[Conto] O saxofonista

O Saxofonista

As manhãs de sol eram as melhores. Eram cheias de luz, calor, como ele gostaria que fosse sua vida. Não que ele dispensasse as nubladas, com seu cheiro gostoso de terra molhada, mas a chuva o restringia à solidão de sua casa, aquele canto que ele sempre ficava pensando, lembrando, remoendo-se até, finalmente, afogar-se na música e no vinho, adormecendo em seguida.

As músicas de dias de sol eram alegres. Lembravam paixão, beijos roubados, brincadeiras a dois que o faziam rir sozinho entre uma nota e outra.  As de chuva eram profundas demais, nostálgicas demais, com lágrimas demais. Afinal, ele havia pensado demais.

Aquela era uma manhã de sol. As notas do saxofone iam altas e longas, melodiosas e soltas, com uma harmonia que o fazia sorrir perdido em lembranças. Cada dó-bemol era um gemido gutural, e o lá-sustenido era uma risada indiscreta. A sequência tripla era o olhar provocante, pedindo, buscando o dele para que se entregasse a ela sem reservas. Como ele fazia com a música, com o saxofone.

Ninguém parava para ouvi-lo enquanto ele se perdia, sentado no banco do parque em um local afastado, tocando o saxofone como se estivesse fazendo amor com a mulher que o havia deixado. Ninguém, a não ser ela.

Ela, que conhecia seus costumes, seus desejos e rituais. Que sabia o que cada nota significava de tanto observá-lo dia após dia, sentado naquele banco. Ela não conhecia nada de música. Mas o via franzir as sobrancelhas ao som mais grave, sorrir ao mais agudo e uma expressão de saudade quando a melodia se seguia em sequência rápida e ininterrupta. Ela sabia que aquela música lhe trazia boas lembranças, pois sempre sorria quando voltava para sua casa, o saxofone bem guardado na maleta. Era uma música de dia de sol. Os dias nublados o deixavam melancólico.

Daquela vez, porém, ela parou. Aproximou-se com cautela, sem querer assustá-lo, sem querer que ele parasse a melodia. Sentou a poucos metros, sentindo o calor no rosto, enquanto a música lhe aquecia a alma. Quando a música parou, ela o olhou para ver sua expressão. Sentiu-se enrubescer diante do olhar curioso. Ela apenas lhe sorriu.

A partir daquele dia, ela o ouvia tocar sem precisar de cautela, sem se questionar o motivo de tantas expressões. Pois ele passou a tocar para ela todas as notas do dó-bemol, o lá-sustenido e a sequência tripla. E ela finalmente entendeu. E o amou. E as lembranças do saxofonista tornaram-se frescas, fazendo com que todos os dias se tornassem dias de sol.

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