciplina, cuidados. Pede entrega.

Quando se sentar em frente ao computador se transforma em desgaste, deixando de lado o prazer, o desafio e as surpresas, então é porque você precisa se virar e recontar os passos. Não os confusos. Aqueles corretos, pegadas mesmo, os que fincaram e não sairão por nada. Refazê-los é o primeiro passo – mesmo que isso pareça redundante.

Olhar para aqueles seres criados por você sem sentir que um sorriso vai se abrir, ou a tristeza vai apertar – até mesmo a raiva, porque tem umas crias que, olha… – é o mesmo que olhar para o céu e enxergar o tempo cinzento com o sol forte em um tapete azul-claro. Ter indiferença é enxergar o nada. O vazio. Mergulhar-se em um abismo sem que no fundo as cores tenham a chance de voltar, ou que você não consiga se agarrar à parede, naquela queda, para poder voltar a respirar o ar puro, ver as cores, sentir os aromas.

A cada linha trabalhada, a cada palavra escolhida, está ali a deferência do escritor. Sua amorosidade, seus minutos gastos em raciocínios, em busca ou exclusão de rimas. Afinal, “não se pode escrever nada com indiferença”. Nem mesmo “indiferença”.

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