[Conto] A vida sem título

A vida sem título

Ela sabia que aquela noite seria boa para escrever. Todos os seus instintos diziam isso. Sua inspiração fora reforçada. Estava alegre, tudo parecia estar dando certo. Não, não estava apaixonada. Apenas inspirada. Ler lhe fazia bem. E escrever mais ainda. Os três livros que praticamente tinha devorado em menos de uma semana serviram como um bálsamo para seus dias turbulentos e cheios de trabalho; livros que mostravam pessoas apaixonadas, determinadas e, por que não?, completamente diferentes de tão iguais.

Os paradoxos se cruzavam em sua mente, dizendo que em vez de escrever, deveria agir como suas personagens: fazer o que elas faziam nas páginas digitadas no computador. Porém, nas páginas do computador elas estavam protegidas; ninguém as julgaria; ninguém lhes olharia torto. O que é um olhar torto para uma personagem? No instante seguinte, ela se defenderia, rebateria qualquer tipo dessa injúria. Mas na realidade, a pessoa de carne e osso é rechaçada. Julgada. Diminuída.

Mais uma vez, naquela noite, ela queria ser como as personagens que tanto criava. Queria sorrir quando tivesse vontade, gritar quando estivesse nervosa, xingar se necessário e poder virar as costas quando alguém lhe respondesse de uma maneira que não concordasse – ou, quem sabe, fazer um gesto obsceno para calar e chocar de vez a pessoa que a irritava. Gostaria de abrir a janela e gritar “Para o inferno, todos vocês!”. Quem sabe gritar em uma janela que não fosse a sua?

Por isso que, em vez de abrir a janela – ou simplesmente ir para janela alheia –, ela simplesmente se sentou em frente ao seu computador e, mais uma vez, pôs-se a escrever.

E assim ela ganhava o mundo, conhecia amigos, conquistava amores e era conquistada. Colocava-se no lugar de suas personagens (as favoritas, é claro! Criadas cuidadosamente). Beijava quando queria e sofria beijos roubados; se irritava, mas sentia sua felicidade aumentar; chorava, mas seus momentos de alegria eram demasiado intensos; perdia algumas coisas, mas as conquistas eram imensas. Ela simplesmente vivia.

Vivia do jeito que um dia gostaria de viver. Vivia plenamente, sim, mas também no vazio. Afinal, vivia através de outrem.

Àquela noite, olhando para a página em branco aberta de seu computador, o cursor piscando, exigindo uma única letra, ela sentiu-se só. Percebeu que, através dos outros, não existia alegria. Através de outrem, não havia conquistas. Não havia beijos, não havia amor.

Não havia vida.

Então ela soube.

Antes de sonhar, deveria viver.

Antes de sorrir enquanto escrevia uma cena de beijo, deveria beijar. (E beijar muito!)

Antes de escrever uma cena de briga, deveria brigar. (Pois a vida não é fácil)

Então, finalmente, ela conseguiria escrever qualquer coisa. E, tempos depois, poderia escrever uma crônica. Um conto. Uma história ou romance. Quem sabe até publicá-lo?

E tudo isso ela conseguiria, pois, antes de escrever a criação de uma nova vida, ela sabia que deveria, simplesmente, viver.

E então ela viveu sua vida real.

E escreveu.

E a vida encantada, finalmente, aconteceu.

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