O martelar da inspiração

Ela queria voar. E, porque queria, voou.
(Inspiração I)

É incrível como todo e qualquer escritor – profissional ou não – tem aquela desculpa bem esfarrapada de que aproveitou que se inspirou em algo para escrever. Sim, é uma desculpa esfarrapada (que eu dou frequentemente, vale dizer). Afinal, não é a inspiração aproveitada que faz um escritor escrever. Não acredita? Bem, vou justificar.

Revivi o blog depois de quase dois meses sem escrever. Não porque sentia saudades (apesar de isso ser verdade), mas porque queria escrever. Queria mesmo! A inspiração quase transbordava de mim, com histórias surgindo, personagens acenando como se fossem uma luz de trem num túnel escuro, criaturas fantásticas praticamente voando sobre minha cabeça como se eu pudesse tocá-las, ou, simplesmente, na forma de uma linda menina que nasceu não faz mais de uma semana (mais conhecida como minha sobrinha Melissa).

Mas, deixando de trelelê, vou explicar o motivo da desculpa esfarrapada de escritores.

É uma desculpa dizer que uma música te inspirou, que uma cena num livro te fez ter aquele clique, ou que a paisagem bucólica de um hotel-fazenda te fez pensar em uma cena perfeita para um conto que poderia muito bem virar um romance. É uma desculpa, pois um escritor, aquele que realmente precisa estar sempre escrevendo alguma coisa, mesmo que seja uma reles frase ou bilhete para o amante, está sempre à espera da inspiração. Está à espera da música, da leitura e da cena corretas para que seu clique aconteça. É quase um treinamento diário, uma espera constante e, por que não dizer, deliciosa.

As palavras saltaram da página e logo a cena aconteceu na minha frente.
Sem censuras, sem pressa e sem temor elas, simplesmente, aconteceram.
(Inspiração II)

Portanto, é realmente uma desculpa esfarrapada dizer que você estava lá, todo lindo, tranquilo, sem nada na cabeça, e de repente ouviu algo que te inspirou. Afinal – e vou redundar só para ficar mais explicadinho e cravado na sua mente -, se você não estava fazendo nada, com sua mente em branco, sua tela já estava pronta, apenas esperando. Igual um arquivo em doc de Word, com seu cursor piscando, enquanto você navega pelo Facebook, lê as notícias nos sites jornalísticos.

As lágrimas caíam como chuva, manchando o vestido,
ligando-se a ele intrinsecamente.  Lágrimas negras de luto. Lágrimas negras de dor.
(Inspiração III)

Digo isso não como prepotência – longe de mim! -, mas pelo simples fato de que, se você é escritor, se realmente gosta, ama, adora o que faz, quando está na frente do seu computador ou com o caderno no colo, vai concordar comigo que, em todo e qualquer momento, você pode ter aquele clique. Pois sua mente já espera. Já está treinada. Já deseja acabar com aquele tempo ocupado com alguma coisa que te mantém longe de sua tela branca para que ela seja preenchida o quanto antes.

Penso que nós, escritores – e reafirmo: profissionais ou não -, somos iguais àquele joelho sendo martelado na clínica médica quando se verifica o reflexo. Esperamos, ansiosamente, pelo martelar no lugar certo para que nosso joelho se levante. E quanto mais alto, melhor.

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