A arte de ler pinturas

Eu não sou profissional em Artes Visuais. Na verdade, nunca parei para ler algo sobre isso. No entanto, ler quadros, tomando como base meu conhecimento de mundo e a parte artística que conheço – que é sobre as letras -, é um hobby que gosto muito de praticar. Quando fui à Pinacoteca de São Paulo, no fim do ano passado, me deliciei com os traços românticos, com o barroco, mais pela realidade que eles mostram e a paixão do que pela História em si. Não havia muitas informações sobre os quadros ou suas épocas, e isso eu achei uma coisa muito triste. Pelo menos, e por pura sorte, consegui pegar uma coisa ou outra que um professor falava para seu pequeo grupo de alunas sobre o motivo de se usarem o dourado (e até ouro!) nos quadros barrocos, sua riqueza em detalhes e tudo o que forma esse período artístico tão importante.

Bored amazon by Alex KravchekIn Pinterest

Apaixonei-me por um quadro que demonstrava um homem – aparentemente gaúcho, pelas vestimentas – caído no chão, morto, com seu cavalo ao lado de cabeça baixa. Se não me falha a memória, o quadro se chamava O Encontro – o qual, julgo eu, não aconteceu, e se aconteceu, o pobre homem morreu por amar alguém que não deveria (procurei-o pelo Google, mas não achei imagem alguma).

A questão é que eu gosto de analisar obras artísticas (ou ao menos finjo que analiso…). E faço isso o tempo todo, seja quando visito um site de Wallpapers ou o Pinterest. Acho muito legal quando recebo aqueles e-mails do tipo “Talvez você goste disso”. (Claro que tem um lado assustador pela internet saber, quase exatamente, o que eu gosto ou deixo de gostar… Mas esse é o mundo tecnológico, não estou mais na década de 90, quando malemá tínhamos um computador em casa). Então, eu perco um tempo grande olhando, procurando, analisando, até… Pode ser uma adaptação de um desenho da Disney (cujas obras eu gosto muito) tendo o excelente artista Alphonse Mucha a fonte de inspiração, ou uma pintura original…

Já vi artes que me fizeram pensar em uma história, mesmo que curtinha, outras que me remeteram a amigos, ou situações que eu já criei literariamente em meus escritos – tanto os que estão postados aqui quanto os que estão apenas em meus arquivos pessoais. Chega a ser interessante o quão forte é essa impressão fotográfica que temos.

Depression by WallpaperswideRemete à “Divagações sobre Anita”

Já essa bela arte de Edmund Dulac feita para o livro Rubaiyat de Omar Khayyam, de Edward Fitzgerald, lembrou-me muito de uma amiga, tanto pela delicadeza quanto pela feição da mulher. À primeira vista tem-se a delicadeza, acentuada pelos pavões brancos e puros, a roupa azul cobrindo todo o corpo embora não aparenta estar prendendo ou sufocando. E então vê-se sua feição tranquila, até sorridente, pensando em algo que fará tão logo acorde. Pode ser uma prisão onde ela está, com os barcos ao fundo fora de seu alcance, o lugar alto impedindo uma provável e talvez desejosa fuga. Mas, mesmo assim, não se abate, continua a sonhar, a deixar-se levar pela imaginação e seus pensamentos, que sempre serão livres.

Ilustração de Edmund Dulac para RubaiyatIn Pinterest

Talvez eu seja apenas uma adoradora da Arte em si, e apenas a que realmente me faz querer aprofundar-me é a Arte das Letras, a Arte das Palavras. Talvez, com elas, eu me sinta mais à vontade por conseguir colocá-las em prática. Mas, mesmo assim, a Arte Visual ainda é tão importante como a capa de um livro e sua diagramação interior… Afinal, primeiro “comemos com o olhos”, e depois, somente depois, vem a satisfação em digerir cada coisa, independente e então combinadas.

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Apenas um adendo, que descobri depois sobre a pintura de Dulac enquanto procurava seu nome ou algo mais específico. Encontrei o poema que Dulac ilustrou e é tão belo quanto triste. Mas há aqueles que digam que a verdadeira beleza da arte está na tristeza… Bem, não poderia discordar, embora que, também, o faça.

Fiz uma tradução livre, e vocês podem conferir o original neste link.

PENSAMENTO SOBRE LADY YANG À MEIA-NOITE
-Anônimo, Coréia, c. 1100-1150

Observando sozinho junto à antiga muralha da cidade,
Pensando em alguém que era tão bonita,
O que eu vi? O que ouvi?

Luar, trêmulo sobre pátios vazios,
A voz chamando além das sombras da meia-noite.
Um nome, o nome dela, ecoa através do silêncio.
Pés leves, os pés dela, em sapatos de penas de pavão,
Dança pelos corredores vazios. Eles nunca descansarão?

Pensando em alegrias que findaram e tristezas que nunca terminam
Encontro meu manto branco salpicado de lágrimas por ela.

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