Dessa fé eu não morro

 
– Por que você não discute comigo? – perguntou Wednesday. – Por que 
você não fala que isso é impossível? Por que diabos você simplesmente 
faz o que eu mando e aceita tudo com essa porra dessa calma?
.
– Por que você não me paga para fazer perguntas.

(Páginas 259-260) 

Adquiri Deuses Americanos  juntamente de Lugar Nenhum, Sinal e Ruído e Mr. Punch (estes dois últimos, graphic novel) em uma ótima promoção no fina do ano passado pelo Submarino. Iniciei sua leitura ao meio de dezembro e só terminei agora. Uma de minhas leituras mais lentas, devo dizer. E tudo culpa do livro.

Deuses Americanos é um livro sarcástico. Seus diálogos comprovam isso. Mas, ao contrário de muitas resenhas que vi por aí – e até mesmo da opinião de amigos que me indicaram Gaiman -, Deuses Americanos não me cativou. Não nego a inteligência da obra, apenas não é o tipo de enredo que me prende.

A história foca-se principalmente em Shadow, um ex-presidiário em liberdade condicional, que se vê no meio de uma luta entre deuses. Não como Imortais, algo mais bastidores. Não sabemos o nome de Shadow, que recebeu tal apelido ainda criança. Ele é escolhido por Wednesday para que o proteja durante uma viagem que deverá fazer. Wednesday é um deus – cuja identidade descobrimos depois de um tempo – que está organizando a oposição desta guerra. Ele é um deus antigo que está caindo no esquecimento como tantos outros, e como qualquer um que já esteve no poder por tanto tempo, não quer cair no esquecimento.

Em meio as narrativas das viagens de Wednesday e Shadow, que encontram outros deuses para essa causa, temos também os Estados Unidos antigo, quando africanos eram trazidos para as Américas como escravos, trazendo consigo suas crenças e deuses; quando os vikings aportaram nessas terras, fazendo o mesmo. Há, também, a origem de muitos deuses e cultos, com os quais Gaiman nos brinda de maneira excelente. Um paralelo muito bom, com passado e futuro se apresentando para se entrelaçarem ao fim de tudo.

Capas norte-americanas

Porém, mesmo em meio a tanto misticismo e histórias fantásticas, o livro não prendeu pelo seguinte motivo: Shadow mais parece uma paisagem comum no livro. Um personagem um tanto sem graça, sem profundidade, que grita o estereótipo de “grande e burro” e não se importa com isso. Talvez isso aconteça por sua esposa, Laura, ter morrido em um acidente de carro enquanto estava com outro, ou porque ele simplesmente está sem motivação alguma. Mas não acho que isso sirva como desculpa para o apagão que é este personagem.

Outro fato que me fez desgostar de Deuses Americanos foi o jeito que Gaiman traçou seu enredo. Um livro parado além da metade, com Wednesday viajando para lá e para cá, com Shadow escondido em uma cidadezinha esquecida por Deus (e deuses), tendo seus dias monótonos pensando por que deve ficar ali,  quando um carro irá afundar no rio congelado, sendo que foi contratado para ser segurança de um homem. Nem mesmo os mistérios que tem no livro fazem com que ele seja digno de uma leitura ativa.

De todos os muitos personagens que apareceram neste livro, minha favorita foi Sam. Uma jovem que aparece do nada pedindo carona a Shadow e, depois, reaparece na tal cidadezinha, quando nos brinda com ótimas pérolas intelectuais. Adorei esta garota de verdade.

O fim do livro, suas últimas 80 páginas, foram o melhor, para mim. A apatia de Shadow quebrou um pouco, finalmente nos é apresentada a tal batalha entre os deuses que Wednesday tanto organizou e Laura tem o fim que tanto queria (ah, sim, ela volta dos mortos, vale dizer…).

A história fantástica do livro é fenomenal. Mas é realmente uma pena que o enredo falhou em profundidade e ativismo. Não é um livro que me dá vontade de reler. E nem me estimula a pegar os outros de Gaiman que adquiri. Contudo, prefiro pensar que essa reação (ou falta dela) pode ser apenas devido a esta leitura, e não o que Gaiman tem a oferecer.

Título: Deuses Americanos
Original: American Gods
Editora: Conrad
Acabamento: Brochura
Edição: 3ª (capa sem orelha, cujo plástico protetor se soltou das beiradas)
Páginas: 447

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2 comentários sobre “Dessa fé eu não morro

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