Um retorno à delícia juvenil

Desde outubro eu não pegava um livro para ler. Prender-me em projetos próprios acabou atrasando minhas leituras e confesso que senti falta. É bom demais conhecer novos mundos, fantásticos ou não, e se permitir aventurar em uma história já pronta, que apenas te espera. Talvez seja por isso que gostei por ter voltado ao meu hábito de leituras com o primeiro volume da série Crônicas de Fímbria.

O livro tem uma narrativa leve, mas também que atinge o emocional. Ou talvez seja pela leveza que o emocional acaba sendo tocado… Não conhecia Paul Stewart ou Chris Riddell, e a apresentação, com Fora da Trilha, foi sensacional. A parte fantástica do livro é de uma riqueza maravilhosa e a sutileza com que ele descreve Fímbria, logo no capítulo introdutório, é de fazer cair o queixo. O livro é direcionado para o público infanto-juvenil, então tem tudo o que um pré-adolescente precisa. Uma busca por respostas e uma identidade, amigos sinceros e a descoberta de que nem tudo é o que parece, e tudo isso recheado de aventuras belas e perigosas. Pois assim é a Matafunda.

Escura e envolta em mistério, a Matafunda é cruel e perigosa para os que a chamam de lar. E muitos o fazem.[…] É uma vida dura e eivada de perigos mil – criaturas monstruosas, árvores carnívoras, hordas predadoras de bestas ferozes, grandes e também pequenas. E no entanto ela também pode ser proveitosa, pois as frutas suculentas e os bosques boiantes que ali vicejam são altamente valorizados. Piratas do céu e mercadores confederados competem no comércio e travam violentas disputas acima das infindas copas verde-oceano. – Páginas 09 e 10.

Esta foi apenas uma pequena introdução, a qual prepara o leitor para o que irá aparecer nas decorrentes 254 páginas.Twig é um garoto criado por sua mãe Spelda, uma arboritrol, que vive na Matafunda. Ele e nem a mãe sabem por que Twig foi encontrado ainda bebê, com pouquíssimo tempo de vida e envolto em um xale. Então, para que ele não seja dado aos Piratas do Céu por seu pai-arboritrol (que vê nele uma decepção), a mãe o faz ir até um parente para se esconder. Twig começa sua jornada, ainda de noite e sob o choro de sua mãe Spelda. Entretanto, ele acaba fazendo o que é imperdoável para um arboritrol: Twig sai da trilha.

E é aí que começam as aventuras de Twig. Ele conhece todos os tipos de criaturas que vivem na Matafunda, amigos verdadeiros – e alguns deles complicados -, porém também conhece criaturas cruéis e muito perigosas. Passa por provações, adquire conhecimentos valorosos, mas sempre acabando sozinho. É essa a sensação o tempo todo no livro: de que Twig é um garoto fadado a ficar sozinho, nunca se encaixando, desde que foi encontrado pela arboritrol Spelda.

Em relação à parte técnica do livro…Não há como não falar, pois vi este livro primeiramente no blog Mundo de Fantas, da Celly Borges. E nos comentários nós discutimos sobre a diferença da capa e tradução em relação à edição portuguesa. Em Portugal, a Porto Editora preferiu uma capa mais adulta, e a tradução é mais ao pé da letra. Já a Companhia das Letras mudou um pouco. A capa ficou mais infantil e sua tradução foi mais elaborada, digamos assim.

Um ano atrás eu havia achado ruim e estranha as escolhas da Companhia das Letras. Mas, agora, vejo que não (rendeu até uma procura no dicionário para a palavra “fímbria”). E achei fantástica as opções de tradução do Ricardo Gouveia. Sei que tradução é uma coisa complicada, e o tradutor tem que se prender não apenas ao pé da letra, e sim o que aquela palavra tem em relação ao livro num todo. Igual a “troll da floresta”, para a edição portuguesa, e “arboritrol” para a brasileira. É uma pegada bem inteligente, devemos confessar.

Edições portuguesa e brasileira

Então, Crônicas de Fímbria (ou Crônicas do Abismo, da Beirada) me tirou mais um dos pré-conceitos que eu tenho sobre edições literárias. E, também, me fez respeitar ainda mais o trabalho de tradutores (embora tradução de nomes eu não goste…James/Tiago, por exemplo).

Enfim… Fora da Trilha é um livro delicioso. Recomendo-o para quem gosta de literatura infanto-juvenil, mas também para aqueles que gostam de uma leitura leve, para um domingo à tarde, quando você não quer ter muito o que pensar ou raciocinar enquanto vira as páginas, mesmo que elas te façam pensar (sim, é contraditório). Como eu disse, a narrativa é de uma leveza gostosa (não que não haja momentos difíceis de engolir…), e as ilustrações, que ocupam grande parte do livro e são feitas por Riddell, são maravilhosas, não deixando nada para a imaginação do leitor. Você pode ler e olhar a imagem que tudo só fica mais vivo em sua mente. Dá até para matar a saudade de quando eu estava na escola, lendo Os Karas pela primeira vez, finalmente entrando no mundo dos livros…

Fora da Trilha


Título:
Crônicas de Fímbria: Fora da trilha
Original: The Edge Chronicles: Beyond the Deepwoods
Editora: Companhia das Letras
Edição/Ano: 2005
Páginas: 256
Sites:  Skoob; The Edge Chronicles

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2 comentários sobre “Um retorno à delícia juvenil

  1. Lívia Cavalheiro disse:

    Pois é.. é uma trilogia, mas só tem dois livros. E a trilogia, vi depois, faz parte de uma série (num total de quatro trilogias!), mas não creio que os outros livros tenham sido publicados aqui. =( Então, como começar uma série que não dá pra terminar, a não ser comprando em Portugal, pagando o preço que o Euro está e um frete de doer o fígado? =/

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