[Conto] Apagado

Apagado

Nada mais era o mesmo. Após tantos anos, o gosto da água havia mudado, o sol queimava e incomodava mais, as chuvas não o deixavam dormir e o ar parecia muito pesado. Não sentia vontade de ficar na rua, apreciando o ar fresco de início de noite, ou de fumar o cigarro de palha que sempre o acompanhou. Pois até mesmo o fumo perdera a graça e o sabor.

Os porta-retratos pareciam uma heresia, mas mesmo assim enfeitavam a sala de visitas que não viam mais viva alma, a não ser Ana. A querida e impaciente Ana, que tentava trazer um pouco de vida para o pai e falhando tão miseravelmente que Seu Antônio se sentia morrer a cada chegada e despedida. Pois os sorrisos que eles viam eternizados nos porta-retratos eram como pregos cravados na carne, e que eram remexidos a cada segundo de alívio. As toalhas floridas e desbotadas e as cortinas agora rotas e sujas pelo gato gordo e velho eram como ele.

Os olhos cansados e desprovidos de vontade de Seu Antônio passaram pela sala empoeirada, pelos porta-retratos gastos, pelas flores apagadas da toalha de mesa e as que insistiam em manter-se vivas no parapeito das janelas. Os pés se arrastavam no chão até alcançar o quarto, o único lugar da casa que ele insistira em manter limpo e arrumado.

Deitou na cama de lençol de seda antiga, sentindo-o como novo sob a pele enrugada. O canto direito estava vazio, mas ele sentia a presença de Bete como se ela não tivesse morrido há tantos anos. Morrera de tristeza, muitos disseram. A perda do filho a afetara de tal maneira que a velha senhora definhou até não ter forças para manter o coração batendo.

Seu Antônio não queria que a mesma moléstia o acometesse, mas era difícil resistir. A luta estava sendo perdida a cada dia. A cada foto de Bete, a cada bolo comprado na padaria com gosto de nada, a cada arroz com feijão que a vizinha tão caridosamente trazia, com temperos tão distintos, que pareciam sufocá-lo. A cada visita de Ana, tão parecida com a mãe. Tudo tinha um gosto amargo. Tanto a água da torneira quanto o mel que comprara para o vendedor não ficar lhe enchendo a paciência ao portão.

Ele sabia que o gosto amargo era o que lhe perseguiria até que se deixasse levar. Era a Morte o chamando. A Morte com “M” maiúsculo. Mas ela não viria em um carro virando inesperadamente na esquina ou em um escorregão no banheiro. Ela viria quando Seu Antônio estivesse deitado na cama, nos lençóis que Bete tanto cuidara para manter igual desde a primeira noite de casados, e crente de que ficaria naquela casa até não poder mais. A Morte viria quando ele se entregasse e desistisse.

Mas Seu Antônio era teimoso. E demorou em resistir. Demorou quase dez anos para desistir.

O calendário marcava um dia depois da data de aniversário de casamento de Bete e Antônio quando Ana foi até a casa. E o que viu no quarto encheu seus olhos de lágrimas e seu coração de tristeza e alívio. O peito de Seu Antônio não movimentava e a pele estava pálida e fria. Contudo, a feição do pai estava finalmente em paz, sorrindo como fazia ao ver a mulher vestir uma roupa bonita e arrumar o cabelo. E por um momento fugaz, Ana teve a certeza que ele não estava sozinho na cama.

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