O chapéu panamá do Seu Joaquim

Todos os dias, enquanto a bengala não fazia parte de seu cotidiano, ele ia até o boteco que ficava a dois quarteirões de casa e se sentava com alguns colegas para jogar baralho. Não era um homem de vícios, nada disso… Tinha até um filho que se deixava levar pela bebida e que vez ou outra dava trabalho para os irmãos, e isso lhe partia o coração sempre que o via. Era como olhar para o passado e tentar encontrar, em vão, o erro que cometera para que isso acontecesse. Mas, depois de um tempo, seu Joaquim parou de procurar por um erro que não lhe pertencia. Deixava que a vida levasse seu curso e entregava para Deus os problemas que não conseguia resolver. Ou então para sua falecida esposa, que ele acreditava olhar pelos filhos onde quer que estivesse. Ele queria apenas aproveitar o tempo que viera com a aposentadoria e ser feliz na medida do possível.

Mas o boteco, o baralho e os colegas de velhice não eram os únicos responsáveis pelo tempo de seu Joaquim. Havia também aquele banquinho de madeira e com assento de couro gasto, que ficava no corredor da casa, ao lado do portão, apenas esperando para ser usado. À tarde, quando o tempo estava fresco e a sombra já se projetava para além da calçada, seu Joaquim pegava o banco e o colocava na esquina. Nessa época, a bengala também já lhe fazia figura.

Quem passasse por aquela rua movimentada, que dava acesso para a saída da cidade, sempre via o velho senhor, com seu chapéu panamá cor de palha escura, gasto, sentado no baco e apoiando as mãos na bengala. A cabeça inclinava-se, pois os anos foram muitos, mas os olhos, sempre atentos, não deixavam passar nada. Sempre acenava para um conhecido, sorria timidamente para quem o cumprimentava de maneira efusiva, embora no geral a feição séria que mostrava sua personalidade sistemática permanecesse.

Eu também passava por aquela esquina, de vez em quando. Acenava e sorria, recebendo o mesmo em troca. Quando a esquina perdeu seu ocupante solitário, foi triste, como se faltasse algo do próprio mundo, um pedaço da paisagem arrancada sem consultar e de maneira grotesca. Era impossível não olhar para aquela esquina e não ver o velho Seu Joaquim com seu chapéu panamá na cabeça inclinada e a bengala sobre as mãos cruzadas. Ainda é impossível. Mesmo depois de dez anos.

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