[Conto] O assassinato de Doroti Belmont

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Datando da época em que Dom Pedro II ainda morava no Brasil, a casa imperial perdia a cada ano sua majestade, com buracos no teto, encanamento desgastado que traziam água com ferrugem e sem aquecimento, pedaços de parede que simplesmente despencavam nos jardins que gritavam por cuidados. A rua também não era mais tão movimentada, pois a cidade crescera com a modernidade, deixando aqueles lados históricos em um passado que poucos queriam se agarrar. Havia apenas as famílias de pobres ou migrantes, os quais infestavam aquelas bandas como gambás em busca de comida velha.

A fraca luz do sol que entrava pela fresta da janela daquela construção, e que já vira anos mais bonitos, mal iluminava o quarto mal arrumado. O cheiro de mofo e poeira impregnava o ar, misturando-se ao aroma de perfume adocicado, conhaque francês e vodca russa. Um contraste com a velharia desolada que se tornara aquele lugar, aquela casa e, também, sua proprietária. Também contrastando e fazendo companhia ao conhaque e à vodca caros, havia os pequenos porta-retratos com suas fotos em preto e branco de uma mulher jovem, sorridente, claramente alegre e que alcançara a felicidade.

Era como entrar em um paradoxo temporal, na verdade. Passado e presente se encontrando e se batendo, um tirando do outro sem piedade e gritando a verdade cruel de que os tempos mudaram, e mudaram para pior.

No único banheiro decente da casa, uma mulher de cerca de setenta anos se olhava no espelho. Era um espelho bonito, daqueles que se encontram apenas em antiquários, ou em construções antigas como a da família Belmonte Silva. A imagem refletida no espelho, apesar de sua dona admitir apenas em momentos de profunda amargura, lembrava fortemente as fotografias em preto e branco do quarto. A versão atual, entretanto, era coberta de rugas, de pele que insistia em sobrar abaixo do queixo ou na região miserável do braço e que não permitia mais os belos decotes, mangas curtas ou colares que tanto a abrilhantaram no auge de sua juventude. O brilho nos olhos mudara de felicidade para sonhos que se desfazem e a boca sempre sorridente parecia miúda naquele rosto.

Dorotéia Belmonte Silva era ela agora, naquela casa velha, com aquele rosto enrugado, olhando-se ainda sonolenta.

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