[Conto] O negro de Corredeiras

 

José de Oliveira era um rapaz bonito. Com seus dezessete anos, já ultrapassava o pai em altura e inteligência, além de saber montar um cavalo como ninguém. A primeira coisa que fazia ao acordar era cavalgar pela Fazenda Corredeiras depois de tomar uma caneca de leite diretamente da teta da vaca, com café e um pedaço de pão quente com manteiga.

O destino de sua cavalgada toda manhã era um cume de onde conseguia ver toda a fazenda. Via os homens tratando do cafezal e as mulheres cuidando da casa e da roupa; os moleques corriam de um lugar a outro, tentando ajudar seus pais. Orgulhoso, José reparou que logo começaria o tempo de colheita, e o café produzido na Corredeiras correria fronteiras, chegando na América.

O que tornava o café de seu pai Joaquim tão especial era a enorme quantidade de negros que adquirira nos últimos anos. Com a mão-de-obra escrava não havia tantos custos, e o lucro da Fazenda era cada vez maior no decorrer dos meses. José sentiu-se orgulhoso, pois ele fora um dos que auxiliara o pai na compra da última remessa de escravos. Dez homens fortes e três mulheres, sendo estas incrivelmente capazes de deixar uma casa impecável.

Os olhos do rapaz foram na direção da Casa Grande, uma enorme construção amarelada a algumas centenas de metros de onde ele estava. As negras já penduravam os enormes lençóis, impecavelmente lavados, e pela chaminé percebia-se que o maravilhoso cozido de Zeza estava começando.

Zeza era uma excelente cozinheira, e José a conhecia desde que nascera. Fora uma das primeiras escravas da família Oliveira, e a mãe do rapaz, Sinhá Rosa, a tinha em grande estima. Assim como todos da família.

Mas não é sobre Zeza que essa história fala. É sobre um garoto que as negras que serviam a casa dos Oliveira adotaram como um filho. Um moleque espevitado, metido a sabichão, e que por tais características caíra nas graças de Joaquim de Oliveira. Ninguém sabia seu nome de batismo, mas não se importavam. Para o pessoal da Fazenda Corredeiras, assim como na pequena cidade que havia há uma hora a cavalo, o negro se chamava Pindoba. Ele havia recebido esse nome por ter sido encontrado em cima de uma palmeira nas cercanias do nordeste. Quando veio para São Paulo, assim era chamado.

Os anos que vivera na Fazenda Corredeiras transformara Pindoba em um dos escravos de confiança de Seu Joaquim. Mas era com José a real fidelidade do negro. A amizade que havia entre eles – na medida que um escravo era amigo de seu senhor – era o bastante para José pedir de tudo a Pindoba. E quando digo tudo, é tudo mesmo.

Cartas de amor escondido, pequenos roubos de vinho na despensa da casa – claro que era a safra que o pai odiava e nunca sentiria falta –, acobertar o rapaz nas noites em que chegava tarde… E naquela manhã José precisaria de Pindoba mais uma vez. Sabia que o amigo não gostaria de sua proposta, mas faria mesmo assim.

Ainda olhando para a Casa Grande, José viu o negro sair, correndo na direção do cafezal. Sorrindo, direcionou o cavalo, encontrando-se com Pindoba. Alguns negros que trabalhavam ali olharam desconfiados – não gostavam da amizade de escravo e senhor. Cada um tinha seu lugar, e não era bom tentar se sentir como os homens brancos. Essas histórias nunca acabavam bem.

Sem se importar com eles, Pindoba abriu seu enorme sorriso, os dentes brancos e incomumente perfeitos destacando-se em sua pele negra como a noite.

— Dia, sinhozinho! Zeza disse que o sinhô tava me chamando.

— Bom dia, Pindoba. É que estou precisando de uma ajudinha de vosmecê.

— Diz que eu tento fazê, sinhozinho.

José apeou seu cavalo. Uma vez que gostaria de segredo para o que pediria a Pindoba, era melhor estarem mais perto.

— Sabe aquela cesta de frutas que a Zeza separou para receber o senhor Prefeito? Preciso dela.

O sorriso de Pindoba murchou. Roubar vinhos e pedaços de bolo da cozinha de Zeza era uma coisa. Outra, muito diferente, era desfazer o enorme trabalho que a cozinheira estava tendo nos dois últimos dias.

A família de Joaquim de Oliveira era a mais importante das cercanias da cidade de Corredeiras de São Sebastião. Uma vez por mês havia festas ali, recebendo toda a gente importante da cidade e da região. O trabalho na cozinha era imenso quando essas ocasiões aconteciam, e retirar uma laranja do lugar ocasionava um imenso caos. Que dirá um trabalho inteiro!

— A cesta, sinhozinho? Zeza mata eu!

— Ela não vai sentir falta. Além disso — emendou José em uma inspiração de última hora —, já falei com minha mãe. Ela disse que não haverá problemas, falará com Zeza para ela fazer outra.

