[Conto] E eles viveram

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Há muitas definições para um beijo. Às vezes é apenas uma demonstração de carinho fraternal, ou uma tentativa de levar alguém para a cama. Mas há momentos, aqueles momentos, no qual um beijo demonstra tudo o que sentimos, não importa o tempo e a intensidade que tenha sido. O beijo que eles trocaram não demorou mais de cinco segundos – embora tenha tido outros entre risos de alegria. Porém, naquele momento, havia cumplicidade, carinho, respeito e amor. Era o momento que eles esperavam tanto para acontecer, o instante em que tudo seria diferente e melhor.

Tinha uma música ao fundo, como sempre acontece nos filmes de romance quando o casal principal finalmente consegue alcançar a felicidade. Se fora coincidência ou não, eles não se importavam. Mas o violinista solitário juntara-se ao violeiro e sua parceira, contagiados pelo que acontecia naquele momento. Pois eles presenciaram o final de tudo.

Eles viram, curiosos, uma moça andar apressadamente, passando por pessoas distraídas e pássaros da praça, enquanto o homem, do outro lado, andava no mesmo ritmo – se não mais rápido! – sem se importar se esbarrava em alguém. E se os três músicos sem emprego estivessem na mente deste casal aparentemente desesperado em se encontrar, teriam visto um filme passar nos instantes que precedeu o beijo dito anteriormente.

Uma moça cheia de amigos, sempre alegre, divertindo-se em qualquer ocasião. Ele, sempre rindo com ela, fazendo parte de sua vida antes de tudo se transformar.

Um happy hour em um barzinho com amigos em comum que durou a tarde e atingiu o início da madrugada. Ele a havia levado em casa, então, ao se despedirem, algo não o permitiu virar o rosto totalmente, então os lábios se encontraram. Anos depois de amizade, o primeiro beijo. Culparam a bebida.

Passaram-se semanas sem tocarem no assunto, continuando a serem apenas bons amigos, como sempre. Mas o ciúme estava lá quando algum deles aparecia com outra pessoa.

Portanto, as visitas tornaram-se mais frequentes. Os risos trocados apenas entre os dois, mais comum. Ligações sem nada importante para dizer, ou simples mensagens de “Bom dia!” às sete horas da manhã, constantes.  Na troca de olhares, o entendimento tornou-se fácil.

Então, ele recebeu a ligação que esperava há muito tempo. Doze meses em outro país, especializando-se. Ela o apoiou, é claro. Com o coração apertado por ter seu amigo longe, seu companheiro. Foram os doze meses mais sofridos que ela havia passado.

Os risos esmoreceram um pouco, outros perceberam. Fizeram piadinhas, como é comum entre amigos. Ela as recebia, sem se importar, mas notando que tudo era verdade. Afinal, há sempre verdade nas brincadeiras.

Ela sentia falta dele. Muita. Fora cega em pensar que aquele beijo fora apenas um beijo, não o início de algo maior. Pois o destino, quando junto do coração, usam tramoias e subterfúgios para conseguir o que quer se for importante e verdadeiro.

Então ele voltou. Parecia mais bonito, mais inteligente. Ela e os amigos fizeram uma festa de recepção, com decoração e tudo o que ele gostava e que ela se lembrava muito bem. Como sempre, a festa durou o fim da tarde e toda a noite. Conversaram muito, ele contando o que havia feito no estrangeiro, ela deleitando-se com suas histórias e dizendo o quão entediante havia sido aqueles doze meses sem as mensagens de “Bom dia!”.

Foi o último a ir embora. Ao despedirem-se, a decepção: apenas um beijo na bochecha.

“Ele se esqueceu de mim”, ela pensou, fechando a porta e encostando-se, aos prantos. Mal sabia que, do outro lado, ele fazia o mesmo, embora não chorava. Estava apenas inseguro. Pois doze meses foi muito tempo.

E as semanas se passaram, ela querendo se distanciar, esquecer-se da esperança que brotara em seu coração. Ele, insistindo, tentando, inseguro. Até que a insegurança o irritou. Mandando-a as favas, preparou-se para mandar a mensagem às sete horas da manhã. E, seguida a ela, outra mensagem. Mais corajosa. Mais verdadeira.

“Me deixe ser o único. Prometo te amar, não importa o que vier. Pois você sabia o que eu senti quando me olhou, ou apenas percebe agora?”

Ela ficou estática, sem saber como agir. Queria ligar para ele. Queria receber sua ligação. Então, o celular vibrou novamente. Outra mensagem.

“Me encontre na praça. Ao centro. Onde ficam os músicos.”

Talvez os músicos soubessem o que se passava entre aquele casal que ria e se beijava sem reservas na frente de todos, pois a música fora muito parecida com os versos que ele mandara a ela, pelo celular.

Não cabe, aqui, dizer o que se passou com este casal. Pode-se dizer, apenas, que eles viveram. Felizes sim, enquanto tudo durou, enquanto o amor foi recíproco, assim como respeito e a amizade. Se foram trinta semanas ou trinta anos, o que importa?

Eles, apenas, viveram.

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Conto inspirado na música Let Me Be The One, de Kevin Costner and Modern West, aceitando o desafio do (hoje extinto) fórum de Harry Potter – Lumus Maximum. 

 

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