A Pipa

Eu me lembro que meus dias de domingo quando criança eram praticamente iguais. Íamos os cinco à missa das dez horas da manhã e então almoçávamos em casa ou (como era frequente até meus doze, treze anos) na casa de meus avós paternos – uma algazarra que rendia risadas até o sol se pôr. Porém, quando não visitávamos o Sr. Durvalino e a Dona Adelaide, as tardes pareciam mais divertidas. Não que não fosse legal sentar com os primos em uma mesa pequena com cadeiras pequenas feitas pelo meu avô metido à carpinteiro e ouvir a gostosa risada dele, a qual me lembro até hoje. A questão é que, quando não acontecia aquele almoço, a lagoa da cidade era o alvo de minha família.

Quando o domingo era reservado apenas para nós, no dia anterior os papéis de seda coloridos, as varetas de bambu e as latas de Pomarola e Nescau já estavam prontos para serem manuseados. Os papéis retângulos e sem-graça ganhavam forma losângicas: dois tamanhos diferentes. Até hoje não sei exatamente qual é o nome das pipas – pois dependendo do tamanho e seu desenho, elas ganham nomes diferentes. Eu só sei que adorava soltar a maior.

A azul, pequena, mas de rabiola grande e branca, era muito rebelde. Além disso, quando eu a soltava (ou empinava, vai do vocabulário de cada um) eu tinha que correr, e não era legal ter meu pastor alemão correndo atrás de mim para pular em minhas costas a qualquer momento. Eu gostava da maior, maior estabilidade, mais difícil: a pipa amarela com uma pequena rabiola vermelha. E usava minha irmã mais velha para segurá-la uns quinze metros à frente para facilitar sua subida – o que ela odiava, vale dizer!

A tarde ia longa, com risadas, disputas para ver quem fazia a pipa subir mais, se conseguiríamos soltar todo o carretel e deixar a lata de Pomarola – ou de Nescau – totalmente visível. Ou quem conseguia segurar com os pés as respectivas latas sem quase nada de linha.

Meus pais se afastavam alguns metros, deixando-nos soltar pipa e brincar com o cachorro – hoje eu sei que era para namorarem um pouco. Eles só se aproximavam ou interferiam em nossas brincadeiras quando as brigas aconteciam e nem o Pimpo dava conta (sim, meu pastor alemão imenso se chamava Pimpo). Mas as brigas não eram nada demais, só um puxão de cabelo aqui, um chute ali; nada que nos forçasse e soltar as preciosas pipas. Então, por fim, lá estavam de novo as risadas.

Era muito ruim quando o sol se punha, os insetos começavam a incomodar e minha mãe dizia para irmos embora, pois alguém tinha tarefa para fazer e no dia seguinte teríamos escola.

Sei que esses domingos não voltam mais. Domingos com pipa ou almoço em meus avós estão apenas marcados em minha memória. Mas é bom, de vez em quando, lembrar que eu tive uma ótima infância, sentei no colo do meu avô, ajudei minha avó a fazer bolinhos de arroz e consegui me queimar com a linha da pipa.

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