Pindoba pareceu um pouco desconfiado. Zeza não era do tipo que gostava de refazer serviços, mas… Escravos deveriam obedecer seus senhores, não questioná-los.

— Para quando o sinhozinho precisa?

— Depois do almoço. Vou me encontrar com a Aninha embaixo da mangueira perto do rio.

— A-rá! — riu Pindoba. — Então vosmecê vai se encontrá com a filha do coronel!

— Era o que estava escrito na carta de ontem.

— Deixo tudo preparado, então.

— Perto da senzala dos moleques — disse José enquanto montava seu cavalo mais uma vez.

— Tá bom, sinhozinho.

Quando chegou a hora de levar a cesta de frutas, Pindoba preferiu tomar cuidado. Pelo que havia dito o sinhozinho José, Sinhá Rosa sabia que o filho afanaria uma cesta; porém, encarar o olhar mortífero de Zeza não era algo bom. Aproveitando a distração das poucas cozinheiras, Pindoba, rápido como somente ele sabia ser, pegou uma das quatro cestas que havia em cima da mesa. A única pessoa que o viu andando apressado e preocupado para a senzala dos moleques foi o Coronel Arruda.

O Coronel, responsável pela cidade, havia chegado mais cedo à Fazenda a pedido de Seu Joaquim. Já era sabido dos dois o interesse do filho do fazendeiro pela filha do coronel, e que tal sentimento era recíproco. Portanto, como mandavam os bons costumes, os dois patriarcas deveriam se entender para que se iniciassem logo os preparativos do casamento.

Assim que entrou na Casa Grande, Seu Joaquim o recebeu como a um irmão. E entre taças de licor de jabuticaba – a especialidade da fazenda além do café, é claro –, a conversa chegou até mesmo à lua-de-mel do jovem casal.

— Aninha tem vontade de conhecer Paris. Não sei o que essa menina pensa que será aquela cidade. Eu ainda prefiro ficar com Rio Grande do Sul, meu estado do coração. Portanto, Quinca, se vosmecê não se importar, fique então com as despesas do casório que eu me preocupo com a viagem dos dois.

— Por mim está tudo bem, Arruda. Eu pago o casamento. Na verdade, tenho quase certeza que minha mulher já está com quase tudo preparado, afinal, vosmecê sabe como que são as mulheres.

Os dois homens riram e ergueram as pequenas taças de licores pelo que deveria ser a milésima vez. No mesmo instante, eles ouviram a voz irritada de Sinhá Rosa vindo da cozinha.

— Como sumiu, Zeza? Uma cesta deste tamanho não é engolida pela terra com tanta facilidade.

A voz da escrava, súplica, já era ouvida pelos homens que se aproximavam para saber o que se passava.

— Tô dizendo, Sinhá! Tava aqui mesmo, tô mentindo não! Pergunta pra Maria, se não tava aqui!

— É sim, Sinhá! Tava aqui sim! — já dizia Maria, embora não fosse pedida sua opinião.

— Que gritaria é essa? — perguntou Seu Joaquim. — Que se passa, Rosa?

— Alguém afanou a cesta de frutas e tortas que estava em cima da mesa, Quinca. E essas duas não fazem ideia de onde ela está.

— Quando cheguei, eu vi um de seus escravos levando uma cesta para a ala das senzalas, Quinca — disse o Coronel Arruda.

— Quem?

— Aquele que vosmecê sempre mandas lá para casa.

— Pindoba? E por que ele roubaria uma de nossas cestas? — perguntou Sinhá Rosa ao mesmo tempo em que Seu Joaquim já gritava pela janela da Casa Grande o nome do escravo ladrão. Em instantes, o rapaz aparecia feito um corisco para dentro da casa.

— Chamô, patrão?

— Onde está a cesta que vosmecê afanou, Pindoba?

— Eu não afanei cesta nenhuma não, sinhô.

— Quando eu cheguei na fazenda do compadre Joaquim, eu o vi levando uma cesta para a senzala, negro — acusou o Coronel.

— Vai desmentir o Coronel, Pindoba?

— Não, sinhô! Eu só peguei a cesta, porque o sinhozinho José pediu.

— Então vosmecê está chamando meu filho de ladrão, negro?

A situação não pedia tanta alteração de nervos. Mas, devemos lembrar que tanto o Coronel quanto Seu Joaquim estavam embriagados. E que, dentro de poucos minutos, uma festa se iniciaria naquela Fazenda tão prestigiada. O que todos diriam, se soubessem que um negro metido tinha acusado seu patrão de furto? Todo o prestígio da família Oliveira iria parar na senzala. Além disso, não havia algo pior para Seu Joaquim do que um negro mentiroso e ladrão.

— Pedro! — Seu Joaquim gritou pela janela mais uma vez. E se você estivesse olhando para Pindoba naquele momento, veria o terror que se formou na face do rapaz.

