Maria, Maria

Maria, Maria
É um dom, uma certa magia
Uma força que nos alerta.
“Alguém” que merece
Viver e amar
Como outra qualquer
Do planeta

Maria, Maria >> Milton Nascimento
[com uma leve adaptação no 4º verso]


Maria é uma boa menina. De apenas seis anos, age como tal. Brinca, ri, faz perguntas bobas e – por que não? – constrangedoras. Ela e Ana estavam com a professora e a moça da cozinha veio oferecer café. A professora recusou, mas Maria disse que adorava café.

– Por isso que você é dessa cor? – Ana perguntou. Então virou-se para a professora. – Né, tia? Ela toma muito café, então ficou pretinha.

Maria não entendeu a pergunta, deu de ombros e chamou a colega para brincar. A professora achou a situação engraçada pela ingenuidade da criança.

Mas Maria também tinha problemas. O pai não estava em casa (ao que se sabe, fugindo por ter matado o vizinho a facadas) e a mãe não se importava muito. A família que continha cinco crianças, sendo a mais velha de quase 10 anos, era assistida pelos assistentes sociais, e vez ou outra a escola doava roupa para as crianças.

– Roupa de novo? – perguntou João, irmão mais velho, com cara entre animado e surpreso. – Pra quê, tia? Minha mãe joga fora mesmo.

– Por que, João?

– Ela não gosta de lavar – diz dando de ombros.

Porém, voltemos à Maria.

Vez ou outra, ela entra na secretaria – mais especificamente quando falta pouco tempo para dar o sinal de ir embora – e pergunta à tia que trabalha ali se ela levou o esmalte de novo.

– Aquele, tia, com cheiro gostoso.

– O que endurece a unha?

– É, tia! Aquele amarelinho. Quero endurecer minha unha também! – E então Maria mostra as mãozinhas, cujas unhas estão curtas e com um esmante branco com detalhes em rosa.

A tia da secretaria sorri e pega o esmalte de cravo (que somente as mulheres de unhas moles e quebradiças saberão qual) e o passa nas pequeninas unhas de Maria, que volta para a sala cheirando as unhas e feliz, pois suas unhas vão crescer grandes, fortes e lindas.

Mais, tarde, então, Maria volta, reclamando que o pé dói. A pedido da moça da secretaria, tira a bota e mostra o dedão com uma aparência nada agradável.

– Está inflamado, Maria. Você precisa falar pra mamãe te levar no médico.

– No Postinho, tia?

– Isso.

– Tá bom. – E Maria volta para a sala de aula.

No dia seguinte, Maria volta à secretaria e fala com a moça:

– Tia, minha mãe não me levou no Postinho.

– Você mostrou seu dedo pra ela?

– Mostrei, tia. – E Maria retira novamente o sapato, pois seu dedo está doendo. – Olha, tia.

A moça olha o dedo da criança e sente um nó se formar. Está pior que no dia anterior, com pus se formando no canto da unha.

– E o que ela disse? – pergunta, então.

– Nada.

– Então você fala para ela de novo hoje. – E em pensamento guarda na memória para falar para a professora mandar um bilhete no caderno da criança.

A moça da secretaria, entretanto, não sabe se Maria conseguiu melhorar a unha dela. Na verdade, ao ver a  unha da menina de seis anos, lembra-se do irmão um ano mais velho, cuja mãozinha estava incrivelmente inchada e infeccionada por um pequeno espinho que estava ali há dias, causando até mesmo febre na criança. E a moça se pergunta, então, o que era tão importante para a mãe de Maria que não tinha tempo de levar a própria filha de seis anos no médico do Posto de Saúde a um quarteirão de sua casa.

E a moça ainda se pergunta por que o ser humano consegue ser tão egoísta e mesquinho a ponto de não dar a mínima atenção a uma criança de seis, sete, dez anos, que é sua própria filha.

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Maria é uma criança fictícia.
Neste caso, uma junção de tantas crianças deste mundo,
país, estado… de minha cidade.

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2 comentários sobre “Maria, Maria

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