— Pois sim, patrão?

— Leve o Pindoba. E eu quero uma confissão de que ele roubou a cesta da cozinha da Sinhá Rosa.

Os dois braços de Pindoba foram agarrados por dois capatazes, uma vez que gritar por Pedro era o mesmo que chamar seus dois companheiros de trabalho.

— Mas e os convidados, Quinca? Não será uma coisa boa ter um escravo berrando no meio de uma festa, não acha? Além disso, será hoje que anunciaremos o noivado de José e Aninha.

— Bem pensado, Arruda. — Então olhou para Pedro. — Amordace o negro.

Pindoba não era um rapaz medroso. Ah, não era mesmo. No entanto, enquanto era arrastado por aqueles homens brancos que se achavam superiores simplesmente por terem a pele clara, sabia que tudo estaria perdido enquanto José não aparecesse com Aninha.

Ao mesmo tempo em que o primeiro convidado chegou, Pindoba, com um pedaço de pano grosso em sua boca, levou a primeira chicotada. E assim sucederam mais nove. Um dos capatazes retirou o pano, mas o escravo disse que não havia roubado nada. Que apenas obedecera ordem do sinhozinho José. Pedro o chamara de mentiroso e lhe lançava mais dez chibatadas.

Depois de um tempo, Pindoba não sentia mais nada. Parecia que estava fora de seu corpo de pernas dormentes e costas que pareciam labaredas. Faltavam algumas horas para amanhecer quando Seu Joaquim, José e o Coronel chegaram onde o negro estava sendo castigado.

— Ele confessou?

— Nada, patrão.

— Esse negro é um abusado. Rouba o que não lhe pertence e ainda acusa o filho do dono dele! — indignou-se o Coronel. Notava que ambos estavam muitos mais alterados pela bebida do que antes. — Acho que vosmecê terá que fazê-lo de exemplo, Quinca.

— José — chamou Seu Joaquim. A feição dele não era nada convidativa. — Ele disse que foi vosmecê quem mandou roubar a cesta. É verdade?

José olhou para Pindoba, estendido no chão, num estado que poderia ser dado como morto. Olhou então para seu pai e o Coronel, que esperavam uma resposta. No entanto, José sabia que não era uma resposta qualquer. Seu pai não tolerava roubo, mesmo que fosse o filho o autor de tal ato. Ele fora o responsável por Pindoba estar naquela situação. Porém, José amava Aninha, e se dissesse que fora ele quem pedira ao negro para afanar uma cesta para ele comê-la com a filha do Coronel, sabia que o casamento seria desfeito naquele momento. E também, o jovem pensou consigo mesmo, tentando arranjar qualquer desculpa para o que iria fazer, não existe essa coisa de amizade entre patrões e escravos. Nós somos melhores. Eles são apenas animais.

A cena que se seguiu a traição de José foi uma das piores que os olhos da Fazenda Corredeiras já vira. A crueldade de Seu Joaquim para com seus negros ladrões e mentirosos era afamada, e alguns acreditavam que essa fama chegava até mesmo na capital do império.

Aos mentirosos: a língua arrancada. Aos ladrões: eles definhavam até à morte, encarando o objeto furtado. No caso de Pindoba, fora comida.

Enterrado até o pescoço, com o rosto coberto por melado e tendo um prato de comida à sua frente com frutas e tortas, aquele rapaz sofreu o pior dos martírios na terra de chão vermelho cheia de formigas que pareciam besouros. Quando o dia nasceu, os capatazes ainda o encontraram respirando; o rosto, irreconhecível pelo ataque de formigas carnívoras. Mas não importava. A cova já estava aberta. Antes que a primeira pá de terra lhe acertasse o peito, Pindoba já não respirava mais.

Dizem que por aquelas redondezas, depois da morte injusta e cruel do escravo, a Fazenda Corredeiras não mais prosperou. O café de Seu Joaquim não crescia mais como antes, os escravos foram vendidos, e o Coronel Arruda precisou mandar a filha e o genro para a capital, tentar a sorte na venda de um parente. E dizem que lá, na cidade grande, José enlouqueceu. Além disso, quem passasse pelo local que Pindoba fora torturado e enterrado vivo, ouvia lamentos e gritos pelo caminho, e se não tomasse cuidado, erraria o trajeto, perderia o que tinha e poderia até ser atacado por formigas carnívoras se não tomasse o devido cuidado.

Hoje, muitos e muitos anos depois, tentando apaziguar o sofrimento daquela alma, os habitantes da antiga Corredeira de São Sebastião montaram uma bela capela para Pindoba, e todo ano, no dia do Padroeiro da cidade, fazem uma peregrinação, levando comida e oração para o negro das Corredeiras.

Dizem que a alma está serena. Porém, ninguém ousa passar por aquelas bandas durante a noite. Eu, por exemplo, não passaria.

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